3.3 2nd-order derivatives in volume analysis
5.4 Further subset reduction
Se a emigração lusa decorreu, em maior escala, como fruto da industrialização retardatária de Portugal somada ao grande número de pessoas em busca de melhores condições de vida, sua contribuição foi essencial para o desenvolvimento do Brasil, a partir de 1808, com a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro.
Foram necessárias melhorias no âmbito social, econômico, político e de infraestrutura, sendo realizadas construções de muitos edifícios públicos, promovendo assim um progresso em vários setores da economia brasileira,
intensificada partir de 1810, com a abertura dos portos, e em 1816, com a chegada da Missão Francesa, o Rio de Janeiro presenciou um avanço urbanístico que representava, através de suas construções, uma cultura europeizada. Caracterizando a influência de diversos fatores na configuração da arquitetura local.
Na Capitania do Grão Pará, no norte do Brasil, cuja localização geográfica conduziu a um distanciamento físico das províncias mais desenvolvidas do sudeste brasileiro, as melhorias tardaram a chegar. De acordo com Sarges (2010), pesquisadores ingleses que vieram para a Amazônia, como Wallace, ao final de 1840, e Bates, por volta de 1850, descreveram a cidade como um lugar sujo, alagado e sem asseio.
Os relatos de Bates e Wallace testemunharam uma cidade com residências coloniais, fruto de técnicas construtivas primitivas, que faziam uso dos materiais disponíveis e que comungavam com a paisagem urbana inerente ao período de colonização brasileira, assim descrito por Reis Filho (1987):
Aproveitando antigas tradições urbanísticas de Portugal, nossas vilas e cidades apresentavam ruas de aspecto uniforme, com residências construídas sobre o alinhamento das vias públicas e paredes laterais sobre os limites dos terrenos [...].
Numa época na qual as ruas, com raras exceções, ainda não tinham calçamento, nem eram conhecidos passeios [...].
A impressão de monotonia era acentuada pela ausência de verde [...]. As técnicas construtivas eram geralmente primitivas. Nos casos mais simples as paredes eram de pau-a-pique, adobe ou taipa de pilão e nas residências mais importantes empregava-se pedra e barro, mais raramente tijolos ou ainda pedra e cal [...].
Era todo um sistema de uso da casa que, como a construção, estava apoiado sobre o trabalho escravo e, por isso mesmo, ligava-se a nível tecnológico bastante primitivo [...]. (REIS FILHO, 1987, p. 22-28).
A capitania do norte da colônia brasileira, fundada em 1616, amargou a exploração de seus recursos naturais e o envio constante de suas riquezas a Portugal, fazendo com que Belém permanecesse estagnada com suas ruas estreitas e solos alagadiços. A ligação comercial entre Belém e Portugal, deu-se por via marítima, mais intensamente com as cidades portuguesas, Lisboa e Porto, do que as demais capitanias.
A historiografia deste período relatou que muitos embates foram realizados com o intuito de não aceitar a independência do Brasil. Essas
manifestações de descontentamento somaram quase duas décadas de lutas no Pará, que culminaram na revolta da Cabanagem, de 1835 a 1840, deixando a cidade em um cenário de completa destruição, após incêndios e confrontos com armas de fogo e canhões.
Decerto, este período afetou diretamente a economia. Ocorreu dizimação de um grande número de habitantes na faixa economicamente ativa e tantos outros fugiram para o interior da Província. De acordo com Derenji (2009), no período posterior não houve muitos avanços nas construções da cidade, mesmo sabendo-se que
Os conflitos trouxeram destruição à área urbana, a propriedades e a engenhos. A falta de profissionais, os distúrbios políticos e a luta armada foram condicionantes para uma fase em que não há notícia de grandes obras religiosas ou civis. (DERENJI, 2009, p. 83).
A cidade de Belém era um local estratégico para o Império Brasileiro, uma vez que em seu porto eram comercializados os bens produzidos no norte do Brasil. Assim sendo, a capital da província precisou ser reestruturada, tendo marcas físicas da revolução da Cabanagem extintas.
De acordo com Cancela (2006), no século XIX, Belém era dividida em três distritos. O primeiro compreendia a freguesia da Sé, abrangendo o bairro da Cidade, onde se encontram residências, comércio, igrejas, e os prédios da administração, localizados em ruas estreitas, sem afastamentos laterais ou frontais, bem típico da colonização portuguesa.
O segundo, era a freguesia de Sant’Ana, envolvendo o bairro da Campina, caracterizado pelas principais ruas de seu comércio e entorno. “Nela concentrava-se boa parte das lojas, armazéns, bancos e casas de aviamento, localizados nos arredores das avenidas João Alfredo, 15º de Novembro, 13 de Maio e boulevard Castilho França” (CANCELA, 2006, p. 110).
O bairro da Campina possuía uma dinâmica diferenciada do bairro da Cidade, pois segundo Cancela (2006), a residência confundia-se com os serviços comerciais prestados no estabelecimento. Em muitos casos os quartos eram alugados, o que levou a pesquisadora a
Pensar a existência desses espaços alternativos de moradia, como os cortiços, conjuntamente com as elegantes lojas de venda de artigos de luxo importados, as principais casas de aviamentos e grandes hotéis revela a dinâmica contraditória do bairro da Campina, entrecruzada por
espaços de trabalho, moradia e circulação de pessoas pobres e da elite local [...] (CANCELA, 2006, p. 112)
O terceiro distrito seria o da freguesia de Trindade e de Nazaré, onde se encontravam as casas de campo das famílias abastadas da capital, conhecidas como rocinhas. Essas construções se assemelhavam aos solares rurais, com afastamentos lateral e frontal, bem diferentes daquelas encontradas no primeiro e segundo distritos.
