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No Brasil, diversos jornais regionais apresentam regularmente, apesar da pouca freqüência, notícias sobre arqueologia nacional e internacional. Não se trata de jornalismo somente impresso, mas também de algumas edições do Globo repórter (programa televisivo de sexta-feira no horário nobre e alcance nacional) e desenhos infantis durante o dia (Jackie Chan tem feito muito sucesso). Esses programas apresentam relíquias, profissionais e aventureiros que carregam consigo o poder do saber, o poder de conhecer os cálculos certos e as imagens apropriadas para relevar os mistérios do passado.

Vários profissionais da nossa área também se interessam por esse fenômeno comunicativo de apreciação da estética da revelação através da escavação. Inglaterra, Alemanha, Suécia e EUA, são apenas alguns exemplos de lugares onde programas de TV, propagandas em outdoors e filmes trazem, e trouxeram desde o início das atividades comunicativas massivas (Clack & Brittain 2007), a arqueologia ao alcance do cotidiano da gente comum (Holtorf 2007a, Faulkner 2004), dos “desempoderados”, aqueles que nunca foram detentores dos métodos de reprodução oficial de sua história.

Apesar de acompanharmos essa apresentação, a nosso ver, um tanto crua da arqueologia, e nos sentirmos no direito de exigir mais respeito às nossas atividades e às comunidades com as quais nos relacionamos (Pyburn 2008), talvez possamos olhar a presença da arqueologia na mídia com outros olhos. De uma perspectiva mais crítica, a mídia pode nos apresentar uma faceta diferente da que costumamos ver de nossa própria profissão, permitindo uma reflexão sem parcimônia (Taylor 2007). Pode também vir a ser, como

63 apontamos acima, uma possibilidade de compartilhamento de conhecimento e mesmo construção de um novo conhecimento. Talvez até uma maneira de abordarmos o público não arqueológico, um link entre nós e eles, muito mais efetivo (porque afetivo) do que partir do zero (Holtorf 2007a).

Todas estas propostas são interessantes e direcionam a interpretação da mídia como parte da expressão pública do fenômeno arqueológico. A meu ver, estas propostas são modos de reflexões consigo mesmo (auto-avaliação) e com grupos sociais e profissionais diferentes de nós, mas que nem por isso deixam de apreciar monumentos, paisagens, ruínas, relíquias... Mais importante do que isso, é o exercício de sairmos de nossas preocupações e observarmos o que os outros apreciam na cultura material, ou mesmo o que consideram como vestígios físicos do homem, vestígios físicos da natureza, ou imagens indistintas da vida. Afinal, a “ubiqüidade da arqueologia televisiva (...) é uma medida da popularidade do assunto” (Faulkner 2004, p. 1-2).

Finalmente, a presença constante da arqueologia nos meios de comunicação de massa é um alerta importante para o fato de que os fins em nosso trabalho não são apenas de apreciação acadêmica. O que falamos e produzimos deixa nosso breve nicho e circula fora de nosso controle direto, sujeito às mais diversas interpretações. A imagem de arqueólogos, arqueólogas e como nossos discursos são interpretados pela mídia é também um motivo de preocupação social, cerne da arqueologia pública.

Como já assinalei em capítulo anterior, a relação entre uma disciplina engendrada nas “Ciências Humanas” com as “Humanas” fora das “Ciências” é uma necessidade que tem sido levada a cabo desde a década de 1960, com uma série de movimentos sociais que atingiram um estágio global e pediram uma reorganização do espaço de realizações e da posse do conhecimento.

Retomando Nick Merriman (2004a), para compreender o público é preciso antes entender como o público compreende ciência (Merriman, 2004a, p. 8). Podemos advogar à arqueologia pública, o papel de reflexão sobre o que tem sido produzido do arqueológico fora do meio disciplinar. “O significado da

64 arqueologia na cultura popular é um tópico que nasceu daquele mesmo processo de abertura da disciplina arqueológica, manifestando uma tendência rumo a uma verdadeira arqueologia pública” (Holtorf 2007a, p. 2). Como temos feito a leitura até o momento, o princípio da arqueologia pública é participar da cena conflituosa em que o arqueólogo encontra-se durante seu trabalho. Procurar entender as dissonâncias e diversidades de modos de compreensão do passado.

