6.3 Success
6.3.3 Success – IFTT
Uma das várias colônias agrícolas implantadas a partir dos anos 40 com objetivo de distensionar o problema fundiário em outras áreas foi a Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG), no Município de Ceres. O projeto teve um impacto signifi cativo, atraindo milhares de camponeses sem terras à região. No entanto, diante do afl uxo crescente de posseiros e à impossibi- lidade de a colônia receber mais famílias, muitas delas começaram a afl uir para Formoso e Trombas, uma área de terras férteis e devolutas ao norte. Os posseiros puderam se instalar com relativa tranqüilidade, por ali havia bem poucas fazendas e, mesmo assim, bem distantes. Não demoraria muito e, nos anos 50, com o avanço do capitalismo no campo e um cenário de forte valorização daquelas terras, grandemente facilitada pelo embrião da cons- trução da Belém-Brasília e mesmo a projetada mudança da capital federal para o meio-oeste goiano (relativamente próxima da área de Trombas), o quadro político começou a se alterar.
Os fazendeiros iniciaram a cobrança de arrendo e, paralelamente, teve início a grilagem das terras, processo grandemente facilitado pelo conluio do juiz da comarca de Uruaçu, entre outros personagens, com o proprie- tário do cartório local. Há também indícios de que outros atores estavam interessados naquelas terras, como militares (alguns deles golpistas em 1964) e empresas internacionais de mineração (Cunha, 2007, p.168). Mas, diante das muitas difi culdades, os posseiros resolveram não pagar nada e teve início a fase da repressão. Nas palavras de um antigo posseiro:
virou campo de tortura, toda sorte de humilhação e desgosto a gente passava. O grupo de grileiros aumentava cada vez mais e de apenas fazendeiros de Uruaçu, agora também tinha fazendeiro e juiz de Porangatu. Eles tinham uma bolsa onde todos pagava uma contribuição pra poder contratar jagunço e a polícia. Olha, na região o camponês ganhava por dia 5,00 e os jagunços 100,00. Então, com a mi- séria que a região estava, apareceu o jagunço, mesmo até entre os posseiros, pois trabalhar na terra não dá nada, não dá dinheiro, a gente pode ter fartura, mas fi ca rico, isso nunca. A grilagem é sempre feita na cidade e com aprovação do governo, posseiros nunca tem direito e nem lei que nos socorre. (Depoimento do camponês D. in FERNANDES, 1988, p.130)
O processo de resistência teve início na área de Formoso, com a destacada atuação do camponês Firmino, que, segundo algumas fontes, tivera algum contato com o PCB em um período anterior, e, em Trombas, com a fi gura de José Porfírio. O primeiro procurou mobilizar os posseiros, enfrentando os grileiros e teve sobre seus ombros as conseqüências maiores de sua postura, sendo barbaramente torturado. Depois disso, ele não fi caria mais tempo na região. Em Trombas, José Porfírio também procurou equacionar a pendência com grileiros por vias legais e diálogo, tentando fazer acordos, inclusive
de compra das terras. Tempos depois, ele esteve em Goiânia e consta que, posteriormente, foi ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, procurando a mediação do Governo Federal com objetivo de legalizar as terras.3
Paralelamente, na CANG, os comunistas já estavam bem estruturados, e, naquela ocasião, desenvolviam intensa campanha de mobilização, sem muito sucesso. Nessa fase exploratória de intervenção, já respaldada na Linha de seu IV Congresso de 1954, se fazia presente na região Gregório Bezerra, que, conjuntamente à tarefa de coleta de assinaturas em favor da Paz Mundial, organizava o PCB por Goiás e, clandestinamente, avaliava o potencial de aquela região vir a ser o foco combustor da Revolução Brasi- leira (Bezerra, 1980, p.86-7 e 96). Bezerra não fi caria muito tempo na área, mas o núcleo do PCB, na Colônia Agrícola, por ele rearticulado percebeu o potencial do confl ito não muito distante dali e, de acordo com as novas diretrizes à esquerda, enviou para avaliar a situação Geraldo Tibúrcio, futuro presidente da ULTAB. Tibúrcio se encontrou com Firmino e, na volta, os comunistas decidiram enviar à região quatro escolados militantes para se fi xarem no local, todos eles camponeses de origem e comunistas há algum tempo. Eles viriam a se constituir no Núcleo Hegemônico do PCB (NH), que permanecerá praticamente inalterado ao longo do confl ito até 1964.
