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A partir de inícios dos anos 60, a Checoslováquia começou, ainda que de forma incipiente e cautelosa, a desestalinizar-se. Simultaneamente, iniciaram-se algumas reformas económicas que exigiam liberalização intelectual, económica e política.

Estas reformas eram exigidas pelos economistas e empresários que reclamavam o alargamento dos mecanismos de mercado, a reforma dos preços, o fim do congelamento salarial, a abertura económica a Ocidente; e pelos intelectuais que protestavam contra as restrições às liberdades individuais e contra a concentração do poder nas mãos de uma minoria da sociedade.

Na Checoslováquia, onde o estalinismo tinha sido particularmente duro e duradouro, persistia na sociedade, e mesmo dentro do Partido Comunista, um sentimento de choque e de incredulidade com o contraste entre as esperanças que ainda tinham no comunismo e a realidade do regime. Por isso, não é de estranhar que as reformas tenham vindo de dentro do próprio partido. Durante os anos 60 foram desenvolvendo dentro do Partido Comunista da Checoslováquia (PCCz) núcleos e sectores reformistas que reclamavam alternativas face ao dogmatismo e à rigidez do regime. Estes estabeleceram contactos e pontes com gente fora do PCCz, integraram comissões e comités de trabalho que o Comité Central auscultava e exprimiam-se em diversas instituições72.

Alexander Dubcek, rodeando-se destes reformistas, lentamente, formou uma verdadeira fracção, que se foi espalhando pelos diferentes escalões partidários e órgãos dirigentes do partido. Em 1968, conseguiu chagar a dirigente máximo do PCCz.

Em Abril desse ano foi publicado o Programa de Acção do Partido que preconizava um sistema federal em que a população checa e eslovaca tinha igualdade de direitos; admitia uma reforma eleitoral com a possibilidade de escolher entre várias listas e candidatos; dava autonomia às empresas; suprimia a censura e proclamava a liberdade de reunião. O Programa foi entusiasticamente recebido pela população e começaram-se a formar organizações políticas, clubes e associações à margem do Partido Comunista Checo.

A União Soviética temia o contágio destas ideias aos restantes países de “democracia popular” e temiam a aproximação da Checoslováquia a países que manifestavam tendências mais centrífugas, como a Roménia e a Jugoslávia. Embora Dubcek sempre tivesse procurado não hostilizar a União Soviética manifestando sempre a sua fidelidade aos princípios marxista e nunca questionando o papel do partido73.

72FINK, Carole; GASSERT, Philipp; JUNKER, Detlef, 1988, 1968. The World Transformed, Cambridge, Cambridge

University Press, p. 121

A União Soviética, embora hesitante, mas temendo a fragmentação do bloco soviético, decidiu avançar com uma intervenção militar e derrubar o novo regime checo. O plano de invasão foi decidido pela Comissão Política do PC da União Soviética nos dias 20-21 de Julho e posto em prática a 16 de Agosto.

Na noite de 20 para 21 de Agosto de 1968, um exército do Pacto de Varsóvia, constituído por 250 mil homens, invadiu as fronteiras da Checoslováquia. Às primeiras horas da madrugada do dia 21, desembarcam no Aeroporto de Praga forças paraquedistas e equipamento de artilharia e começam-se a ouvir nas ruas os barulho dos primeiros tanques. Nos dias seguintes os dirigentes do PCCz, incluindo Dubcek, foram levados pelas tropas soviéticas, sob custódia, para Moscovo. Era imposta a doutrina da soberania limitada de Brejnev, ou seja, o poder dos soviéticos intervirem em qualquer país aliado que ameaçasse desligar-se do movimento comunista internacional.

Perante a invasão, o governo e a direcção do PCCz apelaram à não resistência da população contra os invasores. Porém, a população rapidamente transformou a sua estupefacção em resistência e em lampejos espontâneos de revolta. Ainda a meio da tarde do dia 21de Agosto, as ruas de Praga enchiam-se de gente, colocavam-se vendas nos olhos das estátuas dos heróis nacionais para que não assistissem à invasão das tropas estrangeiras. Nas principais cidades, cordões humanos cercavam as instalações da rádio nacional para que pudesse noticiar livremente a evolução dos acontecimentos. Em várias localidades, os nomes das ruas eram arrancados e as placas das povoações eram destruídas ou os seus nomes substituídos ou tornados ilegíveis para desorientar o exército soviético. Por todo o lado ocorriam manifestações, entoavam-se canções patrióticas e empunhavam-se bandeiras do país. Os tanques soviéticos eram cercados pela população e pintados com a cruz suástica, era, lançados cocktails Molotov contra os blindados e nas ruas de Praga ocorriamm os primeiros confrontos e troca de tiros entre a população checa e o exército soviético74.

Nos primeiros meses de 1969, cerca de setenta mil checos abandonaram o país e ocorreram os primeiros actos de desespero individual. Em Janeiro desse ano, o estudante Jan Palach imolava- se pelo fogo numa praça central de Praga, em protesto pela falta de liberdade; no mês seguinte, o seu exemplo foi seguido por Jan Zajic; e em Abril por Evzen Plocek.

Todavia, a Primavera de Praga ia sendo sufocada. Porém, começa a crescer a consciência de que o modelo soviético estava esgotado, a maioria dos partidos comunistas europeus condenaram a invasão soviética e muitos dos seus militantes começam a questionar o modelo político soviético estaliniano como utopia igualitária.

O Partido Comunista Português, contudo, colocou-se ao lado da União Soviética no ataque

University Press, p. 149-150

às reformas da Primavera de Praga e apoiou publicamente a invasão. Esta atitude provocou descontentamento e críticas dentro do próprio partido com vários militantes e simpatizantes a criticar esta posição e alguns optaram por sair do partido.

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