3 State of the art – Technical Solutions
3.3 Subsea Technology
Apesar de apresentadas isoladamente, é muito provável que as dimensões situacionais ocorram em paralelo, à medida que a informação relevante seja disponibilizada instantaneamente. Sensível a essas dimensões, o compreendedor as utiliza para auxiliar no processo de compreensão da narrativa e construir os modelos de situação. Para isso, é preciso que o compreendedor acompanhe mentalmente os eventos descritos na narrativa e mantenha o controle dos movimentos espaciais do protagonista.
Para situar o assunto, discorreremos, a seguir, sobre cada uma das dimensões situacionais mencionadas anteriormente.
a) Espaço
Assim como cotidianamente direcionamos nosso ambiente físico para organização espacial, da mesma forma, os leitores também o fazem quando configuram um layout espacial do evento descrito na narrativa. O espaço da história é preenchido pela imaginação do leitor a partir de conhecimento cultural e experiência no mundo real, de forma que, pela imaginação, o leitor concebe no mundo da história uma entidade coerente, que completa materialmente a existência geográfica, mesmo quando se trata de um mundo ficcional, que no universo narrativo é apresentado como real.
Ao assumir esse posicionamento, é possível imaginar situações que são consideradas irrealizáveis como realizáveis, construídas por personagens com crenças, desejos, medos, especulações, pensamentos hipotéticos, sonhos e fantasias, possibilitando, assim, os modelos de situação.
Diante da situação posta, citamos Therriault e Rinck (2008), quando postulam que a maioria das evidências detectadas em pesquisas documenta que a existência de modelos de situação é baseada em experiências, mostrando que as decisões de um leitor sobre um objeto em um layout espacial são compreendidas mais rapidamente quanto mais próximo o objeto esteja do protagonista atualmente em foco no texto.
Para Zwaan e Radvansky (1998), algumas das pesquisas sobre modelos de situação estão centradas na capacidade de as pessoas construírem representações espaciais, e como estas são afetadas pela maneira como foram apresentadas. Citam como exemplo que, para as pessoas
criarem uma representação mental de uma referida localização, precisam de um espaço na base cognitiva com uma descrição semelhante à do texto.
Os autores também afirmam que a maneira pela qual um espaço é descrito a uma pessoa pode variar dependendo da perspectiva que lhe é fornecida. Eles presumem que duas perspectivas se destacam comumente: a de percurso e a de pesquisa. A perspectiva de percurso descreve o movimento como se uma pessoa estivesse realmente “viajando” no espaço. Tais descrições muitas vezes contêm termos espaciais como para a direita, à frente, e assim por diante. Em contraste, a perspectiva de pesquisa assemelha-se ao olho de um pássaro visualizando o local, como se estivesse vendo um mapa. Tais descrições muitas vezes contêm termos espaciais como para o leste ou para perto da fronteira.
Isso sugere que a interpretação dos compreendedores sobre o significado de um termo que denote movimento de pessoas ou objetos no espaço depende dos modelos de situação construídos por ele.
b) Causalidade
Interagimos constantemente com o ambiente e por isso somos motivados a interpretar sequências de eventos que se relacionam e estabelecem relação direta de causa e efeito. Essa relação se constitui como meio pelo qual compreendemos as sequências causais que nos ladeiam.
Muito se tem questionado acerca do processo de compreensão dos leitores de como controlam as informações durante a compreensão causal de narrativas e textos expositivos. Existem evidências de que os leitores rotineiramente acompanham as informações causais. Estas relações causais podem ser indicadas explicitamente no texto, por conectivos causais, ou ser inferidas pelos leitores usando o conhecimento sobre os acontecimentos. Zwaan e Radvansky (1998) exemplificam da seguinte forma: "Cathy derramou água na fogueira, o fogo apagou". Os leitores geram a inferência de que a água causou o apagamento da fogueira. Essa inferência se dá com base no conhecimento de que a água apaga o fogo.
A partir do exemplo citado, percebemos que o reconhecimento da causalidade dá-se no momento em que lemos sobre o evento e o interpretamos usando informações ativadas pela sentença anterior, a partir do efeito priming,21 isto é, o evento antecedente tem influência sobre o entendimento e a representação mental do evento posterior (SALLES, JOU, STEIN, 2007).
21
c) Tempo
No nosso cotidiano, assumimos por padrão que os eventos são narrados em ordem cronológica, repercutindo em uma compreensão dos acontecimentos como sendo pontuais. Presumivelmente, essa hipótese existe porque é assim que os experimentamos. Os eventos nos ocorrem em um fluxo contínuo, às vezes em rápida sucessão, às vezes em paralelo, e muitas vezes se sobrepõem parcialmente. No entanto, o texto narrativo permite-nos desviar da ordem cronológica e omitir algumas situações descontínuas de eventos, sendo comum essas lacunas temporais serem sinalizadas nas narrativas por expressões como poucos dias depois, meses depois, construtoras de espaços mentais que apresentam um afastamento das experiências cotidianas. Contudo, a inversão de ordem cronológica gera dificuldade no processamento cognitivo e as mudanças de tempo levam à interrupção no processo de compreensão. Sentenças escritas com antes de têm maior negatividade do que sentenças escritas com depois de, visto que o tempo de processamento tende a ser mais longo (ZWANN, 1999).