Geraldo Marques era o militante mais ativo, aquele que expressava, por sua forte personalidade, um posicionamento fi rme nos momentos mais necessários; José Ribeiro foi apontado por muitos posseiros como o articu- lador político de todo o processo, sendo, entre eles, o mais ideologicamente preparado, tanto é que veio a ser o primeiro camponês a entrar no Comitê Central nos 60; João Soares, o mais idoso à época e tido, igualmente, como uma liderança carismática e que seria, inclusive, enviado à URSS pouco tempo depois; e, fi nalmente, Dirce Machado, militante comunista de longa data e que desenvolvia uma intervenção política e de mobilização que foi determinante junto às mulheres. A essa composição do Núcleo Hegemô- nico se somaria depois José Porfírio, a liderança mais carismática e face externa do movimento. Posteriormente, outros quadros seriam enviados para intervir no processo da luta e incorporados; a mobilização decorrente extrapolaria e muito a esfera partidária.
Nessa fase inicial, após a saída de Firmino, teve início para os militantes um penoso e difícil processo de organização e conscientização na área de Formoso. As difi culdades de serem aceitos pelos posseiros eram muitas, particularmente pela condição de comunistas, um tabu enorme entre eles. Não demorou muito, ouviram falar de José Porfírio em Trombas. Várias pistas sugerem que foi a partir desse momento que a organização teve um
3 A recente dissertação de Esteves bem recupera essa fase, valorizando inclusive essa forma
de resistência e resgatando em sua leitura preciosos documentos comprobatórios dessa atuação (ESTEVES, 2007).
salto quantitativo e qualitativo. Algumas fontes indicam que Porfírio teve algum contato com quadros comunistas em anos anteriores à sua ida a Trombas, mas, concretamente, há muitos relatos que apontam sua enorme difi culdade de apreender o programa partidário. Num depoimento revelador, Geraldo Marques pontua que:
Nós fi camos um ano andando de casa em casa, explicando tudo, a gente logo conseguiu muito nego macho, mas não era a maioria. E o coletivo tava acima de tudo. Fomos procurar o líder dos posseiros, José Porfírio. [...] Passei três dias lá com ele, discutindo tudo, lendo a Voz Operária. Falando que a luta dele era ilusão, e que grota existia muita. Mas o Zé Porfírio era um home que acreditava na bondade dos outros. Ele não agradecia nem o bem que os outros lhe fazia e nem não revidava o mal, porque ele achava que o bem a gente tem que fazer mesmo e o mal era feito porque não sabia se fazer o bem. Ele demorou muito a entender o que é o latifúndio capitalista. Mas logo achou o programa do Partido justo. Não queria terra só pré ele, mas prá todos os camponeses do Brasil inteiro. Isso é que era justo. Logo começou também a ir de casa em casa. Ele era respeitado pelos camponeses. E durante um ano nós trabalhamo muito tempo, mostrando os direitos de todos de lutar pelo necessário à sua sobrevivência. (Fernandes, 1988, p.130)
Mesmo assim, esse encontro ainda não possibilitou que a organização se viabilizasse imediatamente, embora, naquela ocasião, não restasse aos posseiros de Trombas outra alternativa que não fosse a resistência. Pouco tempo depois, seria fundada a Associação dos Lavradores do Formoso, que teve inclusive a presença de um advogado do PCB, vindo de Goiânia, e o apoio entusiasmado dos posseiros, sendo eleito, na ocasião, como presi- dente, José Porfírio e como secretário José Ribeiro.
Não demorou muito, explodiu o confl ito. Ainda que o processo de organização dos posseiros fosse frágil e estivesse em curso a preparação da resistência, já acontecendo o envio de assistentes políticos do Comitê Central à área, tendo inclusive referências do envio de algumas armas, a precipitação do confl ito se deu justamente com a tentativa de um dos grileiros de expulsar um dos posseiros, Nego Carrero. Ele era famoso pela valentia e resistiu a tiros, baleando de morte um sargento e ferindo outro policial. A partir desse momento, a região tornou-se um palco de luta.
