Tables and Figures
6. Summary and Conclusions
Em círculo no centro do mapa, a Colônia Silveira Martins, fundada em 1877. Fonte: Mapa adaptado site: http://www.scp.rs.gov.br/atlas/atlas.asp?menu=630
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Em 1877 foi criado o Núcleo Colonial de Santa Maria da Boca do Monte, no centro geográfico do Rio Grande do Sul. Com a chegada dos imigrantes italianos, o lugar passou a ser denominado Quarto Núcleo Imperial de Colonização Italiana. Logo a seguir, no ano de 1878, teve seu nome alterado para Colônia Silveira Martins. Os três primeiros núcleos estavam localizados no nordeste sul-rio-grandense, na hoje conhecida serra gaúcha. 28
O Vale Vêneto surgiu em 1878 a partir da instalação de diversas famílias de imigrantes italianos oriundos da região do Vêneto. O local fazia parte do espaço que compreendia a Colônia Silveira Martins.
Antes que o “fatal desastre” se consumasse em morte, o agonizante padre anunciou seus últimos desejos, convidando alguns indivíduos da região para testemunharem a elaboração do testamento. Assistido por parentes, amigos e autoridades, sofrendo com as fortes dores e sem esperança de melhora, Antônio Sório fez a partilha dos bens, indicando um indivíduo para redigir o testamento e outro para assinar por ele, pois se encontrava impossibilitado de qualquer movimento, muito embora estivesse em “perfeito juízo”, conforme anotado no testamento. Além de fazer a distribuição dos bens afirmou que, após sua morte, desejava ser enterrado no cemitério da Sede entre os paroquianos. Também apontava que setecentos mil réis deveriam ser “consignados nas mãos do bispo diocesano” para que fossem empregados na celebração de uma “oficiatura solene no aniversário” de sua morte. Caso contrário, o bispo deveria aplicar o dinheiro da forma que desejasse.
Na sequência, o testador passou a indicar os quatro sobrinhos, moradores na mesma região colonial, como beneficiários dos vários lotes de terras que possuía. Os herdeiros também deveriam pagar as dívidas ativas, orientando-os para venderem os móveis e utensílios caso não conseguissem saldar os débitos. Quanto ao funeral, desejava que fosse realizado “sem luxo e sem pompa”.29
Assim, no dia 2 de janeiro de 1900, enquanto agonizava no leito da casa paroquial da ex-Colônia Silveira Martins, Antônio Sório ditava o testamento para o conterrâneo italiano Guido Carlos Passini, sendo assistido por outras seis testemunhas: padre Mathias Schoennauer, José Dal Forno, Carlo Maffini, Paulo Bortoluzzi, Rissieri Marchiori e Rissieri Biazus. Por fim, todos assinaram o testamento.
Ao final da redação deste documento, o imigrante Guido Carlos Passini assinou em nome do convalescente padre, comprovando o estado grave em que se encontrava, pois nem podia grafar o nome no testamento. Na presença das referidas testemunhas, o documento foi elaborado segundo o desejo do padre que faleceu no dia seguinte. Para validar e atestar a autenticidade das informações e a circunstância de elaboração do testamento, este documento foi apresentado ao escrivão da Sede Silveira Martins, Antônio Fantoni, que reconheceu as assinaturas das sete testemunhas.30 No dia da morte de Antônio Sório, a carta testamental também foi apresentada ao Juiz Distrital Joaquim Augusto Pinho.
Em abril de 1901, passados quinze meses do falecimento do padre, deu-se início à elaboração do inventário para a partilha dos bens. Pelo Juiz da comarca de Santa Maria foram
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Testamento de Antônio Sório, Provedoria de Santa Maria, nº 116, maço 3, ano 1900. Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul - APERS, Porto Alegre.
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Processo de validação do testamento. Testamento de Antônio Sório, Provedoria de Santa Maria, nº 116, maço 3, ano 1900. APERS, Porto Alegre.
inquiridas as testemunhas presentes no ato de redação do testamento e que presenciaram os momentos finais de vida do padre Sório. Ao serem questionados sobre as circunstâncias da escrita do testamento, em uníssono afirmaram que, no dia 2 de janeiro de 1900, achava-se Antônio Sório “gravemente enfermo em consequência de uma queda que dera do cavalo que montava”. Sentindo-se mal e impossibilitado de mover-se, “mas em seu perfeito juízo,” mandou chamar Carlos Guido Passini para redigir o testamento. Declararam as testemunhas ter sido realizada a leitura em “voz alta” do documento. Dadas tais condições, o testamento foi julgado válido pelo Juiz da comarca de Santa Maria, portanto, os herdeiros poderiam iniciar o processo de partilha dos bens.
