É a partir da formação da identidade e das práticas educativas que nos propomos aproximar o conceito de ‘resiliência’ ao contexto da escolaridade, na medida em que se nos afigura um conceito fecundo para abordar questões de índole psicopedagógica, inspirando planos de acção intervenientes, como procuraremos fundamentar.
Ficou expresso em páginas anteriores que factores económicos e familiares, fundamentalmente o modo como os pais interagem com os filhos adolescentes (mais importante do que o que se tem ou o que se é, é o que se faz), constituem factores exteriores à escola que têm um peso considerável e evidente sobre a igualdade de oportunidades subjacente ao acesso ao sucesso escolar. O breve percurso que agora traçaremos recairá sobre os factores internos à escola susceptíveis de agir no sentido de limitar ou ampliar esses factores, espaço onde inscrevemos a resiliência.Com efeito, nos adolescentes que exibem dificuldades em singrar no mundo escolar, o processo de construção de identidade positiva, no discurso de Erikson ou de ‘Identity achievement’ na terminologia de Marcia , parece ter ficado comprometido. Como auxiliá-los na construção de uma identidade positiva passível de os conduzir ao sucesso escolar? Os conteúdos da identidade traçados por Neuenschawander tornam lícito afirmar que para compreender e intervir nas diferentes identidades que a adolescência manifesta, se torna premente analisar os contextos sociais em que se movem e quiçá neles intervir. A este propósito, e na esteira de Neuenschawander, escreve Detry (2001-a :75) :” (…) De onde
a importância das várias estruturas de conteúdos em que a identidade pode ser analisada. Estas estruturas vão sendo reconstruídas à medida da acumulação de experiências, ou acrescentando inferências a partir do que já conhecemos de nós próprios.”Assim, no prosseguimento do que anteriormente dissemos, a construção de
uma identidade positiva, naquilo que de essencial ela alberga, tais como autonomia, auto-estima, auto-controlo, sendo tarefa primordial do sujeito (perspectiva construtivista) não é contudo dele exclusiva, e sendo atravessada pela influência do meio (componente ecológica), cabe-nos a incumbência enquanto educadores, de auxiliar com os meios disponíveis ao nosso alcance, estes jovens menos bafejados pelo conforto
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material e afectivo, limando as arestas mais agudas deste enquadramento. É neste encalço que a resiliência nos surge como hipótese a testar.
Conceito recentemente trazido para o antro da psicologia, a resiliência emerge do termo latino «resilientia», que é habitualmente empregue na física dos materiais, para designar a sua resistência a choques elevados sem se modificar, é também ele de difícil operacionalidade e portador de diferentes definições consoante os autores e os com textos em que o empregam. Adoptaremos no nosso trabalho, a proposta por Anaut (2005:43): “ A resiliência designa a arte de se adaptar às situações adversas condições (biológicas e sociopsicológicas) desenvolvendo capacidades ligadas aos recursos internos (intrapsíquicos) e externos (ambiente social e afectivo), que permitem aliar uma construção psíquica adequada e a inserção social.” Ela surge então de um
paradoxo: são as situações agrestes que desencadeiam o labor de lhes fazer face, adaptando-se, e sair transformado disso mesmo. Para tal, chama a si a combinação de vários elementos, fazendo desabrochar ou potenciar no sujeito a auto - estima, o auto - controlo, a crença na sua própria eficácia que o conduzem a ser protagonista da sua própria mudança. Do ensejo, a destrinça entre ‘resiliência’, capacidade para superar adversidades e com ela a possibilidade de traçar novos rumos, apontando para o devir do sujeito e não o voltar a um passado, potencialidade particularmente ajustada à adolescência, que é um tempo de crescimento não só biológico, mas também de uma progressiva maturidade a nível cognitivo, social e emocional, de ‘recuperação’, que implica o retorno a uma fase anterior. Ainda o não sinónimo com ‘invulnerabilidade’, que expressa um capacidade intrínseca ao indivíduo, como imunidade ao sofrimento.
A resiliência enquanto capacidade, desenvolve-se e transmuta-se ao longo do tempo, não é regular nem definitiva (é possível ser resiliente numas circunstâncias e noutras não) traduzindo uma conexão entre o indivíduo e o meio e enquanto tal, uma capacidade que é estimulada ou se adquire, sendo a ênfase colocada nas componentes psicológicas individuais. O adolescente resiliente não tem forçosamente uma inteligência superior (Cyrulnik:2007), mas é sobretudo alguém que possui, mais do que outros, capacidades de superação e crença nas suas próprias potencialidades, que lhe veiculam a possibilidade de uma adaptação positiva em situações adversas. O que forja este processo é o encontro paralelo e equilíbrio entre «factores de risco» e «factores de protecção», sem os quais aquele se constitui (Anaut,2005; Cyrulnilk,2003,207; Santos,2007).já que a existência dos factores de risco é que torna premente e dá
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sentido aos factores de protecção. Pelos primeiros, entende-se as variáveis susceptíveis de precipitar os sujeitos para situações de stress, sendo por isso preditores de consequências desfavoráveis no comportamento e nas atitudes perante a vida, podendo ser angariados no próprio adolescente – factores internos, tais como baixa auto--estima, dificuldades emocionais, ausência de humor ou auto -controle, dificuldades de aprendizagem, desinteresse pela escola, etc. quer no meio ─ factores externos, como por exemplo, a família, a pobreza, os pares, etc. Pelos segundos, entende-se as variáveis passíveis de defender ou atenuar o impacto dos primeiros, também eles colhidos no adolescente ou no seu meio envolvente. Deste modo, compreende-se que ambos podem ser simultaneamente factores de risco e de protecção, cobrindo uma realidade que tanto pode ter a sua génese no adolescente, como no meio e contextos que o determinam, dependendo isso do problema ou da etapa do ciclo de vida. Ainda neste registo, afigura- se nos pertinente salientar que ‘factores de risco’ e ‘estar em risco’, não têm sentido homónimo, pois aqueles solicitarão o recurso aos factores de protecção como prevenção, e estes últimos, implicando estar já imerso no problema, reclamarão a necessidade de intervenção.