O processo decorrente remeteu a luta a uma nova fase de intervenção, sendo constantes as escaramuças. Houve um período de tensão enorme. A liderança dos posseiros – leia-se o NH – caiu na clandestinidade para melhor dirigir a resistência. Entendo que, nesse momento, a revolução esteve na ordem do dia. A partir desse processo de resistência e com o confl ito em curso, mais armas foram enviadas à região, como também teve início, pouco tempo depois, uma articulação política maior junto aos demais setores da sociedade civil goiana e também nacional no sentido de galvanizar apoio à causa.
Essa fase, contudo, foi essencialmente armada. A estratégia ali desenvol- vida, de autodefesa armada, sugestivamente incorporava táticas de guerri- lhas (Moraes, 1991 e 2005. p.72) ao processo de resistência, algumas delas próximas às utilizadas na Revolução Chinesa. Segundo Sebastião Abreu, também eram populares os escritos de Mao Tsé Tung, que circulavam com desenvoltura entre os posseiros (Abreu, 1985, p.76). Paralelamente, não foram poucos os cursos de formação política ministrados por assistentes do PCB aos militantes de Trombas, alguns deles em Goiânia, bem como foi intenso o processo de politização. Mas a tensão e o confl ito eram igual- mente constantes e, nessa ocasião, ocorreu o confronto mais conhecido, a Batalha de Tataíra, quando os posseiros forçaram o recuo dos policiais, estes últimos em maior número.
A partir desse momento e do impasse militar, o quadro político também sofreu uma alteração signifi cativa. Tendo o governo do estado de Goiás decidido pôr fi m à luta, vários fatores intervieram para o equacionamento político e a trégua decorrente. A rigor, várias mediações foram decisivas para que não ocorresse a invasão da área de Trombas e seu aniquilamento armado, inclusive porque tropas policiais chegaram a fi car aquarteladas no vizinho município de Porangatu, esperando somente uma ordem de invasão (Cunha, 2007, p.184 e ss).
Uma das mediações mais importantes foi a fi rme decisão dos posseiros em resistir, seguida pelo posicionamento do Núcleo Hegemônico em dar visibilidade a José Porfírio, escudando para o público externo qualquer vínculo dos comunistas estarem atuando na área. Como decorrência, o PCB viabilizou, em seguida, por meio de seus militantes e entidades como a ULTAB, uma campanha regional e nacional de denúncias das atrocidades na região, o que trouxe enorme impacto à causa dos posseiros. Decorreu uma signifi cativa mobilização da sociedade civil goiana em apoio aos camponeses, particularmente dos estudantes. Quase ao mesmo tempo viabilizou-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito que, mesmo não trazendo resultados concretos quanto ao equacionamento do problema fundiário, possibilitou, pela enorme pressão sobre os deputados e o governo, que as tropas policiais fossem retiradas.
Um dos fatores correlatos que igualmente podemos inferir como deter- minante nesse processo decorreu de uma postura crítica da Igreja Católica e do apoio de alguns prelados à causa dos posseiros, o que diferenciava da tradicional postura de omissão e mesmo de apoio à intervenção. Sugesti- vamente, podemos contabilizar, como mais um fator de pressão, a postura crítica do Governo Federal em relação ao governo de Goiás. Afi nal, Brasília já saía das fundações, mas a pressão contra a transferência da capital fede- ral do Rio de Janeiro para o planalto goiano ainda encontrava resistências enormes, particularmente no quesito segurança. Por fi m, o Partido Comu-
nista, desarticulado como estava diante das denúncias do stalinismo e o virtual afastamento da militância e de sua organização, especialmente em Goiás, reestruturou-se na tarefa de bem equacionar o confl ito de Trombas, legitimando-se como um canal de intervenção e possibilitando afi ançar um acordo que retirasse as tropas da região.