Deste modo, a notícia do jornal e o testamento, documentos produzidos naquele momento, confirmam que os motivos que levaram Antônio Sório à morte foi a gravidade dos ferimentos em decorrência de “queda do cavalo”. Várias testemunhas afiançaram tal versão, inclusive um padre e autoridades distritais, como um juiz e o escrivão do cartório, além de comerciantes de Silveira Martins e Vale Vêneto, bem como os sobrinhos de Sório lá presentes nos momentos que antecederam o falecimento. Porém, o médico que prestou assistência ao pároco não foi inquirido pelo juiz para dar o parecer sobre o estado de saúde do enfermo. O Dr. Victor Teltz, que possuía consultório em Santa Maria, atendia frequentemente na ex- Colônia Silveira Martins e era especialista em “moléstias sifilíticas e das vias urinárias” conforme se pode constatar nos anúncios publicados nos jornais.31 Lembra-se que o médico julgou o caso do padre Sório perdido, ou seja, sem chances de recuperação.
O referido Dr. Teltz não foi inquirido pelo Juiz Distrital Joaquim Augusto Pinho para apresentar suas explicações quanto às enfermidades que provocaram a morte do padre Sório. Provavelmente, o Juiz entendeu não ser necessário ouvir o depoimento do médico que não era testemunha da carta testamental, pois no momento o que estava sendo averiguado era a autenticidade das condições de elaboração do referido documento. O Juiz não visava investigar a morte, já que, conforme a versão apresentada, o padre caiu do cavalo e sofreu sérios ferimentos. Foi uma morte acidental, inusitada, inesperada, que causou comoção geral em Silveira Martins.
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Anúncios em várias edições do jornal O Combatente, dos anos de 1899, 1900, 1901. Arquivo Casa de Memória Edmundo Cardoso - ACMEC, Santa Maria.
1.2 Vítima de uma armadilha
Anos depois, o imigrante italiano Andrea Pozzobon apresentou novas informações sobre a tragédia que vitimara Sório, contemporâneo e com quem mantinha relações próximas. Pozzobon havia chegado à região central do Rio Grande do Sul em 1885, alguns anos após o padre Antônio Sório que, naquele momento, era o único sacerdote a atender os vários núcleos coloniais formados na ex-Colônia Silveira Martins. Pozzobon nasceu na Itália em maio de 1863, na aldeia de Carpenedo, Província de Treviso. Em julho de 1885, quando prestava serviço militar, seu pai o comunicou que a família estava se preparando para imigrar à América. Frente a tal decisão, como filho mais velho, decidiu acompanhar o patriarca, casando-se antes de abandonar a terra natal.32 Assim, obedecendo a um chamado paterno e agindo de acordo com as normas e os valores familiares, imigrou para o sul do Brasil com o propósito de “melhorar as condições econômicas da família que passava por privações”, conforme declarações do imigrante (POZZOBON, 1997, p. 34).33
Pozzobon instalou-se no distrito de Arroio Grande, localizado entre Santa Maria e a sede da Ex-Colônia Silveira Martins, tornando-se proprietário de terras, comerciante e professor numa escola subvencionada pelo governo italiano. Assumiu o papel de liderança na organização de várias instâncias de agregação na comunidade como, por exemplo, a edificação da capela e a busca por assistência religiosa constante. Adepto do nacionalismo italiano promoveu festividades que celebraram a ligação dos imigrantes com a velha pátria, tornando-se membro promotor da associação de mútuo-socorro “Duca Degli Abruzzi” no povoado de Arroio Grande. Além disso, também aparece como um dos fundadores da “associação de mútuo-socorro dos operários italianos de Silveira Martins”, cuja primeira sessão ocorreu em agosto de 1885.34
Em suas memórias, Andrea narrou alguns fatos e experiências vividas tanto na Itália quanto no Brasil, expondo inquietações sobre episódios que ocorreram nos núcleos coloniais do centro do estado do Rio Grande do Sul.35 Com relação à morte do conterrâneo vêneto, padre Antônio Sório, afirmou que, no dia 29 de dezembro de 1899, “devido a uma queda de
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A pesquisadora Maria Catarina Zanini (2006, p. 61-62) aborda alguns aspectos da trajetória do imigrante Andrea Pozzobon revelando detalhes da estrutura familiar italiana, sua organização patriarcal e os papéis de seus membros.