A obra editada por Timothy Clack e Marcus Brittain, Archaeology and the media (Arqueologia e a mídia) de 2007, bem como a edição de Julie Schablitsky, Box office archaeology (Arqueologia em Bilheteria) do mesmo ano, trazem diversos trabalhos sobre essa peculiar mediação entre arqueologia e seu público não arqueológico. Talvez um dos autores mais polêmicos e centrais nessa discussão seja Cornelius Holtorf, cuja produção conta não somente com artigos publicados em revistas e livros, como conta com duas obras de sua autoria: From Stonehenge to Las Vegas: archaeology as popular culture (De Stonehenge à Las Vegas: arqueologia como cultura popular), de 2005, e Archaeology is a brand! (Arqueologia é uma marca!), de 2007. Assim, pretendo fazer uma pequena revisão crítica da relação entre arqueologia e mídia a partir de algumas das leituras proporcionadas por esses autores.

Antes de continuar com a discussão, dois breves apontamentos. Primeiramente, quando digo “relação entre mídia e arqueologia” me refiro à dois aspectos que são tratados nessa literatura especializada: 1) as avaliações das imagens construídas do fenômeno arqueológico nos veículos de mídia; 2) uma avaliação de como a arqueologia promove e pode contribuir com a compreensão popular do passado através da mídia. Em segundo lugar, essa “revisão crítica” que menciono no parágrafo anterior não consiste em uma completa “revisão bibliográfica” do tema, mas sim numa observação sobre o tratamento oferecido por alguns autores (a seleção foi necessária, levando em conta o que me pareceu mais relevante) tema da arqueologia pública como cultura popular e como nossa disciplina se posiciona frente ao público não- arqueológico através da mídia.

65 Acredito que há dois comentários de Cornelius Holtorf que definem de maneira precisa a afinidade desse tema dentro da perspectiva pública da arqueologia. Baseada em visão de outros autores (cf. Holtorf 2005), ele diz que “Cultura popular refere a como as pessoas escolhem viver suas vidas, como elas percebem e moldam seus ambientes locais e suas ações, e o que elas crêem atrativo ou interessante” (Holtorf 2005, p. 8). Igualmente, assume que sua obra não pretende construir uma ponte entre o presente e o passado, mas a perspectiva profissional/acadêmica da arqueologia com aquela apreciação popular sobre o passado, ambos no presente (Holtorf 2005). Em nosso cotidiano capitalista e consumista, a arqueologia torna-se igualmente produto de consumo, uma “marca” (brand) de etiqueta.

Talvez isso possa explicar, pelo menos em parte, porque o “produto” arqueologia desfruta de tamanha popularidade. Ela oferece e é esperada a oferta, experiências válidas para muitos. Visitar um museu arqueológico ou sítio de escavação pode ser sobre arte antiga e educação sobre o passado, sobre reconstruções geralmente idílicas da vida cotidiana no passado e reassegurar a existência de um lar, ou pode tratar de tecnologia computacional moderna e buscas por tesouros no espírito de Indiana Jones que é provavelmente o melhor conhecido arqueólogo no mundo hoje (Bahn 1989:59). Em cada caso, é uma experiência particular no presente que conta no interesse das pessoas pelo passado (Holtorf 2007a, p. 4) Acredito que a importância de considerarmos os estudos da arqueologia na mídia condiz não somente com nossa curiosidade pelas peripécias dessa engenharia comunicativa, mas também na busca desses interesses no presente que são direcionados aos vestígios do passado.

Certamente, vale a pena destacar a relevância dessa perspectiva dentro deste trabalho. Em minha monografia de conclusão do curso de graduação, trabalhei com a leitura de alguns artigos da revista Mergulho, um periódico de extenso alcance nacional sobre mergulho recreativo. Os artigos escolhidos para análise foram aqueles que falavam de vestígios humanos submersos. Meu propósito com essa leitura foi tentar aproximar-me dos interesses dos mergulhadores recreativos pelo patrimônio submerso. Como me pareceu uma questão central neste trabalho (inclusive foi meu ponto de partida para o mestrado), decidi retomar algumas leituras e apontamentos. Para tanto,

66 acredito que as novas leituras sobre arqueologia e suas expressões na mídia me possibilitarão uma análise mais interessante.

Primeiramente, a pergunta: O que é mídia? Em busca de raízes etimológicas, deparei-me com algo mais próximo da mediação:

Medium, i – 1) a parte do meio, centro; 2) o espaço interior ou

intermitente, meio32; 3) o meio (como um local visível), o aberto, vista, publico, in medium proferre ou in medio ponere tornar público, de medio partindo da cena; 4) in medio disponível a todos, ao alcance, in medium reserva comum33; 5) O meio de um período de tempo, medio temporis, no meio tempo; 6) Um estágio ou curso intermitente, algo que age entre duas coisas, um intermediário, um meio34. (GLARE 2006).

