Esse quadro permite perceber a existência de uma espécie de “máquina de guerra” que já estava em andamento na porção sudeste de Mato Grosso, liderada pelo coronel José Morbeck. A partir de 1913, o governo de Mato Grosso foi aos poucos operacionalizando ações que tinham como meta incorporar à administração política e econômica do estado. No entanto, na região do Garças e Araguaia e em Poxoréu, os “nômades” do garimpo já estavam construindo
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No sentido dado por Deleuze-Guattari (1987), de que “a máquina de guerra é exterior ao aparelho de estado”. Esse axioma surge a partir de uma pergunta: “há algum meio de se subtrair o pensamento do modelo de estado?”. Aqui, o termo é utilizado para mostrar a tensão entre os garimpeiros, representados por José Morbeck, e o aparelho de Estado de Mato Grosso, para marcar os termos da oposição entre os bandos formados pelos garimpeiros – que não estão incorporados à administração estadual – e as demandas das autoridades do estado.
o seu espaço-geográfico e sua afetividade, o espaço da satisfação de suas necessidades. Nesse espaço, aconteceu, antes disso, nas regiões garimpeiras, a simbiose da potência ou virtude secreta de solidariedade e a movência correspondente das genealogias que passaram a determinar a união das forças dos coronéis com os garimpeiros. Foi dessa forma criado o espaço nômade a partir do qual surgiu algo não redutível nem ao monopólio de um poder orgânico nem a uma representação local18. Foi sobre esse corpo que o governo mato- grossense fez liberar o seu poder de domínio com o fito de incorporar a região à administração estadual e também com o fito de transformar o espaço nômade em um espaço “civilizado”, mas se aproveitando do mesmo tecido humano existente em toda a extensão da zona garimpeira do Garças e Araguaia e de Poxoréu, ou seja, de alguns fazendeiros, para impor sua autoridade judicial e militar.
Essas forças foram geradas pelo amálgama de diversos tipos brasileiros que se juntaram na zona de influência do Garças e Araguaia e de Poxoréu para formar o que se convencionou chamar de “povo garimpeiro”, mas, talvez por motivos políticos, essa convenção não significou a verdadeira incorporação administrativa do estado. Ao contrário, o discurso suplantou a prática política e deu origem a rupturas que se tornaram marcantes principalmente na sociedade poxoreense.
As origens políticas que persistiram no construto cultural dos garimpeiros continuam presentes atualmente em Poxoréu como resíduo dessa herança que já estava sendo criada pela apropriação da força do garimpeiro pelos poderosos. No entanto, talvez o historiador não deva fixar o foco de sua análise apenas no processo de formação política da região a partir de um sistema político organizado, tal como acontece atualmente no Brasil, com os seus fundamentos constitucionais, mas na própria índole dos coronéis e dos garimpeiros, sendo que estes eram considerados pelos coronéis do garimpo e pelo governo de Mato Grosso como incultos e rudes e que, antes da incorporação da região à administração estadual, conviviam com os diversos tipos de violência próprios das regiões de garimpo.
A formação dessa máquina de guerra se deu à margem do Estado de Mato Grosso ou de Goiás, que passou a reivindicar a mancha verde que ainda não tinha sido explorada e que estava situada entre o Rio Araguaia e Cuiabá. Surgiu, no entanto, de uma relação entre os fazendeiros e os nômades catadores de diamantes, relação esta desconectada do aparato estatal ou mesmo legal existentes na época.
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Foi a construção dessa máquina de guerra, formada por peças que se foram juntando sem se importar com as origens, ou seja, se eram baianos ou maranhenses, goianos ou mato- grossenses, classe social – naquela época existiam somente as duas mais importantes –, os garimpeiros ou fazendeiros, que passou a ditar o rito dos eventos que marcariam politicamente a região. No entanto, as relações criadas enquanto Mato Grosso procurava incorporar a região à administração estadual não foram relações simétricas, porque havia necessariamente um propósito de ordem política, econômica, social e mesmo cultural que ditava as normas das relações entre os garimpeiros e os coronéis. Foi essa relação assimétrica, desigual, aparentemente integrada, coesa, que possibilitou, posteriormente, o surgimento do coronelismo de Poxoréu, que iria se utilizar da estrutura partidária surgida com a Constituição de 1946, para controlar politicamente a administração municipal até o ano 2000.
Enquanto os garimpeiros mantiveram-se subordinados aos coronéis e puderam explorar o diamante sem o controle do governo estadual, mas tendo que pagar ao fazendeiro somente o “imposto” pelo uso da terra, tudo permaneceu como devia ser: os poderosos tinham o diamante como fonte de renda alternativa à pecuária e o garimpeiro podia prospectar e explorar o diamante em suas fazendas, nas margens dos rios, dos córregos e dos monchões. A paz somente foi perturbada quando começaram a ser concedidos direitos de exploração do diamante a mineradoras que não estavam ligadas aos fazendeiros da região. Por exemplo, em 1901, os pedidos para a prospecção e exploração de diamantes no Garças e Araguaia somaram-se 14, mas não alcançaram o vale do Rio São Lourenço. A concessão que abarcava todo o território diamantino do Garças e Araguaia, dada a Antônio Mota Moreira, em 1913, levou ao conflito armado entre Mato Grosso e José Morbeck, sendo anulada em 1923, mas a custo de lutas intestinas, cujas vítimas maiores foram os próprios garimpeiros.
Portanto, é dentro das relações entre os fazendeiros e os garimpeiros que se tornará possível perceber a existência de uma diferença significativa entre as tropas que se colocaram sob o comando tanto de Carvalhinho quanto sob o comando de José Morbeck. Carvalhinho tinha sob as suas ordens considerável número de homens com preparo militar enquanto José Morbeck tinha à sua disposição um considerável contingente de garimpeiros e jagunços que havia reunido na região, sem o devido preparo para a luta. No entanto, como será melhor explicado nos próximos tópicos, o conflito armado terminou sem que uma das partes pudesse declarar vitória sobre a outra. Em 1926, o governo do estado ordenou a retirada das tropas militares da zona de conflito, José Morbeck se retirou para a sua fazenda e Carvalhinho tentou reconstruir sua vida econômica e política em Poxoréu, como será visto nos próximos tópicos.