Miller e Johnson-Laird (1976) e Quine (1960), citados por Zwaan e Radvansky (1998), esclarecem que a narrativa contém informações sobre o tempo absoluto ou relativo em que o evento descrito na sentença ocorreu. Para conseguir uma compreensão adequada da situação descrita em um texto, o compreendedor precisa saber quando os eventos descritos ocorreram, tanto em relação a outro evento, como em relação ao tempo em que foram narrados, ou seja, identificar relações temporais entre eventos e entre o evento e o tempo de narração.
Assim, no processo de compreensão de texto, os compreendedores fazem uso de informações temporais, dos marcadores temporais – forma de tornarem as relações temporais explícitas, possibilitando, assim, a criação de uma referência da situação descrita – para a construção de modelos de situação.
d) Intencionalidade
Dentro das configurações dadas à compreensão de narrativa, pesquisadores têm argumentado que esta gira em torno do controle dos objetivos e planos dos protagonistas mantidos pelo compreendedor (GRAESSER, 1981; LICHTENSTEIN e BREWER, 1980; SCHANK e ABELSON, 1977). Uma razão para isso é que muitas ações, estados e eventos descritos em narrativas estão relacionados aos objetivos pessoais, aos temas de vida traçados pelos personagens e que, para serem atingidos, geram suas metas e planos.
Essa constatação dá-se pelo fato de que o comportamento humano direciona os objetivos e, como as narrativas descrevem comportamentos humanos, os leitores podem usar
procedimentos cognitivos para explicar tal comportamento. Então, assim como as pessoas têm os temas e as situações de vida que geram objetivos a serem atingidos – os quais, por sua vez, geram planos de ação – da mesma forma os personagens os têm na narrativa.
Zwaan e Radvansky (1998) esclarecem essa compreensão com o exemplo a seguir: se alguém treina duro para uma maratona (um plano), pode ser para ganhar a maratona (um objetivo que gerou o plano) ou para se tornar um famoso atleta (um tema que gerou o objetivo). Com essa exemplicação, podemos ver que há evidências sugerindo que os leitores mantêm o controle de informações motivacionais durante a compreensão da narrativa. Os objetivos a serem alcançados são monitorados de forma que os objetivos não alcançados permanecem ativos na mente até que sejam atingidos, ao contrário dos já satisfeitos, que perdem relevância. A hierarquia quanto à acessibilidade do objetivo no plano de ação é um mecanismo muito importante para a estruturação organizacional dos eventos narrados, seja alcançado ou não.
e) Protagonista/Objeto
Na composição e estruturação narrativa não há deslanche ou criação de eventos sem que situemos os fatos num personagem ou objeto. Sendo assim, em uma revisão acerca de modelo de situação, Zwaan e Radvansky (1998) destacam a importância do protagonista e dos objetos durante a construção do modelo de situação na narrativa e afirmam que, para construir modelos de situação mais completos, compreendedores são rápidos quando fazem inferências sobre os personagens ou objetos.
Essa discussão existe quando se considera que os personagens podem ser o núcleo em torno do qual os modelos de situação são construídos, visto que os leitores monitoram a identidade e características de um protagonista. Em linhas gerais, para compreensão da narrativa, usamos conhecimentos prévios, os quais constituem traços consistentes concebidos acerca do protagonista, para integrar as informações.
Assim, quanto mais próximos e consistentes forem os traços atribuídos ao protagonista/objeto, mais rapidamente são processadas as informações pelo compreendedor. Albrecht e O'Brien (apud ZWAAN e RADVANSKY, 1998) sustentam que leitores são mais lentos ao lerem uma descrição de ações que são inconsistentes com um traço do protagonista. Num exemplo dado pelos autores, “um hambúrguer vegetariano”, percebe-se um traço que fornece evidência de que os leitores são sensíveis a esta inconsistência e que devem, portanto, ter armazenados traços do objeto na memória. A incompatibilidade ou um traço inconsistente
às atribuições estereotipadas ao alimento, percebido pelo leitor, faz com que o processamento seja mais lento.
É nessa linha teórica que concebemos que a leitura de sentenças em que conste uma característica inconsistente, quando elevada em comparação com a condição de controle, sugere que os leitores tenham incorporado traços estereotipados em seu modelo de situação e que por isso detectem a inconsistência.
Retomando o exemplo (13), “Os Cavaleiros da Távola Redonda’ por meio do guia linguístico “tabula redonda”, constatamos que o compreendedor aciona conhecimentos prévios da lenda medieval constatamos que os leitores acompanham não somente os protagonistas em si, mas também as informações associadas com eles e que, semelhante à vida real, o compreendedor faz inferências sobre os estados emocionais e imagina-se nas mesmas circunstâncias dos protagonistas da história e compreende o sentimento ou reação destes, o que esclarece os procedimentos utilizados pelo compreendedor no processo de construção dos modelos de situação por meio da simulação mental.
Nesse processo, a representação mental e a compreensão que fazemos decorrem de impressões e experiências sensório-motoras que temos armazenadas na memória, com as quais somos capazes de simular eventos e criar os modelos de situação. Dessa forma, percebemos que a construção de sentido e a compreensão narrativa fundamentam-se na simulação que fazemos por meio de nossas percepções e concebemos que compreender é simular (BARSALOU,1999). De acordo com o que expomos, acreditamos que é importante discorrer sobre simulação, já que também é um processamento mental bem ligado ao tema modelos de situação. Vejamos o subitem a seguir.