Retomo neste momento a já mencionada opção por “Sala de Expressão de Cultura” e não “Sala de Exposição” feita pelos Bororo e procuro o sentido conferido a diferença existente entre “expor” e “utilizar” os objetos musealizados na aldeia.
Carvalho (2006, p. 60) apresenta um dado e justifica que alguns Bororo da T.I Meruri participaram de uma viagem de intercambio, por ela organizada, na qual visitaram o Collège de France, conheceram Claude Lévi Strauss e o Museu do Colle, onde constataram que seu “acervo cultural era exposto em museu fora do Brasil”:
No Museu do Colle, onde todo o trabalho teve início os Bororo emocionaram-se diante dos objetos de sua cultura, de seus antepassados. Falaram da diferença e semelhanças entre aqueles objetos e os que fazem hoje, falaram do processo colonizador, da presença dos salesianos entre eles. Leonida, a mais velha do grupo, chorou ao reconhecer-se em uma foto, ainda criança, junto a vários outros amigos de infância. Como ela agora, todos são adultos e, enquanto uns permanecem em Meruri, outros se mudaram para outras aldeias, outros já morreram. As imagens de sua gente ali, tão distantes do Brasil e de Meruri, pareceram-lhe solitárias e tristes... (CARVALHO, A. 2006. p.218).
Dois anos após a mencionada viagem de intercâmbio, alguns objetos foram repatriados da Itália para o Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein, nas Terras Indígenas de Meruri, tornando-se um dos incentivos para o Padre Gonçalo Ochoa Camargo, a Sra. Leonida Maria Akiri Kurireudo e Sr. Agostinho Eibajiwu, que assumiram a responsabilidade de dinamizar as atividades e se tornaram os curadores do Centro.
O acervo repatriado da Itália é parte daquele que foi enviado ao Vaticano por volta de 1925, como já mencionado, tratando-se dos objetos do Museu das Colônias Bororo, criado por Dom Malan, na Escola Agrícola Santo Antônio de Coxipó, em Cuiabá MT. Alguns pesquisadores se empenharam em fazer estudos para recompor a trajetória, a conservação e os encaminhamentos dos objetos nas instituições estrangeiras:
A instituição parte de um complexo arquitetônico construído próximo à ‘Casettadi Don Bosco’, tem no seu acervo 10 mil objetos coletados por missionários salesianos, espalhados, a partir de 1875, pela América, Ásia, África e Oceania com ‘objetivo claro de fazer ver às
pessoas a realidade e o contexto geográfico, ambiental e cultural vivida pelos missionários.
Desse total, aproximadamente 600 peças são identificadas como pertencente à cultura material Bororo, sendo que a grande maioria foi enviada a Itália entre 1925 e 1926. (SILVA, A. L. 2011. p.47-48).
Os objetos que compunham a Exposição do Vaticano ficaram conservados em local seguro dos riscos dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Em 1984 a coleção passou por uma reformulação museológica (revalorização, catalogação, sistematização de informações), da qual participou a brasileira, Aivone Carvalho, sendo a exposição nas novas instalações do museu inaugurada em 1988. A referida experiência museológica contribuiu para que se empenhasse em criar o Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein-CCPRL e reformulasse o Museu das Culturas Dom Bosco-MCDB.
No que diz respeito à Sala de Expressão Okoge Ehureu (Peixe Dourado), a vitrine com os objetos repatriados da Itália foi localizada ao centro da sala, e em seu entorno foram construídas casas clânicas, onde cada qual deposita seus objetos rituais. Conforme informam os curadores: estas não são vitrines. Os objetos são reconhecidos como pertencentes aos clãs, são artefatos de uso que permanecem no Centro de Cultura e deste podem ser emprestados, devolvidos, limpos, restaurados (se necessário) e recolocados em suas casas.
No Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein-CCPRL, Sala de Expressão da Cultura Koge Ekureu (Figura 21) e no Museu das Culturas Dom Bosco-MCDB (UCDB) os conceitos das exposições se orientam pela organização espacial das aldeias tradicionais. Ao observar a exposição noto algumas fotografias fixadas ao mastro de arueira, da vitrine central, entre elas, a de uma maquete.
Ressalto que na Aldeia Central da T.I. Meruri o formato tradicional das construções das moradias em círculo, tendo ao centro a casa dos homens (báito) e a divisão da aldeia em duas metades (Ecerae e Tugarege), se rompeu. Na atualidade se observam edificações em alvenaria, ao lado de duas ruas em “L” que seguem um quadrilátero, (Figura 22) , tendo na direção oposta a entrada da aldeia a Igreja e o aos fundos desta o Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein-CCPRL; a Missão Salesiana e um pátio com um cruzeiro (Figura 23); a Escola e um campo de futebol (Figura 24), e, ao centro, uma casa para encontros comunitários que representa o baíto, a tradicional casa dos homens (Figura 25).
Figura 21. Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein – CCPRL. Sala de Expressão da Cultura Koge Ekureu: exposição e maquete. Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, set. 2009.
Figura 22. Moradias Boé-Bororo. Aldeia Central da T.I. Meruri.
Fotografia: Rosa Afonsina M. Rocha, 13 set. 2009.
Figura 23. Aldeia Central da T.I. Meruri: Cruzeiro e túmulo do Padre Rodolfo
Lunkenbein (1º plano) Missão Salesiana (2º plano) e Morro de Meruri (3º plano). Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, 13 set. 2009.
Figura 24. Aldeia Central da T.I. Meruri: campo de futebol (1º plano); Escola (fundos).