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Os aspectos quanto às práticas de organização e as estratégias de emigração das famílias camponesas serão abordados nos próximos capítulos.
34Estatuto da “associação de mútuo-socorro dos operários italianos de Silveira Martins”, 12 de setembro de 1899. Pasta Silveira Martins, Centro de Pesquisas Genealógias – CPG-NP.
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As memórias do imigrante Andrea Pozzobon bem foram publicadas por seu neto Zolá Franco Pozzobon (1997).
cavalo ou, como dizem outros, a um verdadeiro assassinato, rendeu sua vida o Rev. Dom Antônio Sório”, vigário da ex-Colônia Silveira Martins”. Não desconsiderando o fato de o padre ter sofrido um acidente e morrido em decorrência disso, destacou haver comentários asseverando ter sido ele “vítima de uma armadilha”. Na sequência, afirmou que o padre Sório faleceu após “golpe sofrido”, suportando “intensas dores” com “heróica resignação”. Apesar das suspeitas de crime serem compartilhadas entre boa parte da população da ex-Colônia Silveira Martins, segundo Andrea, o “caso nunca foi devidamente esclarecido” (POZZOBON, 1997, p. 178).
Tal informação, apresentada por um contemporâneo dos fatos, possibilita iniciar uma análise dos elementos que levaram à construção de outra hipótese para a morte do padre Sório, surgida entre os moradores da própria comunidade onde aquele era pároco. Para entender os motivos da elaboração desta versão é necessário adentrar o cotidiano daquela sociedade colonial recentemente constituída, buscando perceber os valores partilhados pelo grupo, bem como o sentido atribuído a determinados acontecimentos. Ao acreditarem ter sido Antônio Sório “vítima de uma armadilha”, os imigrantes italianos partiram das avaliações que faziam do comportamento dele enquanto vigário e dos possíveis atritos existentes com indivíduos da comunidade, construindo, então, a versão da agressão.
Porém, essa opinião circulava entre aqueles que faziam parte dos espaços de sociabilidade local ficando, muitas vezes, restrita às conversas privadas e reuniões familiares. Andrea Pozzobon, portanto, foi um dos primeiros a registrar a possibilidade de ter ocorrido um “verdadeiro assassinato”, ressaltando a existência de desconfianças entre a população colonial de ter sido Sório vítima de uma emboscada. Essa afirmação marca uma diferença entre dois entendimentos que não tinham o mesmo significado para os imigrantes italianos, pois uma “armadilha” era prática utilizada no mundo camponês que, necessariamente, poderia não ter o sentido de crime. No entanto, Pozzobon não mencionou sobre a natureza dos ferimentos que levaram padre Sório à morte. Esta nova versão, na verdade, era alimentada entre os moradores da ex-Colônia Silveira Martins desde há algum tempo, incrédulos de ter sido o padre vítima de uma fatalidade. Como se percebe, vai de encontro à versão oficial anteriormente apresentada.
Quanto ao episódio da morte do padre Sório, outra fonte apresenta pistas sobre os ferimentos que sofreu, indicando, inclusive, novo caminho a ser explorado. O sacerdote Frederico Schwinn, pároco da sede ex-Colônia Silveira Martins entre 1906 e 1918, narrou em
seus manuscritos as realizações de Sório enquanto vigário da paróquia.36 Ao fazer isso não deixou de comentar as circunstâncias da morte do padre ocorrida no ano de 1900. Segundo Schwinn (caderno a, p. 14), no dia 29 de dezembro de 1899, numa das principais estradas da região, Antônio Sório foi encontrado “caído do cavalo [e] gravemente pisado no baixo
ventre” (grifos meus). Após ser socorrido, recebeu atendimento médico, porém, devido à
gravidade dos ferimentos, veio a falecer no dia 2 de janeiro, deixando fortes indicações de ter sido “vítima de um crime”. Presente na ex-Colônia desde 1906, o padre Frederico Schwinn escreveu o que ouviu dos paroquianos e, certamente, também o que lhe contara o colega de batina Mathias Schoenauer, uma das testemunhas que assistiu Sório nos últimos momentos de vida. É provável que o padre Mathias tenha fornecido esclarecimentos sobre as características dos ferimentos da vítima. Assim, Schwinn, ao escrever sobre o assunto, usou termos brandos para indicar o tipo de lesão sofrido pelo padre, mas, por outro lado, declarou que as evidências indicavam ter ocorrido um crime.