Timothy Clack e Marcus Brittain trazem um significado mais contemporâneo, ao qual podemos agregar sua acepção latina.

Mídia, em sua forma mais básica, são os meios de comunicação, ou uma agência pela qual aquela comunicação é transmitida, transferida ou conduzida35. “A mídia” pode ser vista como uma entidade em si mesma, um corpo de jornalismo com valores de transmissão que intersectam mercados e comercio, perfis de audiências, fronteiras do espaço discursivo, e conhecimento disciplinar. Pode ser igualmente compreendido como um processo de tradução ou engajamento incorporado na materialidade da forma midiática. Mídias diferentes transmitem36 diferentes mensagens de maneiras variadas, tendo tanto impacto sobre os contextos de interpretação quanto enquadrando e reenquadrando os contextos de consumo (Clack & Brittain 2007, p. 12).

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No original, midst. cuja definição dada pelo Dictionary.com seria: 1. the position of anything surrounded by other things or parts, or occurring in the middle of a period of time, course of action, etc./2. the middle point, part, or stage (Dictionary.com 2010).

33 No original, the common stock.

34 No original, medilm, que pode também carregar o sentido de médium.

35 No original, conveyed. Cuja definição dada pelo Dictionary.com seria: 1. to carry, bring, or take from one place to another; transport; bear/2. to communicate; impart; make known/3. to lead or conduct, as a channel or medium; transmit/3. to lead or conduct, as a channel or medium; transmit (Dictionary.com 2010).

67 Desses trechos, acredito que podemos ver quatro etapas sobre a discussão midiática contemporânea e suas conseqüências sobre a arqueologia. Primeiro, uma maneira prática de lidar com a mídia como “tudo o que comunica”

(Tega 2010)37. De fato, isso nos permite o alcance necessário trabalhar com a

construção da imagem arqueológica em diversos meios comunicativos: filmes, fotos, revistas, livros, TV, outdoors, propagandas... Enfim. Aproveitar da amplitude veicular do conceito “mídia” para visitarmos diversos campos onde o discurso arqueológico e do público se encontram.

Em segundo lugar, ser e estar na mídia significa tomar a posição de um intermediário entre partes conectadas pelo enunciado midiático. No caso, o jornalismo pode mediar a arqueologia com o público não arqueológico. Mas também, a arqueologia, ao se apoderar dos veículos midiáticos, pode se tornar o mediador entre o passado e o presente, entre o sítio e o público, entre o território e o Governo. Um oficial dos estudos acadêmicos que in medio ponet.

Em terceiro lugar, a “vida própria” com que Clack e Brittain definem mídia, permite-nos diferenciar as livres exposições dos fazeres e saberes arqueológicos do público das tentativas dos arqueólogos de usar algumas mídias (internet e livros de grande tiragem e circulação) para comunicarem-se com o público não-acadêmico (as quais apresentarei no próximo item). Ainda, posso acrescentar, podemos observar a comunicação entre diferentes indivíduos do público não-arqueológico para tentar perceber quais são suas impressões sobre o fenômeno arqueológico.

O que me leva ao último ponto, que é tomarmos parte de uma discussão que vejo indissociável desse encontro entre o acadêmico e o leigo, é a cultura de massa. Ou seja, encarar a mídia “como uma entidade em si mesma, um corpo de jornalismo com valores de transmissão que intersectam mercados e comércio, perfis de audiências, fronteiras do espaço discursivo, e conhecimento disciplinar” (Clack & Brittain 2007, p. 12). A industrialização da comunicação, controlada por conglomerados empresariais, e as mazelas da

37 Entrevista concedida por Glória Tega a Bruno S. R. da Silva via Skype. Belo Horizonte-São Paulo, agosto 2010.

68 massificação cultural. São exatamente esses pontos que os arqueólogos mais atacam. Nas palavras de Anne Pyburn,

Então arqueologia pública e sua versão local – arqueologia comunitária – acontecem nesse contexto de uma curta hype38, e arqueólogos muitas vezes tentam usar esse ângulo para engajar as pessoas em seu trabalho. É claro que arqueólogos não acham bonito murais do segundo século como os de San Bartolo, então se torna necessário inflar a significância de dados mais ordinários para ir ao encontro dos parâmetros de Indiana Jones (Pyburn 2008, p. 203).

