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1. Enzymes

1.5. Substrate specificity

Fernando Sabino, como Drummond, cria o ensejo ao início de uma correspondência com Mário ao lhe confiar a leitura de um trabalho literário, nesse caso, seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais (1941). Entre os interlocutores de Mário, Sabino é talvez o que mais se prostra, reverente, diante das opiniões-lições de Mário.

A impressão viva que essa correspondência deixa no leitor é a de que Sabino jamais se ‘recupera’ do deslumbramento por manter diálogo com alguém como Mário. É uma postura que traduz o encontro de Belo Horizonte com São Paulo – a ainda tão

provinciana e tímida Belo Horizonte com a cosmopolita e esfuziante São Paulo, “única coisa magnífica e apresentável da falsa civilização brasileira” (ANDRADE, 2010b, p. 201), como Mário de Andrade, em momento de arroubo bairrista, certa vez afirmou em carta a Luís da Câmara Cascudo. O fascínio de Sabino contentar-se-ia, portanto, em conversar sobre o que quer que fosse com Mário, e este está bem livre para conduzir a direção do diálogo e dos temas abordados. A reação de Sabino contrasta em muito com a de Drummond, na réplica ao veredicto do mestre:

Prezado Mário de Andrade

Acabo de receber sua carta. Para mim ela vale mais do que tudo que falaram

– ou poderiam falar –de “Os Grilos”.

Explico-me: há muito esperava sua opinião, no que ela pudesse me servir, com ansiedade incontida. Confesso que pensei nela antes da publicação do livro (e esta foi para mim apenas um meio de orientação, um marco, um ponto de partida). Pois bem – a orientação esperada partiu de você, com essa carta. É como se eu tivesse publicado o livro apenas para recebê-la. Você me indica caminhos, toca em pontos de grande importância, mostra os defeitos, interessado, bem intencionado, amigo. Era isso o que eu desejava e precisava. Você não pode calcular quanto valor tem para mim alguns esclarecimentos seus (...). Quero, pois, de início, que você saiba de minha gratidão, que não é

pequena.

Quanto à idade, é um pouco menor do que você esperava, pois tenho 18 encabulados anos. E o meu medo de sua opinião a respeito dos contos se

modificar muito, mormente sabendo que alguns deles, como “Telefone”, “As Rosas Iam Murchar” e outros, foram escritos e publicados há mais de 4

anos. Temo que você agora passe a achar que um valor possivelmente notado aqui e ali não seja senão o resultado de um maior ardor de juventude ou de um feliz momento de criação inconsciente e ignorada. (...)

Você me desculpe a desordem e a extensão desta minha carta. Queria lhe dizer várias coisas mais. Pediria até que você me escrevesse outra vez, depois

de recebê-la, caso seja possível. Pelo que eu vi suas cartas ajudam muito a gente. (...)

Esta minha carta foi escrita com arrebatamento, logo que recebi a sua, de tanto valor para mim, me ajudando muito, mas muito mesmo (se você tem mais coisas como aquelas para me dizer, então, eu lhe peço, Mário, não deixe de dizer). Sei que posso começar a abusar de sua camaradagem e interesse, que até agora me deixam embasbacado.

Relendo esta carta com calma, vi que ela só poderá te chatear. (...) (ANDRADE, 2003, p. 16-17, grifos meus).

É explícito o temor cerimonioso de Sabino diante de Mário: medo de aborrecê- lo, medo de não agradecer o suficiente a enorme generosidade de alguém tão ilustre escrever-lhe – a ele, praticamente um adolescente a aventurar-se na literatura –, medo de que Mário, após saber sua idade, menor do que a por ele antecipada, considere-o apenas um menino; medo de que Mário não torne a escrever. O joveníssimo Sabino aferra-se às opiniões de Mário como verdades proferidas de um lugar de superioridade partilhado com mais ninguém.

Destoa, quase em absoluto, da primeira carta do Drummond também imberbe, que estende cortesia e gratidão a Mário sem qualquer sombra de excesso, e não se deixa intimidar pela importância do interlocutor: se discorda de quaisquer aspectos no ponto de vista do mestre, não vê problemas em dizê-lo, fosse Mário quem fosse. A carta de Drummond é segura e ‘sem dedos’; a de Sabino é servil e veste luvas de pelica.