Figura 25. Aldeia Central da T.I. Meruri: Centro Comunitário (baíto); moradias (fundos) e Centro de
Saúde (direita). Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, 13 set. 2009.
A mudança do formato na espacialidade da aldeia reflete as mudanças operadas na cultura ao longo do último século, bem como seus desdobramentos em práticas de educação patrimonial, para se reavivar a cultura Bororo. Portanto, a maquete e a exposição se tornam maneiras de lembrar a aldeia tradicional.
Na fotografia da maquete (Figura 21), já apresentada na página anterior, nota-se que a grama foi retirada, para que se visualizasse o “Bororo”, ou seja, o pátio da aldeia, cujas moradias foram dispostas em círculo, tendo ao centro a “casa dos homens”. Tal maquete, que em sua essência é uma representação, foi fotografada e emoldurada, para então ser fixada ao centro da exposição.
A pesquisa evidencia ações pontuais e estratégicas de reavivamento da cultura Bororo pela Educação Patrimonial e Museal da atualidade na T.I Meruri:
A Criação do Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein - CCPRL;
A repatriação de objetos e fotografias do Museu Italiano para compor o acervo; A produção em oficinas de objetos rituais, vestimentas e acessórios;
A criação e organização dos artefatos nas casas clânicas na sala de expressão da cultura Koge Ekureu;
A capacitação e o assalariamento de indígenas para realizar a curadoria do Centro de Cultura;
A reinserção de rituais, práticas, vestimentas e artefatos da cultura entre os Bororo;
A educação patrimonial material e imaterial das crianças e sujeitos mais jovens que desconheciam tais referências devido a não realização outorgada pela história nas zonas de contato e presença dos religiosos no local.
O processo de educação patrimonial e museal, esmiuçado pelos registros e a memória, se iniciou em 1999 quando Aivone Carvalho trouxe para a aldeia algumas fotografias antigas que conseguira no museu da Itália. Estas imagens foram levadas à Escola Sagrado Coração de Jesus e serviram de pretexto para que as crianças, com a ajuda dos mais velhos, escrevessem sobre os objetos fotografados.
O segundo passo foi a produção dos objetos, que ocupou crianças, jovens e adultos, contando com a orientação dos anciões. Assim, os mais jovens aprenderam e os anciãos lembraram o jeito de fazer objetos, seus usos e sua importância, ressaltando que muitos desconheciam alguns artefatos e valeram-se da Enciclopédia Bororo para pesquisar seus usos, e outros ainda, já haviam esquecido tanto dos objetos como das práticas sociais que os contextualizava na cultura Bororo.
É possível observar nesta e outras ações, a preocupação da Igreja Católica nas últimas décadas com a valorização do patrimônio e a diversidade cultural e, por outro lado, a re-composição das referências culturais indígenas. Tais ações, interpreta Monteiro (2006), constituem-se como a interculturalidade gestada pela missão na seleção e operação de códigos que ocasionam a tradução e a intercomunicação cultural.
Para Gasbarro (2006, p. 75) “... as missões modernas não são apenas uma perspectiva teológica de ‘cristianização’ do mundo, mas, sobretudo um processo antropológico de ‘civilização’, que se relaciona com as diferenças culturais a partir de uma igualdade estrutural que constitui seu fundamento teórico e seu limite operacional”.
Comparando-a com a própria modernidade, Gasbarro (2006, idem) mostra que esta “... reinventa sua direção, reconstrói seus sentidos, repensa suas regras, redesenha sua cosmologia, dando origem a uma nova história e a uma nova geografia de mundo. Chamo-a de ‘perspectiva’ para indicar um caminho complexo, inter-relacional e de longa duração, uma construção cultural progressiva e cheia de imprevistos”.
2.3.2.CONSERVAÇÃODOSACERVOSNOCENTRODECULTURAPADRE
RODOLFOLUNKENBEIN-CCPRL
O Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein - CCPRL torna-se uma das estratégias de reavivificação da cultura Bororo. Na reserva técnica se encontram objetos da cultura material: couro de onça, cestarias, plumárias e outros organizados em estantes aeradas e legendados conforme orientação museológica (Figura 26).
Na seção documental, arquivos com várias dimensões da história dos Bororo e dos Salesianos em Meruri; bem como uma pasta catálogo de objetos do Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein - CCPRL e outros documentos, além de arquivos fotográficos, áudios-visuais e outros desta natureza como alguns painéis fotográficos com cenas dos rituais de nominação e funerário realizados após a criação do Centro de Cultura. Os registros fílmicos foram produzidos pelos missionários e também pelos indígenas (Figura 27).
Tais acervos (filmes, fotografias e documentos) foram produzidos pelas gerações de missionários salesianos e pesquisadores de diferentes partes do Brasil e do mundo, sendo ainda alguns produzidos pelos próprios Bororo, no papel de tradutores, mediadores culturais e memorialistas que dominam tecnologias comunicacionais, dentre tantos, alguns são professores e outros graduados e pós-graduados em diferentes áreas e universidades do Brasil.
Os documentos e a cultura material demonstram as relações nas zonas de contatos estabelecidas entre indígenas, religiosos e leigos com valores, comportamentos e ações oriundas do mundo globalizado e capitalista.
Figura 26. Reserva Técnica - Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein - CCPRL.
Fotografia: Jocenaide M. R. Silva. Set. 2009.
Figura 27. Arquivos: documentos museológicos, fílmicos e fotográficos. Centro de Cultura Padre