Ao mesmo tempo, a própria autora afirma que

Mas se o público não está interessado, então o que estamos fazendo? Qual é exatamente o propósito de escavar os vestígios materiais do passado, agora que sabemos que não vamos mais coletar a verdade que irá nos libertar, nem irão nossos esforços acrescentar muito para o “bem de toda a humanidade”? (Pyburn 2008, p. 202).

Justamente esse é o ponto dialético em que se encontra o arqueólogo na discussão sugerida nesse trabalho. Onde ficar e onde expressar-se entre o apocalipse da norma disciplinar e a submissão aos veículos de massa. Na tentativa de me socorrer em autorias fora do meio arqueológico, procurei uma das imagens mais interessantes, a meu ver, do campo comunicativo, justamente por circular igualmente pelos corredores da Universidade mais antiga do mundo e pelas prateleiras de Best Sellers a cada publicação de um romance: Umberto Eco.

Apologias a parte, seus comentários sobre a cultura de massa na obra Apocalipticos e Integrados (Eco 2001) vem a calhar nesse impasse ético em que nos encontramos.

Por um lado, a cultura de massa é acusada de configurar uma estrutura capitalista de mau gosto, produtora de soluções simples que inibem a

38 No original seria hype, cuja definição segundo o Dictionary.com: 1. to stimulate, excite, or agitate/2. to create interest in by flamboyant or dramatic methods/3. to intensify (advertising, promotion, or publicity) by ingenious or questionable claims, methods, etc./4. to trick; gull. Optei por deixar o vocábulo original por ser usado em diversos meios em território nacional (seu surgimento, inclusive, de maneira hype).

69 criatividade, reproduzem aquilo que já conhecemos através de fórmulas já conhecidas que se adéquam facilmente às necessidades de difusão do mercado, ao mesmo tempo em que impõe “símbolos e mitos de fácil universalidade” e muitas vezes “sugere o que este [o espectador] deve desejar” (Eco 2001, p. 41). Em outras palavras, morte à Indiana Jones, Lara Croft, Jacky Chan, Múmia e todas as entidades arqueológicas espalhadas pelo planeta!

Por outro lado, Eco nos lembra que a massificação da cultura não é tão própria do capitalismo, mas sim “nasce inevitavelmente em qualquer sociedade do tipo industrial” (Eco 2001, p. 44). Inclusive, parece ser muito mais emergente em regimes ditos democráticos populares:

A cultura de massa é própria de uma democracia popular como a China de Mao, onde as grandes polêmicas políticas se desenvolvem por meio de cartazes de histórias de quadrinhos; toda cultura artística da União Soviética é uma típica cultura de massa, com todos os defeitos de uma cultura de massa, entre os quais o conservantismo estético, o nivelamento do gasto pela média, a recusa das propostas estilísticas que não correspondem ao que o público já espera, a estrutura paternalista da comunicação de valores (Eco 2001, p. 44). Não sendo apenas um fenômeno capitalista, a mídia massificada é um fenômeno consumista, tampouco atribuível apenas ao regime do capital, se pensarmos que “desde que o mundo é mundo, as multidões amaram os circenses (...)” (Eco 2001, p. 45), com a diferença de possuir hoje um panorama macroscópico realmente nunca visto antes. Indo mais além, é cabível lembrarmos que esse fenômeno em gigantescas proporções ter sido realizado também como uma faceta democrática, seja pela homogeneização do gosto, eliminando uma das barreiras entre castas, seja através mídia macerada pela indústria cultural (Eco 2001). Finalmente, é de uma consciência pobre acreditar que todas as informações que cheguem à audiência sejam interpretadas da mesma maneira planificada com que são pretensiosamente dispostas em seu momento de codificação.

Os mass media oferecem um acervo de informações e dados acerca do universo sem sugerir critérios de discriminação; mas, indiscutivelmente, sensibilizam o homem contemporâneo face ao mundo; e na realidade, as massas submetidas a esse tipo de informação parecem bem mais sensíveis e participantes, no

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bem e no mal, da vida associada, do que as massas da antiguidade, propensas a reverências tradicionais face a sistemas de valores estáveis e indiscutíveis. Se esta é a época das grandes loucuras totalitárias, também não é a época das grandes mutações sociais e dos renascimentos nacionais dos povos subdesenvolvidos? Sinal, portanto, de que os grandes canais de comunicação difundem informações indiscriminadas, mas provocam subversões culturais de algum relevo39 (Eco 2001, p. 48).

