Segundo a tradição Bororo, toda criança deve receber seus nomes nos primeiros dias de vida. A nominação é realizada no ritual: “ipáre en-ógowa, perfuração do lábio inferior aos recém-nascidos do sexo masculino, e imposição do nome”.100 No caso das meninas, a imposição do nome é feita sem a perfuração labial, antes de serem erguidas e terem seus nomes proclamados são assopradas pelo pai e pelo padrinho.
Alguns dias após o nascimento, é o pai da criança quem inicia os preparativos para a nominação. Na véspera do dia marcado para o ritual, o pai faz uma caçada, reparte as carnes conforme a tradição. Depois de serem cozidas por sua mulher, as oferece aos parentes clânicos dela e os convida para a escolha dos nomes da criança. Uma criança Bororo recebe pelo menos dois nomes nesse ritual. O nominador é escolhido entre os irmãos da mãe os nomes da criança devem ser escolhidos pelos parentes dela, que devem fazer parte do patrimônio de nomes privativos do clã da mãe. Feita a escolha, todos passam a noite entoando cantos em frente à casa do recém-nascido.
Nas primeiras horas do dia, a criança é ornamentada com plumas brancas, coladas ao corpo com kído gúru, resina, e a cabeça enfeitada por uma coroa também de plumas brancas. A criança é levada por sua mãe ao pátio central para ter seu lábio perfurado (se for menino) e seu nome imposto. No centro do pátio, a mãe com a criança no colo aguarda a aproximação de um homem do clã dos Baádo Jebáge, que ao som do íka, instrumento musical de sopro, e segurando o baragára, furador, se aproxima e toca de leve com
99. César ALBISETTI; Ângelo VENTURELLI, Enciclopédia Bororo, v. 1, p. 629. 100. Ibid., v. 1, p. 624.
furador no local a ser perfurado. Em seguida, o furador é passado para o padrinho, que se aproxima do afilhado e perfura o lábio inferior do recém-nascido, com um movimento rápido e preciso de dentro para fora. No orifício aberto, é colocado um pequeno pingente de osso, previamente fabricado, e fixado com resina. Feita a perfuração, o padrinho faz a proclamação dos nomes da criança. Segundo Albisetti e Venturelli: “Retira-a dos braços da mãe, e voltando-se contra o sol nascente, mantém-na levantada, segurando-a por baixo das axilas, e repete, gritando, várias vezes os nomes da criança”.101 É, então, que o pai e o padrinho sopram a cabeça da criança. A respeito do sopro e de seu significado para os Bororo, Sylvia Caiuby Novaes afirma:
O sopro tem, para os Bororo, um significado muito especial: aquele que sopra demonstra com isso sua relação social positiva, seu desejo de que a criança cresça forte e cheia de energia vital. O sopro está relacionado à vida e ao desejo de aquele que é soprado permaneça ativo e presente na sociedade. Outros momentos em que a pessoa é soprada reiteram esse sentido. Depois de receber o nome, a criança é soprada pelo seu padrinho. Após um longo período de ausência, o recém-chegado é saudado por um canto, um choro ritual, e em seguida soprado”. 102
Outros rituais de perfuração são feitos por ocasião da nominação. Um deles é a perfuração do septo nasal dos homens. O pai do recém-nascido nomeado conquista o direito de ter seu septo nasal perfurado, pelo fato de ser pai de um filho homem. Essa perfuração é feita com o mesmo baragára, furador, utilizado na criança. E outra, é a perfuração dos lóbulos das orelhas dos meninos e das meninas. Essa perfuração é feita da mesma maneira que é feita a perfuração do lábio do recém-nascido. Contudo, esse ritual não é relacionado com a puberdade, e é feito muito antes de as meninas receberem o kogú, e os meninos o bá. A nominação propicia o surgimento de um importante vínculo entre nomeado e nominador. A esse respeito, Viertler afirma:
A relação entre mestre e discípulo se baseia num vínculo de parentesco real ou classificatório, consagrado pelas cerimônias de nominação, de modo que os “pais” e “tios maternos/avós” por elas envolvidas passam a ser responsáveis pela educação dos seus nominados, de modo que cada criança Bororo possui seu tutor espiritual (pode ser mais de um) específico. Importante é ressaltar que tal transmissão de conhecimentos entre nominadores e nominados, ou pai e filhos, envolve outras formas de solidariedade moral, tal como a retribuição por comida, já que os mestres,
101. César ALBISETTI; Ângelo VENTURELLI, Enciclopédia Bororo, v. 1, p. 626.
muitos velhos para obtê-las por si mesmos, costumam recebê-la das mães de seus discípulos 103
CONCLUSÃO
A religiosidade Bororo apresenta a mesma dualidade presente na vida social desse povo, inicialmente representada pela relação entre os vivos e os mortos. Os vivos divididos em duas metades exógamas, eceráe e tugarége; os mortos, em dois reinos distintos, o reino dos aróe, almas, e o reino dos bópe, espíritos. Para cada um desses reinos existem dois sacerdotes, o aróe et-awára áre, xamã das almas, e o bári, xamã dos espíritos. Outras oposições são verificadas nos rituais – a participação de homens e mulheres, de iniciados e não-iniciados, assim como, as de mestres e discípulos entre outras.