No que diz respeito à sedução, é a propósito da idade de Sabino que, na primeira carta a ele, Mário lhe lança o primeiro – e arrasador galanteio – um convite ao carteamento. Sem perder a ‘deixa’, como lhe é típico, cobra do escritor (o tom transcende a recomendação e beira a exigência) mais engajamento social, segundo o princípio da utilidade que, para Mário, deveria reger o fazer artístico:

Não sei si você consegue perceber que no fundo seu livro me interessou muito. Mais você que o livro, aliás... Conforme a idade, lhe garanto que você

pode ir longe. Mas não como um Jorge Amado, pouco trabalho, ignorância muita, criação de sobra. Você tem que trabalhar dia por dia. Como um Machado de Assis.

E não lhe seria possível botar um bocado mais de responsabilidade humana coletiva na suas obras? (ANDRADE, 2003, p. 15).

A requisição de Sabino – continuar a ouvir o que Mário estivesse disposto a dizer e ensinar – não poderia ser mais bem-vinda. Mas antes de aceitá-la, vemos um pouco mais da automodelagem de Mário:

Fernando Sabino

Recebi sua carta e refleti sobre ela. A conclusão mais séria para mim é a seguinte: Vejo que estamos os dois na iminência de iniciar uma correspondência longa e nutrida. Pra você, moço, cheio da vida e ainda não

“consagrado”, ansioso de saber, isso não vai ser difícil. Pra mim vai. Seria estúpido eu não saber que sou “consagrado”. Só os esforços, os esperneios,

os papelões que faço pra não virar medalhão duma vez, você nem imagina. Sucede, pois, é natural que eu tenho muitíssimo trabalho e também uma correspondência enorme. Não hesito um só segundo em lhe garantir que, apesar de tudo isto, não me pesará em nada lhe escrever muito, auxiliar você no que eu possa. Apenas, preliminarmente, eu desejo que você se examine

bem, num verdadeiro exame de consciência, antes de se decidir a exigir esta correspondência (ANDRADE, 2003, p. 20, grifos meus).

O comentário de Mário sobre se saber “consagrado” – quando já tanto o negara com alguma veemência – e esforçar-se por não se converter em “medalhão” remete à outra carta de Mário, dessa vez a Guilherme de Figueiredo:

Aqui, meu amigo, entra a razão primeira e absorvente que levou a recusar o curso aí no Rio. Preciso desaparecer o mais possível. Artigos não tenho

escrito mais, o que, aliás, não pode continuar assim. Mas outro lado, além da

minha incapacidade atual de escrever artigos “dirigido”, outra preocupação,

de ordem amorosa, veio interferir no meu caso. Com a falta de papel os jornais estão restringindo o número das coloborações pagas. Ora, si eu, mesmo com os orçamentos solapados, sempre me aguento bem nas minhas bases de funcionário, devo estar tomando nos jornais uns biscates que outros precisam muito mais que eu?

É mais um desgosto, mais um motivo pra desaparecer, porque a minha concorrência é desleal. Meu Deus! é preciso mesmo que eu acabe me

reconhecendo hoje um “consagrado”... Seu Guilherme, lhe juro que isso é

uma coisa detestável para mim e estava totalmente fora dos meus cálculos vitais. Não por modéstia, não tenho modéstia, mas por necessidade primária de temperamento. Afinal, toda a minha obra é uma obra polêmica. Nasci

para discutir, expor aspectos discutíveis e ser discutido. Mas você reparou que coisa deplorável (pra mim) a atitude da crítica diante das “Poesias”?

Uma atitude fatigada, sem nenhuma espécie dinâmica de curiosidade. Uma

atitude oficial!

Você nem imagina o desespêro que ficou dentro de mim por causa disso. Não é que tivessem errado, pelo contrário, falaram muitas coisas certas. Mas já

virei assim uma espécie de Taunay que a gente não gosta por dentro, mas elogia por fora. O que eu tenho feito pra não virar medalhão você nem

imagina. Mas existem as formas subrepticias do medalhonismo. E afinal das contas o que entra de medalhão na própria mocidade querer me publicar na Casa do Estudante ao lado do Gilberto Freyere e do Afonso Arinos, ou que seja eu a iniciar (insistem na noção de iniciar) a série de conferências do ano; o Caderno Azul querer iniciar sua série comigo; meu Deus! são mil e uma formas insidiosas de me promover medalhão, e isso me desconserta. Aceito,

os interesses pessoais e as vaidades me fazer aceitar, depois me arrependo.

