Para a recolha dos dados cinemáticos foi utilizada uma câmara digital Sony Handycam DCR-HC 42E, colocada do lado direito e perpendicularmente ao indivíduo, a uma frequência de recolha de 50 Hz. Os dados foram registados num PC em formato .avi, para posteriormente se proceder ao tratamento e digitalização de imagem. Para a digitalização de imagem e consequente determinação de alguns parâmetros, foram utilizados alguns pontos de referência, denominados de marcadores
corpo a nível do bordo lateral do acrómio, grande trocanter, côndilo lateral do fémur, calcâneo, maléolo lateral e cabeça do 5º metatarso, tal como sugerem vários autores (Poleyn et al., 1998; Runge et al., 1999; Frank et al., 2000; Gantchev et al., 2000; Lamontagne et al., 2000; Henry et al., 2001; Martin et al., 2002; Dibble et al., 2004; Termoz et al., 2004; Bleuse et al., 2005).
Em relação à posição do indivíduo, foi adoptada a posição de pé bipodal na plataforma de forças, descalços, com os membros superiores relaxados ao longo do corpo e olhos abertos a fixar um ponto pré-determinado colocado na horizontal (Aruin e Latash, 1998; Laughton et al., 2003; Aruin e Shiratori, 2004; Robert et al., 2004; Bleuse et al., 2005; Genthon e Rougier, 2005; Hass et al., 2005). Quanto à posição dos pés, dado o facto de estes influenciarem o equilíbrio, e apesar de vários autores defenderem posições standardizadas (Aruin e Latash, 1996; Aruin et al., 1998; Frank et al., 2000; van Wegen et al, 2001; Robert et al., 2004), no sentido de diminuir a variabilidade inter-individual e viés nos resultados, julgámos pertinente que a posição dos pés fosse auto- seleccionada por parte dos participantes, pois uma posição standard poderia, por si só, induzir igualmente viés nos resultados, pelo facto de estarmos a condicionar o indivíduo a assumir uma base de suporte que não é habitualmente a sua, ainda mais quando se trata de indivíduos com patologia. Assim, tal como em estudos prévios (Gantchev et al., 1996; Poleyn et al., 1998; Celso et al., 2000; Martin et al., 2002; Laughton et al., 2003; Bleuse et al., 2005; Hass et al., 2005), cada indivíduo
adoptou a sua própria posição inicial dos pés, esta que foi controlada, através da colocação de tape no contorno dos pés, de forma a manter sempre a mesma durante as cinco repetições de teste (figura 4).
Figura 4. Controlo da posição inicial dos pés.
Após a determinação da posição inicial (figura 5a), os indivíduos desempenharam a tarefa que consistiu na iniciação da marcha, mais concretamente na realização de um passo para a frente com o membro inferior direito (Robert et al., 2004; Brunt et al., 2005) (figura 5b). Foi solicitado aos
participantes que iniciassem a tarefa após comando verbal (“agora”) dado pelo investigador e que a realizassem a uma velocidade auto-seleccionada (Martin et al., 2002; Aruin, 2003; Aruin e Shiratori, 2004; Mickelborough et al., 2004; Hass et al., 2005; Liu et al., 2005). Simultaneamente ao comando era activado o trigger de forma a registar o início o evento, que correspondia ao momento do
feedback verbal.
Figura 5b Posição final do movimento.
Figura 5a. Posição inicial do movimento.
A selecção da tarefa baseou-se em diferentes aspectos referenciados na literatura da área, tais como: (1) o decréscimo da estabilidade postural ser mais evidente e relevante em tarefas dinâmicas que conduzam a uma alteração na direcção ML, razão pela qual as quedas ocorrem quando há realização de um movimento do membro inferior; (2) o efeito da instabilidade nos APAs é mais notório quando as extremidades inferiores se encontram envolvidas na perturbação; (3) a iniciação da marcha ou o passo constitui a tarefa ideal quando se pretende identificar e diagnosticar défices no controlo motor e equilíbrio, particularmente na população idosa; (4) os DP apresentam grandes dificuldades em actividades que impliquem sequências de movimento, especialmente a marcha (Couillandre et al., 2000; Sims e Brauer, 2000; Brauer et al., 2002; Martin et al., 2002; Aruin, 2003).
O procedimento experimental envolveu cinco repetições para cada indivíduo, com um intervalo de 10 segundos entre elas, de forma a evitar a instalação de fadiga, que constitui um factor que influencia o controlo postural, reflectindo-se na diminuição da frequência do sinal EMG e da densidade espectral (Aruin e Almeida, 1997; Allison e Fujiwara, 2002; Fiolkowski et al., 2002; Lowery et al., 2002; Slijper et al., 2002; Aruin, 2003; Aruin e Shiratori, 2004; Farina et al., 2004; Coorevits et al., 2005; Liu et al., 2005; Vuillerme et al., 2005; Beck et al., 2005).
4.2.6.1.1. Análise dos dados cinemáticos
Após a recolha das imagens, procedeu-se ao seu tratamento e digitalização, no sentido de calcular a velocidade e o comprimento do passo, assim como o tempo zero (t0). Para tal, foi utilizado como ponto de referência o
marcador colocado a nível do calcâneo (Miller et al., 1996; Mickelborough et al., 2004).
A velocidade e o comprimento do passo foram calculados com o propósito de se estimar a velocidade e a magnitude da perturbação, referidos pela literatura como factores que influenciam os APAs na marcha (Bouisset et al., 2000; Lamontagne et al., 2000; Pellec e Maton, 2000; Fiolkowski et al., 2002; Ito et al., 2003). Para a medição destas duas variáveis foi efectuada a digitalização de imagem desde o momento imediatamente antes da elevação do calcanhar até ao contacto deste com o solo. A velocidade utilizada para o estudo foi o valor atingido no momento do contacto do solo.
O tempo zero (t0) foi considerado o momento em que ocorreu o primeiro
movimento visível do calcâneo, enquanto o tempo final (t1) correspondeu ao
momento do contacto deste com a superfície de apoio. Todos os dados recolhidos no âmbito dos APAs, quer a nível da plataforma de forças quer da electromiografia, foram obtidos e analisados sempre em relação a t0.
Esta quantificação dos diferentes parâmetros cinemáticos foi obtida recorrendo ao sistema de análise de movimento Ariel Performance Analysis
System (APAS) da Ariel Dynamics Inc., realizado em ambiente Windows 98,
existente no laboratório de biomecânica da FADE-UP.
O cálculo dos parâmetros acima descritos a partir do APAS envolveu um processo com diferentes passos metodológicos. Assim, inicialmente foi seleccionado o conjunto de frames pertinentes para a análise pretendida. Para tal, recorreu-se ao módulo trimmer de forma a cortar o avi que englobasse desde o tempo zero (t0) até ao momento final (t1). De seguida foi estabelecido
um projecto de digitalização de um ponto, o que pressupôs a definição de quatro pontos de controlo para análise 2D marcados previamente no sistema de calibração especial (ver figuras 5 a e b). Posteriormente procedeu-se à transformação dos pontos digitalizados no passo anterior, de forma a converter as imagens digitalizadas em 2D numa sequência de imagens 3D. Para tal, recorreu-se ao módulo Transform que, automaticamente, após a transformação, submete os pontos digitalizados a um auto-filtro de 5 Hz em x e y. Finalmente, após todas estas fases, foi utilizado um módulo, Display, que permitiu obter uma apresentação completa dos dados do movimento em análise, possibilitando o cálculo das variáveis pretendidas, nomeadamente a velocidade e o comprimento do passo.