O médico referido por Schwinn era o Dr. Victor Teltz, conforme indicado anteriormente. Ao relatar que Antônio Sório havia sido “pisado no baixo ventre”, faz sentido ser um médico especialista em “moléstias sifilíticas e das vias urinárias”37 o responsável por avaliar o enfermo. Deste modo, o gravíssimo estado de saúde era consequência dos sérios golpes sofridos nos órgãos genitais, ou “baixo-ventre” como indicou Schwinn. Ao ser solicitado pelos familiares ou amigos do padre para prestar socorro, o médico diagnosticou, provavelmente, hemorragia interna julgando, então, o caso perdido. De acordo com a avaliação do Dr. Victor Teltz, a “violação da bexiga” sugere que os ferimentos do padre Sório eram originários de um atentado violento e não um “desastre” ocasionado pela “queda do cavalo”, como sustentaram as testemunhas do registro civil de óbito e os outros arrolados para a realização do testamento e inventário. Todos esses aspectos – a fatalidade do episódio, os ferimentos causados na bexiga ou lesões no baixo-ventre e a assistência de um médico especialista em “doenças sifilíticas e vias urinárias” – foram entendidos pela população como indícios de que o padre Sório realmente havia sido vítima de emboscada e não apenas de acidente.
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Após a morte do vigário Antônio Sório quem assumiu sua função na paróquia foi o padre Matheus pertencente a Pia Sociedade das Missões. Esse sacerdote é o mesmo que aparece como uma das testemunhas que assinam o testamento de Sório. Porém, devido a conflitos, o padre teve de fugir do lugar em 1906. Em substituição, o cargo foi assumido pelo colega Frederico Schwinn. Quanto ao conflito entre aquele sacerdote e alguns indivíduos da sede da ex-Colônia Silveira Martins ver: VENDRAME, 2007, p. 155-157.
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Outro que também comentou da morte de Antonio Sório foi o sacerdote Francisco Burmann, ouvindo explicações do ocorrido a partir de seus colegas de sacerdócio, e isso deve ter ocorrido logo após ter chegado à região colonial no ano de 1906.38 Apesar de não ter presenciado o fato, Burmann (192-, p. 22) apontou que “os bons católicos de Silveira Martins não quiseram crer no „catastrofal‟ tombo do cavalo, [pois] todos estavam convencidos de que o seu pároco tinha sido ferido mortalmente a pauladas por um irmão da loja maçônica”. No entanto, apesar das suspeitas da população, o padre Sório, antes da morte, nada revelou que pudesse confirmar as suspeitas da população. Somente teria afirmado que denunciaria publicamente o causador de sua “desgraça” se conseguisse restabelecer sua saúde, caso contrário, levaria o “segredo para o túmulo”.
Durante o tempo em que permaneceu enfermo, de acordo com Frederico Schwinn (caderno a, p. 14), o padre não deu qualquer explicação sobre a origem de seus ferimentos, “apesar de ter conservado as faculdades intelectuais até os últimos momentos”. Finalizou ressaltando ter Antônio Sório recebido todos os sacramentos, uma vez que entre os indivíduos que presenciaram a elaboração do testamento estava o sacerdote palotino Mathias Schoennauer. Assim, apesar das semelhanças entre as anotações de ambos os padres, Francisco Burmann é o primeiro a apontar ser o algoz de Sório um irmão da loja maçônica de Silveira Martins, porém, sem citar nomes. A versão da morte por queda do cavalo, levando-se em consideração os escritos acima apresentados, teria sido, portanto, um subterfúgio utilizado pelas testemunhas dos últimos momentos de vida do padre para justificar a sua morte diante das autoridades locais? Sobre quais indícios as explicações oferecidas por Schwinn e Burmann foram construídas? Seria possível uma agressão planejada contra Antônio Sório?