Com relação a essa última mediação, vale ponderar o seguinte: com a crise provocada pelo XX Congresso do Partido Comunista da URSS, o PCB praticamente se desestruturou e, mesmo na região, os posseiros fi caram algum tempo isolados. Todavia, diante das características desse partido em Goiás, eminente urbano e intelectualizado, o impacto foi bem mais signifi - cativo. Nesse sentido, vale registrar que a rearticulação dos comunistas em Goiás, mas também as orientações políticas decorrentes ao equacionamento da problemática de Formoso – nada isolado das mediações anteriormente postas – teve a decisiva atuação de Antonio Granja,4 dirigente comunista
histórico e camponês de origem, que, ao voltar da URSS, juntamente com uma safra de quadros políticos e militantes, se reintegrou ao processo de reorganização partidária. Ele, especialmente, assim que chegou ao Rio de Janeiro, foi enviado diretamente a Formoso e a Trombas, onde teve destacada atuação na condição de assistente do Comitê Central.
Ao fi nal desse confl ituoso processo, as tropas estaduais foram retiradas e teve início uma nova fase do movimento, em que a região foi relegada ao abandono, tendo os posseiros, através da Associação, assumido o controle da área e o virtual governo do território. Concretamente, como sugere Wolf em casos correlatos em sua análise sobre as revoluções camponesas, diante da impossibilidade de uma articulação – por vários motivos – a um projeto nacional, as revoluções camponesas tendem invariavelmente ao isolamento e, por conseqüência, ao equacionamento no plano local ou regional do confl ito (Wolf, 1984). Igualmente emerge, nessa fase, o mito da República de Formoso e Trombas, que seria apreendido ao longo dos anos seguintes por autores e atores de tendências políticas e ideológicas diametralmente opostas. É um momento que possibilita aos posseiros uma certa tranqüilidade. Nas palavras de um deles:
Foi a primeira vez que nós comemorou uma vitória. Cada qual podia agora cuidá da sua terra, plantá e colhê. O sistema de mutirão foi muito incentivado. E a traição também. A traição era uma brincadeira que a gente tirava com os companheiros chegante ou em difi culdade, que por qualquer motivo não tava dando conta de tirar a produção para a família. A traição era uma forma alegre e solidária de união dos posseiros. (depoimento do camponês N. in: Fernandes, 1988, p.150)
4 Além das entrevistas ao autor, vale conferir a recente biografi a de Granja feita por Dino de
Essa fase – a partir de 1957 – é também caracterizada pela formação de uma das expressões democráticas mais conhecidas do processo de organiza- ção desse movimento, ou seja, os Conselhos de Córregos. Sugestivamente, pontuo, nesta refl exão sobre a temática, que há uma aproximação concei- tual em Gramsci sobre a relação do Partido e os Conselhos,5 até porque a
Associação sempre fora a instância e a face política legal do PCB ilegal em Trombas, quando seus militantes estimularam a formação dos Conselhos, organismos que nucleavam os moradores de vários locais. Neles, os pos- seiros equacionavam pendências, como também viabilizavam o controle da área, possibilitando uma comunicação efi ciente e, numa emergência, deslocamentos de doentes.
Até 1964, a região teve 25 conselhos atuando com graus diferenciados de organização em três Associações. Essa fase, no entanto, igualmente possibilitou – apesar de certa tensão ainda presente e eventuais atritos com jagunços – uma relativa prosperidade, à medida que houve possibilidade de plantio e, particularmente, de colheita. Na linha de consolidar as conquistas e viabilizar uma estratégia de salvaguarda em futuros confl itos, a Associação (leia-se NH) teve a iniciativa de articular uma aliança com lideranças de mu- nicípios vizinhos, no sentido de propiciar apoio político, tendo em retorno a presença da máquina pública municipal às demandas mais sentidas dos posseiros, como escolas e melhoria das estradas. O cenário de isolamento, no entanto, começa a ser alterado pouco tempo depois e por várias razões. Uma delas é bem descrita por Abreu:
em 1958, o governo do estado se convenceu de que não podia mais continuar igno- rando a existência de Formoso e Trombas, estas duas vilas eram, em todo o estado, as que apresentavam os mais baixos índices de criminalidade. Em quatro anos, não ocorrera em nenhuma das duas qualquer homicídio ou mesmo lesão corporal de caráter doloso. Apenas alguns furtos foram registrados e as poucas brigas aconteciam entre rapazes e eram motivadas por disputas amorosas. Afi nal, Formoso e Trombas era o Brasil. (Abreu, 1985, p.97)
Contudo, esse período de impasses e tensões perduraria até o início de 1960, quando emergiu na cena política goiana Mauro Borges e novos tempos se anunciaram no horizonte brasileiro.