Os governantes e as camadas mais abastadas, a exemplo de Haussman na França, passaram a promover a urbanização e a higienização nas novas construções, colocando em prática o que estava sendo realizado na Europa, onde largas avenidas foram abertas a fim de dar suporte à remodelação e reconstrução de vários edifícios públicos suntuosos. Foram criados espaços verdes, praças, parques e equipamentos públicos modernos. O bonde e postes com iluminação a gás foram implantados, proporcionando à burguesia oitocentista mais fluidez e conforto nas vias públicas, interferindo de forma progressiva, na dinâmica da sociedade emergente.
O inglês Henry Bates, quando retornou à Belém, haja vista o período de um pouco mais de dez anos percorrendo o Pará, surpreendeu-se com a remodelação da paisagem urbana da capital paraense:
Achei o Pará muito modificado e melhorado. Não era mais aquele lugar com aspectos de aldeia cheia de mato, ameaçando ruína, que eu vira quando a conheci em 1848 (...).
A população aumentara (para 20.000) pela imigração de portugueses, madeirenses e alemães, e durante muitos anos o considerável saldo de seu orçamento tinha sido gasto pelo governo para embelezar a cidade. (SARGES, 2010, p. 82).
Ademais, de 1840 até a segunda década do século seguinte, não fora somente a paisagem urbana que mudara, Belém viveu um momento econômico que se fomentou pela extração da borracha.
A partir do processo de vulcanização da borracha11, desenvolvido em 1840 por Charles Goodyear e intensificado com a navegação a vapor, em 1853, ocorreu abertura dos rios amazônicos para o transporte de cargas e de passageiros, tanto para o interior da região Norte, quanto para a ligação do Norte
11 Técnica que torna a goma elástica mais resistente ao calor e ao frio (CANCELA,
do país a grandes centros da Europa e dos Estados Unidos. Tal fato facilitou a comercialização e a exportação da borracha, que alcançara alto valor no mercado internacional, através dos rios da Amazônia.
Juntou-se ao período áureo da extração da borracha, os governos que promoveram, por meio de leis, novos costumes e modos de se relacionar na sociedade e na cidade, evidenciando contrastes sociais do capitalismo burguês que se instalou na metrópole da Amazônia, “o paradoxo do progresso, da modernidade, na qual convivem a miséria, a prostituição e toda uma gama enorme de desgraças sociais com o fausto e o luxo de uma burguesia que consumia, fundamentalmente, o importado.” (SARGES, 2010, p. 157)
A sociedade do início do século XIX, composta de “proprietários de terras escravagista, militares e altos funcionários da burocracia portuguesa” (SARGES, 2010, p. 108) seria aos poucos substituída, cedendo espaço a uma reorganização da sociedade pautada em interesses sociais e respaldados por alianças comerciais e matrimoniais. O enriquecimento era às custas do látex extraído dos seringais amazônicos e do abuso da mão de obra nordestina, que ficava sempre endividada com o patrão pois “comprava os suprimentos necessários a preço altíssimo no armazém mantido pelo seringalista [...] não conseguindo mais escapar da exploração” (SARGES, 2010, p. 103).
De acordo com Derenji (2009), Sarges (2010) e Cancela (2006), a nova classe emergente e endinheirada com o capital gomífero buscou o luxo e sofisticação, refletindo nos costumes, nas moradias, em uma modernização da cidade, com equipamentos urbanos que propiciassem mais conforto, como iluminação pública, distribuição de água canalizada, sistema de transporte, favorecendo as classes mais abastadas em detrimento das menos favorecidas. Constatamos, desta forma, várias experiências de vivenciar a cidade.
A economia da borracha determinou alterações acentuadas na estrutura social belenense. Surge, então, uma classe de homens políticos e burocratas formada por nacionais; os comerciantes, basicamente portugueses; os profissionais liberais, geralmente de famílias ricas e oriundos das universidades europeias. Esta era a composição da elite dominante.
Por outro lado, com as construções de obras públicas, surgiu uma nova força de trabalho propriamente urbana, que vai se juntar a outros ofícios urbanos, como alfaiates, sapateiros, relojoeiros, marceneiros e outros. A composição desses grupos expressava a camada pobre da população. (SARGES, 2010, p. 125).
Segundo a autora “[n]a dinâmica da cidade de Belém, foram projetados, além do Porto de Belém, o Mercado Municipal do Ver-o-Peso (1901), o Hospital D. Luiz e o Grêmio Literário (obras da colônia portuguesa) [...]” (SARGES, 2010, p. 152). O espaço urbano sofreu modificações estruturais, criaram-se espaços físicos, como os teatros e cafés, hospitais, mercados públicos, lojas especializadas em artigos importados e palacetes, transformando a arquitetura como materialização do poder da classe em ascensão.
Contudo, as alterações não se deram apenas no âmbito físico, provocando profundas mudanças de cunho social, assegurando à classe abastada uma vivência nos moldes europeus, tendo Paris como referência de modernidade, de progresso e de civilização, fazendo com que se negassem hábitos pitorescos e enraizados do cotidiano belenense.
8.3 Firmação da Sociedade Beneficente Portuguesa na elite social.