Desconfio seriamente que a mass media ofereça um acervo de dados “sem sugerir critérios de discriminação”. Não vejo como se pode criar um discurso das normas de consumo através da transmissão, sem sugerir critérios de discriminação. Aliás, vejo como essa mesma a razão do despertar das sensibilidades no público, que se sente tocado ou não pelas imagens transmitidas pela mídia. De qualquer maneira, os apontamentos de Umberto Eco servem para me munir de algumas idéias com as quais é possível passar “pelo bem e pelo mal” de maneira ressabiada para ambos. Além de, certamente, apontar para a condição da mídia de massa como resultado igualmente importante de uma época de “grandes mutações sociais” e de “subversões culturais” (Eco 2001).

A relação entre arqueologia e a mídia não é recente, vindo desde os anos 1840, com um grande boom entre 1920’s e 1950’s (em especial devido a desenvolvimento de mídias elétricas) e rompimento entre 1960s e 1980’s (Kulik 2005 apud Clack & Brittain 2007). Inclusive, nos anos 1950 Mortimer Wheeler e Glyn Daniel foram eleitos personalidades televisivas por dois anos seguidos (1954 e 1955) por seu programa Animal, Vegetable, Mineral? (Animal, Vegetal, Mineral?) (Holtorf 2007a). Entre os anos 1946-55, a revista americana Life, que atingiu em apenas um quarto do ano de 1953 cerca de 73 milhões de leitores nos EUA, listou 34 artigos sobre arqueologia (Ascher 1960, p. 402). O retorno das relações, posterior à 1980, é justamente o período de uma reviravolta na tendência arqueológica mundial, com pós-processualismo (Clack & Brittain 2007).

39 Assistam a alguns episódios de Holse:MD, seriado americano, e vejam sua alegre reação aos pacientes que se auto-diagnosticam através da internet.

71 De acordo com os Timothy Clack e Marcus Brittain (Clack & Brittain 2007), a desconfiança que a arqueologia apresenta em relação à mídia vem de tempos mais distantes, desde a década de 1930, quando intelectuais como Huxley, Horkheimer, Adorno começaram a questionar a validade dos avanços tecnológicos, vistos mais como uma força ideológica de massa para a domesticação social. Traduzindo o termo mass media por “indústria cultural”, assinalavam seu propósito de produção de entretenimento fútil em larga escala para silenciar as massas. Hoje, acredito que a comunicação indiscriminada e industrial gera outra tendência que é o ceticismo coletivo e a insensibilidade frente aos desastres sociais.

Antes do ceticismo público, talvez uma das maiores preocupações dos arqueólogos é como a presença da mídia pode irromper problemas éticos dentro da disciplina. Ainda dentro do texto de Clack e Brittain, os autores apresentam uma proximidade entre a arqueologia e o jornalismo. Ambas profissões possuem apreço (mesmo que teórico) pela análise crítica das informações a serem postas em jogo e um respeito mínimo pelo que liberam dessas informações ao público. Embora nos alerte Glória Tega sobre situação do jornalismo brasileiro atual.

Mas vejo que, no geral, os jornalistas não sabem o que é arqueologia. Nesse meio em que venho trabalhando, tenho feito muito contato entre cientistas e jornalistas, e os últimos não sabem o que é arqueologia, não sabem o que é uma escavação, não sabem que podemos contar uma história diferente através de objetos. Eles tem na cabeça a idéia de que transmitem fatos reais. Para mim isso já é o grande problema de tudo, pois se acreditam nisso a situação fica bem mais complicada.

(...)

Do jeito que o jornalismo funciona hoje no Brasil, não há tempo para que os profissionais corram atrás dessas coisas específicas, não tem tempo de fazer cursos. Quem está no mercado, com jornalismo diário, em revistas, não se atualiza nem faz cursos, pois não tem tempo. Apesar de achar que isso não justifica a falta de diálogo (Tega 2010)40.

40 Entrevista concedida por Glória Tega a Bruno S. R. da Silva via Skype. Belo Horizonte-São Paulo, agosto 2010

72 Eis uma das críticas mais ferozes que a arqueologia atira sobre o jornalismo: a compreensão errada da mensagem pelo desconhecido e,