(...)

Agora: o que eu sofro por dentro, escutando (...) os rapazes me falarem que

“precisam de mim”. Fico desesperado. É verdade, precisam mesmo, é

natural que precisem. Seria imodéstia bêsta dizer que muitos não precisam. Eu sinto que minha conversa, minha presença é uma espécie de comodidade pra vários. É a frase, das milhares sobre mim, creio que do Carlos Lacerda,

quando voltei pra cá, dizendo numa noite que a conversa baixara de nível sem mim. (...) É certo que eu preciso desaparecer sob certas formas, pelo menos as espetaculares do aparecimento. Não fazer conferência, (as que tenho recusado!), não fazer cursos (acabo de recusar um aqui prá... granfinagem), não aceitar viagens (...), escrever o mínimo possível de artigos, não mandar meus livros aos críticos, não dar entrevistas. Ando com enjôo de mim. Me sinto estandartizado. Não sou mais eu (ANDRADE, 1989, p. 47-48, grifos meus).

A carta a Figueiredo é do mesmo ano da escrita a Sabino, 1942, e enviada quatro meses depois. A questão colocada por Mário sobre seu próprio papel encerra uma contradição flagrante, já por mim explorada anteriormente em outros termos: Mário diz rejeitar ser “medalhão”, mas ao mesmo tempo não abre mão de sua importância. A prática de escrever cartas, a despeito da alegada falta de tempo, é, para Mário, um meio certo de reafirmar sua importância. Escrevê-las, pela permissividade de sua forma – confessionário, palanque, janela para o mundo e para o outro – alimenta sua vitalidade, como pensador e como homem. No que diz respeito a esse ingrediente da nutrição intelectual e humana de Mário, podemos identificar o escritor à imagem do Drácula –

indiretamente atribuída a ele, certa vez, pelo jornalista João César Borba, e como lembra Eneida Maria de Souza –, por oferecer sua experiência e conhecimento em troca da vitalidade que corre sobretudo nas veias da geração mais nova (SOUZA, 1990). Melhor dizendo, é em sua atuação como mestre – e pensemos nela no contexto do convívio epistolar –, que Mário renova seu fogo e entusiasmo.

A interpretação social que Mário faz de seus deveres é questão fundamental para a constituição de sua identidade. É esta interpretação a definir, em grande medida, as formas como ele se modela frente a seus interlocutores. Ao assumir tais deveres, são seus interlocutores epistolares, assim como seus demais contemporâneos, quem também passam a assim modelá-lo, com suas expectativas e projeções. No trecho citado da carta de Sabino, em que este ‘se coloca nas mãos de Mário’, ao solicitar ardorosamente as contribuições do mestre, podemos claramente ver como o fenômeno de automodelagem de Mário também tem a efetiva participação daqueles ao seu redor, que endossam, como dito, o que Mário entendia como ‘seus deveres e habilidades’. Isso exemplifica, sob uma outra ótica – complementar – a assertiva trazida no início deste capítulo: “o eu é em função do outro”. Além disso, não percamos de vista que a interpretação do que considerava seus deveres, por Mário, é resultante da interpretação que Mário faz de si mesmo, como Paul Ricoeur afirmou ser necessário para a constituição da identidade que se narra. Num esforço de ampliação dessa compreensão, explorei o posicionamento da psicanálise sobre o desejo, segundo o qual as formas de modelagem da identidade pelo sujeito – em suas ficções –, pretende também dar voz ao desejo – referente àquilo que o sujeito não pôde realizar e que ainda deseja realizar. Em Mário, isso se evidencia na busca constante por continuar a realizar seus deveres – particularmente, no âmbito do pensamento e da crítica. Ao bem executá-los, Mário também, quem sabe, abranda algumas de suas frustrações pessoais, como a de não ter podido realizar-se satisfatoriamente – em seu próprio julgamento – como escritor de uma obra literária dita ‘prima’ (projeto pessoal X projeto coletivo; desejo X idealismo).

