O resultado final do zumbido, de origem periférica ou central, é uma hiperatividade anormal na via auditiva e no córtex (1).
Após a disfunção coclear, ocorre a diminuição de estímulo proveniente dessas regiões, o que motiva a redução da inibição nas estruturas auditivas centrais e gera a hiperexcitabilidade no SNAC (núcleo coclear dorsal, núcleo do colículo inferior e córtex auditivo central), com o aumento da taxa de disparo espontâneo surgindo em horas e dias no córtex auditivo primário e no NCD, respectivamente
(15).
O zumbido tem sido descrito na presença ou na ausência de aumento das taxas de disparo espontâneo, com diferentes quantidades de salicilatos, quinino e aminoglicosideo. O uso de bloqueadores dos receptores NMDA coclear, antes do uso salicilato e do trauma sonoro, reduz os efeitos neurotóxicos do glutamato liberado em excesso, evitando o zumbido e a perda auditiva. Esses resultados fundamentam a geração do zumbido no desequilíbrio do padrão de disparo no nervo auditivo, mas sem aumento da atividade espontânea (15),(48).
Adjamian, Sereda e Hall (91), em estudo de revisão de neuroimagem sobre o tema, em pacientes que modulam o zumbido, sustentam a origem do zumbido como decorrente do aumento da taxa de disparo espontâneo na via auditiva central cortical e subcortical.
54 O som é normalmente sinalizado no sistema auditivo por um aumento da taxa de atividade neural, portanto se espera que o zumbido possa vir a ser gerado por aumentos patológicos da atividade espontânea.
Kaltenbach (73) menciona vários estudos eletrofisiológicos realizados em animais, que mostram aumento da taxa espontânea nas altas frequências, com o salicilato de sódio, no córtex cerebral auditivo, com quinino, e hiperatividade no NCD, com exposição a ruído intenso.
Müller e col. (92) estudaram as respostas de fibras do nervo auditivo após a aplicação sistêmica de salicilatos e observaram a elevação do limiar na ordem de 20 a 30 dB, redução da intensidade da afinação da frequência, ausência de atividade espontânea elevada e taxa de descarga máxima imutável. Concluíram que o salicilato, em doses não tóxicas, eleva a atividade espontânea no nervo auditivo pela ação do salicilato ao nível das CCE.
É importante considerar que o NCD é um centro auditivo primário que se projeta principalmente no colículo inferior, desse modo as mudanças na atividade espontânea no NCD provavelmente influenciam as propriedades funcionais dos neurônios do coliculo inferior, que, por sua vez, influenciam as atividades de estruturas de ordem superior, como o corpo geniculado medial e o córtex auditivo
(93),(94).
A alteração da atividade neural espontânea, com perda da inibição, ou a excitação nas estruturas auditivas centrais, como o núcleo coclear dorsal e o colículo inferior após trauma acústico, têm sido relacionadas com o zumbido (6),(95).
Segundo Kaltenbach, Zhang, Afman (93), os registros eletrofisiológicos do NCD de ratos expostos a som contínuo de 10 kHz de 127 dB SPL, por 4 horas, revelaram redução da atividade espontânea inicial e aumento importante em 5, 14 e 180 dias. As mudanças da hiperatividade continuaram a ocorrer por 6 meses, embora pequenas, com maior definição tonotópica, enquanto aumentava o tempo de recuperação na direção à porção medial do NCD, representando frequências cada vez mais altas.
55 Kaltenbach, Zhang, Afman (93) sugerem que a redução inicial da atividade espontânea reflete mudanças nas propriedades funcionais dos neurônios do NCD, parcialmente independentes das mudanças da atividade no nervo auditivo, e que a hiperatividade que se desenvolve representa mudança mais complexa, sem correlação no nível periférico conhecida. Inicialmente, ocorre uma redução da atividade metabólica e o seu ressurgimento em vários núcleos do tronco cerebral auditivo, incluindo o NCD. A hiperatividade resulta da perda das sinapses inibitórias ou do surgimento de novas sinapses excitatórias.
Outro estudo realizado por Chang e col.(96) no NCD de ratos expostos a ruídos intensos revelou aumento da atividade espontânea nas células cartwheel e a diminuição nas células fusiformes, principalmente no NCD oposto. Os resultados sugerem que alterações das propriedades das membranas dos neurônios do NCD podem indicar atividade elétrica anormal e geração do zumbido.
Kaltenbach e Afman (95) revelaram uma forte semelhança entre o aumento da atividade espontânea no NCD de animais expostos a ruído e a atividade normal no NCD para os animais não expostos a ruído, ao responderem a estímulo sonoro de alta frequência. Ficou evidente que a hiperatividade induzida no NCD pela exposição intensa, em 10 kHz por cerca de um mês, mostrou um padrão de distribuição tonotópica semelhante em toda a superfície NCD, como visto no NCD em atividade normal ao responder a um sinal contínuo de 10 kHz. Os padrões diferem principalmente na posição ao longo da NCD, pois o pico de atividade no NCD normal foi encontrado no locus 10 kHz, já a hiperatividade induzida no NCD ao som intenso, corresponde ao locus 12,5 kHz. Isto indica que, em termos de topografia de atividade neural, o NCD exposto a som intenso um mês após está se comportando como se estivesse respondendo a um som, mesmo na sua ausência.
As evidências do NCD na geração e na modulação do zumbido revisadas por Kaltenbach (75) e Kaltenbach e Godfrey (94) são:
• a sua estimulação afeta a percepção do zumbido com mudança na intensidade, na frequência e/ou na quantidade de sons. Dependendo
56 dos diferentes neurônios estimulados no NCD, a intensidade do zumbido pode aumentar ou reduzir;
• agentes indutores de zumbido (p.ex. cisplatina ou exposição sonora intensa) tornam os neurônios no NCD hiperativos. Todavia, a indução dessa hiperatividade não é independente da cóclea;
• modulação somática do zumbido envolve as estruturas do tronco cerebral, pois os nervos cervicais e o trigêmeo convergem para os núcleos somatossensoriais medulares que se projetam no NCD. A ativação elétrica ou química desse domínio produz mudanças nas taxas da descarga de células fusiformes do NCD (97);
• lesões das CCE causam plasticidade no sistema auditivo central, com hiperatividade no NCD. Uma vez induzida, a hiperatividade não mais depende dos estímulos periféricos, e a ablação coclear não a elimina. Portanto, torna-se claro que o NCD tem um papel importante para a indução da hiperatividade nos níveis mais elevados do sistema auditivo, mas não para sua manutenção, uma vez estabelecido o zumbido, a sua remoção não o elimina necessariamente. Esse modelo pressupõe que o NCD não é um sistema de geração de zumbido, mas serve como gatilho para a indução de hiperatividade em outros sítios na via auditiva (94).