Os manuscritos foram elaborados a partir dos comentários que circulavam tanto entre os imigrantes quanto entre os padres que trabalhavam na região colonial. Logo, se está diante de uma versão que deve ser creditada aos imigrantes e aos sacerdotes, todos moradores da ex- Colônia Silveira Martins. Nada consta na documentação oficial que indique a existência de um crime. Para fundamentar a versão, a população fez sua avaliação sobre o comportamento pretérito do padre, identificando naquela “tragédia” a existência não de uma fatalidade, antes de uma vingança. Nesta representação comunitária, os ferimentos “no baixo ventre” eram a prova da emboscada para punir àquele que havia desrespeitado as normas que orientavam o relacionamento entre os italianos nos núcleos coloniais.
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O sacerdote Francisco Burmann da congregação dos padres palotinos que se estabeleceu na comunidade do Vale Vêneto escreveu em seus manuscritos suas impressões e experiências vividas entre os imigrantes da ex- Colônia Silveira Martins, durante o período de 1906 e 1928.
1.3 A opinião local
No dia 3 de janeiro de 1900, no cemitério de Silveira Martins, sede da ex-Colônia, era sepultado Antônio Sório. Segundo o imigrante Andrea Pozzobon (1997, p. 178), no funeral compareceram indivíduos de “todas as partes” da região colonial em sinal da grande estima e “ilibado procedimento” do sacerdote. Prestando homenagem ao finado pároco, a sociedade “Duca Degli Abruzzi”, de Arroio Grande, “concorreu com flâmulas e música ao cortejo fúnebre”, pois Sório era membro daquela sociedade, sustentando o “título honorífico de sócio benemérito”. Pozzobon teceu elogios à conduta do padre, seu confrade na dita sociedade de mútuo socorro, e não deu indícios sobre mau comportamento ou a existência de inimigos capazes de orquestrar crime ou “armadilha” contra Sório. Também não comentou nada sobre o mesmo ter sido “pisado no baixo ventre”.
Se haviam suspeitas e indícios de que o pároco havia sofrido agressão física e morrido em função disto, fica a dúvida de por que não ter sido instaurada investigação policial para punir os culpados. A sede da Colônia contava com a presença de autoridades capazes, como subdelegado e Juiz Distrital, para providenciar a abertura do inquérito.39 Do mesmo modo, sendo Silveira Martins Quarto distrito do município de Santa Maria, distante apenas dezoito quilômetros, não estava isolada ou afastada das instâncias responsáveis em investigar mortes onde existiam suspeitas de crimes, principalmente se as vítimas eram lideranças locais e reconhecidas enquanto tal, como era o caso de Antônio Sório. Entretanto, nenhum registro documental foi encontrado para afirmar ter ocorrido uma investigação policial e, consequentemente, a instauração do processo-crime. Isso deixa a entender que as suspeitas ficaram restritas aos comentários da população, não repercutindo entre as autoridades. Uma prova de que a versão de “armadilha” somente deve ter circulado entre os imigrantes pode ser percebida na reportagem do jornal O Combatente, quando anunciou a morte do padre Sório, apresentando apenas a versão oficial de falecimento por “queda do cavalo”. Entre os imigrantes e descendentes, contudo, preservou-se a história de ter o pároco sofrido uma emboscada.
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A administração da justiça gaúcha dividia-se em comarcas – firmadas em número de trinta e duas pela lei de 15 de janeiro de 1898 – e distritos. Cada distrito contava com a presença de um juiz distrital com tarefa de homologar contratos, abrir testamentos, presidir casamentos, proceder a corpo de delito, preparar processos- crime e julgar em primeira instância questões cíveis com valor inferior a quinhentos mil réis. Os juízes distritais estavam submetidos hierarquicamente aos juízes de comarca (AXT, 2004, p. 13).
Com a população sustentando tal versão, ficaria difícil tais suspeitas não ultrapassarem o espaço da comunidade, alcançando indivíduos não residentes no lugar. No entanto, somente na década de 1950 o escritor santa-mariense Romeu Beltrão (1979, p. 416), em cronologia histórica do município de Santa Maria, afirmou ter o vigário de Silveira Martins, Antônio Sório, falecido “em conseqüência de ferimentos e mutilações recebidas de desconhecidos”. Para o autor, a identidade dos agressores “tem provocado muitas especulações” apesar de existirem suspeitas. Certamente Beltrão chegou a estas explicações sobre a “tragédia de