Essa dualidade religiosa e ritual está intimamente ligada à mitologia Bororo. Segundo Egon Shadem: “De todos os mitos heróicos dos Bororo, o mais importante é, talvez o de Bakoróro e Ituboré”.104
Esses irmãos míticos, segundo Albisetti e Venturelli,105 designam os dois heróis lendários mais importantes da tribo: Bakoróro, chefe do subclã dos Aróroe Cobigiwúge, que governa a parte do reino das almas situado a ocidente da aldeia; e Ituboré , chefe do subclã Apiporége Cebegiwúge, que governa a parte do reino dos mortos a oriente da aldeia.
A esses gêmeos lendários são relacionados instrumentos musicais de sopro, de uso ritual: o iká, próprio do herói Bakoróro ; e o pána, próprio do herói Ituboré. Alguns atributos são também relacionados a Bakoróro, como a beleza e a força. E é a eles que os bailarinos e atores em determinadas representações rituais se dirigem, algumas vezes ao oriente, e outras ao ocidente, para prestar suas homenagens durante as danças.
A respeito dessa dualidade e suas implicações religiosas e rituais, Lévi-Strauss afirma:
103. Renate Brigitte VIERTLER, A questão da educação indígena, p. 78. 104. Egon SHADEN, Mitologia heróica das tribos indígenas do Brasil, p. 91.
Essa grande oposição entre os mortos e os vivos exprime -se antes de mais nada pala divisão dos aldeãos, durante as cerimônias, entre atores e espectadores. Mas os atores são, por excelência, os homens, protegidos pelos segredos de sua casa coletiva. Devemos, pois, conferir à planta da aldeia um significado ainda mais profundo do que aquele que lhe atribuímos no plano sociológico. Por ocasião dos falecimentos, cada metade representa alternadamente o papel dos vivos ou dos mortos, uma em relação à outra, mas esse jogo de gangorra reflete outro, cujos papéis são atribuídos de uma vez por todas: pois os homens unidos em confraria no bái mána gejéwu são o símbolo da sociedade das almas, ao passo que as cabanas ao redor, propriedades das mulheres excluídas dos ritos mais sagrados e, se podemos dizer assim, espectadoras por destino, constituem a audiência dos vivos e o espaço que lhes é reservado.106
CAPÍTULO 3
DANÇA BORORO
Aquele que sabe compreender a dança sagrada conhece o caminho que liberta da ilusão individualista, pois a dança é sua própria natureza, sua vida espontânea e total, para além de todos os fins particulares e limitados: ele se identifica com o movimento rítmico do todo que o habita. A dança é então um modo total de viver o
mundo: é, a um só tempo, conhecimento, arte e religião.107
Neste capítulo, serão analisadas as danças presentes no ipáre en-ógowa, nominação, no ipáre éno ó badódu, iniciação dos rapazes, e, no ítaga, funeral. Serão feitas descrições das coreografias, pinturas corporais e faciais, ornamentos, personagens representados e alguns instrumentos musicais utilizados para marcar o ritmo dessas danças. Todos os rituais Bororo são cuidadosamente coreografados. Repletos de gestos e passos, idas e vindas, entradas e saídas e marcados por travessias de uma metade para a outra da aldeia. Serão descritos, a seguir, os atos desses rituais, passando rapidamente por aqueles já analisados no capítulo anterior, analisando-se mais demoradamente os momentos em que a dança aparece nos rituais.
É pela dança que os Bororo representam as almas e os espíritos, os heróis lendários e seus antepassados. É com o corpo que os dançarinos Bororo interpretam esses personagens. Seus corpos, dos pés à cabeça, são pintados e desenhados de forma precisa e cuidadosa; enfeitados com penas e plumas das mais variadas cores, por colares e pulseiras de garras de feras, e, algumas vezes, com o brilho do pó de madrepérola. Constitui-se assim, um elaborado figurino, que, algumas vezes, é usado unicamente para caracterizar o personagem e outras para prevenirem-se de forma mágica dos maus agouros. Algumas vezes, sem ornamentos, apenas seus corpos executam coreografias simples e repletas de significados. Refletem assim, o modo de ser e de viver do povo Bororo.
A dança é um modo de existir. Não apenas jogo, mas celebração,participação e não espetáculo, a dança está presa à magia e à religião, ao trabalho e à festa, ao amor e à morte. Os homens dançaram todos os momentos solenes de sua existência: a guerra e a paz, o casamento e os funerais, a semeadura e a colheita.108