Na lista das motivações para a automodelagem – ou para o uso de máscaras –, está também, é claro, a preocupação em agradar o outro, que como já anotei, é intensa em Mário. Ele mesmo se mostra consciente disso na já citada crônica “Do cabotinismo”, em que reflete sobre a vaidade do artista:

Não são, no caso, somente as idéias secretas que nos dirigem, mas principalmente a máscara que lhe damos. Sei e afirmo que os móveis

secretos, ambições desprezíveis, imorais, anti-sociais e cabotinismos em geral, principalmente êsse terrível e deformador desejo de agradar aos outros, são a origem primeira de todos os nossos gestos em sociedade, dos nossos gestos enquanto sociais. E, conseqüentemente, a origem da maioria infinita das obras de arte também. Mas isso de ser o móvel originário não significa de forma alguma que seja o móvel dirigente. Êsses motivos secretos são recalcados, são vencidos dentro de nós, embora vencidos só aparentemente, ou só momentâneamente derrotados. Vencidos porque a vida do homem entre

os homens cria essa entidade de “ficção” que somos socialmente todos, e

carecemos ser pra que a forma social se organize e corra em elevação moral normativa (ANDRADE, 1972b, p. 79, grifo do original).

Ainda de maneira a evidenciar como os papéis de Mário – assim por ele entendidos – eram fortemente endossados por seus contemporâneos, dado o grau de confiança em sua competência e instinto, podemos evocar a carta de Cecília Meireles à Henriqueta Lisboa de 27 de abril de 1945, cerca de três meses após a morte de Mário, portanto. Nela, Cecília mostra-se profundamente abalada, ainda que jamais houvesse mantido com Mário uma proximidade significativa, nem física, epistolar e tampouco intelectual, já que os dois muito divergiram em seus caminhos literários e ideológicos. O estado de perturbação e vazio em que a perda coloca a escritora permite que se tenha uma boa ideia do tamanho da importância de Mário:

Querida Henriqueta: fez-me bem sua cartinha chegada neste momento: sua cartinha fraternal. Desde o princípio deste mês tenho passado bastante mal, com o tremendo abalo da morte de Mário. V. não imagina que choque! Já tenho passado tantos sofrimentos, e ainda não compreendo que havia de tão secretamente íntimo entre nós dois – pois nem nos freqüentávamos muito – para que sua morte fosse como um desabamento por cima de mim. Passei dias e dias sem poder fazer nada com muita clareza, tonta, desgovernada, sentindo tudo que se pode imaginar. (...) Fiquei como sonâmbula, sem achar sentido em nada, viajando também fora da vida. (...)

Ah! Henriqueta, triste coisa é a vida! Eu sofro pelo que Mário não pode fazer – pelo que nós não poderemos fazer, pelo que ninguém poderá fazer. Ele é uma espécie de símbolo, de centro: é essa precariedade do bom, do belo, do inteligente, do fraternal que me encheu de lágrimas, tanto quanto a perda da pessoa, em si mesma (MEIRELES, 2014, p. 1 e 3, grifos meus).

É como “símbolo” e presença atuante em sua época que Mário é, pois, reconhecido. Saber que ele existia – com sua mão metaforicamente pousada sobre o ombro de todos aqueles que lutavam por um Brasil digno do título de nação (e Cecília era um deles) – e que se encarregava de uma tarefa maior que poucos teriam a coragem e o desprendimento para assumir – era reconforto e estímulo. Sua morte, para Cecília, é também um convite para pensar na finitude da vida, finita também para os gênios e heróis, não só por ser coroada com a morte, mas por impor limitações e falhas a todo e

qualquer projeto que se pretenda realizar, ainda que não lhe falte legitimidade e valor. A meu ver, essa é a compreensão que Cecília faz da trajetória de Mário – legítima e valorosa, porém incompleta, fosse pela prematuridade da morte do escritor, fosse pelas próprias limitações por ele encontradas na realização de seu projeto de modernidade. Trata-se de um reconhecimento da realidade da própria existência, em si doloroso, mas necessário, que só a morte do homem físico é capaz de trazer.

Na subseção seguinte, ainda um ‘outro Mário’ merece comentário.