A partir dos resultados obtidos por meio da análise semântica dos tweets, o próximo passo deste trabalho é refletir sobre as possíveis relações dos significados atribuídos cotidianamente a discutir e discutere com aspectos culturais brasileiros e italianos. Dessa forma, o interesse desta etapa é partir da análise linguística para refletir sobre o possível componente cultural das unidades lexicais em questão.
Levando em consideração que a língua de um povo pode revelar traços de sua cultura, os significados que brasileiros e italianos atribuem aos verbos discutir e discutere poderiam oferecer “dicas” sobre a atitude e os sentimentos que pessoas pertencentes a essas duas culturas apresentam frente a uma discussão? A fim de refletir sobre essa questão, foram aplicados questionários criados a partir de um modelo chamado árvore de decisão.
A chamada árvore de decisão78 (Goodwin e Wright, 2004, p. 143) é usada neste estudo com o objetivo de modelar o processo decisório de entrar ou não em uma discussão e, desse modo, extrair informações que auxiliem na compreensão da escolha de brasileiros e italianos e os sentimentos envolvidos em situações de discussão.
Em uma árvore de decisão, o processo decisório é representado por um diagrama, no qual:
quadrados representam tomadas de decisão;
círculos representam eventos incertos;
retas representam diferentes possibilidades e escolhas.
78 O modelo é também chamado de árvore de decisão baseada em valor monetário esperado (GOODWIN e
114 Com o objetivo de ilustrar o modelo citado, segue abaixo a representação de uma situação na qual um indivíduo deve escolher entre participar ou não de um desafio. Se resolver participar, o indivíduo deve pagar R$ 1,00 e escolher uma face de uma moeda que será lançada ao ar de maneira aleatória. Caso a face resultante do lançamento seja a face escolhida pelo desafiado, este ganha um prêmio de R$ 100,00. Caso contrário, o indivíduo perde o valor apostado inicialmente. A pergunta que se quer responder com a técnica da árvore de decisão é: vale a pena participar do desafio?
Intuitivamente, parece um bom negócio ao apostador. Assumindo que a moeda tem chances iguais de tirar cara ou coroa, arriscar R$ 1,00 para ganhar R$ 100,00 parece uma escolha atrativa. Para exemplificar a ideia apresentada, é possível observar abaixo a árvore de decisão e como seria feita a análise dessa escolha utilizando a técnica descrita:
FIGURA 18 - Exemplo de utilização do modelo da árvore de decisão.
De acordo com a figura acima, se o indivíduo resolve não participar do desafio, seu ganho ou sua perda (chamado de payoff) é zero. Se este resolve participar, existe um evento aleatório ditado pela posição da face da moeda resultante. As duas possibilidades estão representadas pelas expressões P(v)=50% e P(p)=50%, que significam, respectivamente, que a possibilidade do indivíduo vencer e perder são de 50% cada. Os payoffs finais são R$
115 99,00 se ele ganhar (R$ 100,00 de prêmio do desafio menos R$ 1,00 da participação) e R$ 1,00 negativo se ele perder.
Tendo a árvore representada, é importante introduzir o conceito utilizado em estatística de valor esperado (Goodwin e Wright, 2004, p. 87). Este valor é calculado pela soma de todas as probabilidades de um evento multiplicadas pelo resultado de cada uma dessas probabilidades. Por exemplo, o valor esperado de uma jogada de um dado convencional de seis faces é 3,5, conforme abaixo:
(1/6 x 1) + (1/6 x 2) + (1/6 x 3) + (1/6 x 4) + (1/6 x 5) + (1/6 x 6) = 3,5
O objetivo é aplicar o conceito de valor esperado (VE) às diferentes escolhas que o indivíduo tem: participar ou não do desafio. Caso não participe, o valor esperado é zero (100% de chance multiplicado pelo payoff de R$ 0,00). Caso deseje participar, o valor esperado é:
(50% x 99) + (50% x (-1)) = 49
Pelo fato de 49 ser maior que 0, conclui-se que a decisão de maior valor para o indivíduo é a de participar do desafio, conforme antevisto.
O modelo descrito acima é apenas uma representação gráfica de um processo decisório ao qual todos somos submetidos diariamente: quando decidimos dormir mais um pouco antes de ir ao trabalho, quando atravessamos uma rua, quando decidimos agradar a uma pessoa com um presente, quando tomamos a decisão de mudar de emprego ou mesmo quando entramos ou não em uma discussão sobre um assunto específico. Dessa forma, ao decidirmos entrar ou não em uma discussão, analisamos inconscientemente os ganhos ou perdas que teremos e então tomamos nossa decisão.
Aplicado ao estudo aqui proposto, o modelo apresentado acima tem o objetivo de analisar:
116 Se brasileiros e italianos expressariam ou não suas opiniões em algumas situações, ou seja, se discutiriam ou não, caso não concordassem com alguém ou alguma coisa;
como brasileiros e italianos se sentiriam caso não expressassem suas opiniões;
como brasileiros e italianos se sentiriam caso expressassem suas opiniões e estas prevalecessem;
como brasileiros e italianos se sentiriam caso expressassem suas opiniões e estas não prevalecessem.
Assim, o modelo acima citado assume neste trabalho a seguinte forma:
FIGURA 19 - Modelo de árvore de decisão usado neste estudo.
No modelo apresentado na FIG. 19, onde se lê Discutir: (s)im ou (n)ão é apresentada uma situação em que o indivíduo discorda de alguém ou de alguma coisa. Dada a situação, são apresentadas duas alternativas ao indivíduo: expressar ou não seu ponto de vista, ou seja, entrar ou não na discussão. Após decidir se entra ou não na discussão, o
117 respondente deve também indicar o sentimento envolvido em sua decisão e, além disso, deve identificar também o sentimento envolvido caso tivesse escolhido a outra alternativa possível.
As situações contempladas nas árvores de decisão utilizadas neste estudo foram escolhidas a partir dos exemplos de situações de discussão dados pelos respondentes que haviam criado as metalinguagens semânticas para os verbos discutir e discutere. 79 Tais situações foram divulgadas sob a forma de questionários por meio da plataforma online Survey Monkey. O questionário brasileiro, denominado Discutir ou não discutir, eis a questão, foi respondido por 314 brasileiros, enquanto o questionário italiano, chamado de Discutere o non discutere, questo è il dilemma, foi respondido por 219 italianos. 80
São indicadas abaixo as quatro situações de discussão apresentadas aos participantes da pesquisa: 81
FIGURA 20 - Primeira árvore de decisão apresentada aos respondentes do questionário.
79 Como indicado na subseção 3.1.3 deste trabalho.
80 O questionário Discutir ou não discutir, eis a questão pode ser observado no APÊNDICE K, enquanto o
questionário Discutere o non discutere, questo è il dilemma pode ser encontrado no APÊNDICE L.
81 São apresentadas aqui somente as versões em PB. Para acesso às versões italianas das situações da árvore
118 Na primeira árvore de decisão apresentada, como é possível observar na FIG. 20, os respondentes deveriam decidir se discutiriam ou não com um colega de trabalho caso ele fizesse um serviço mal feito e os respondentes achassem que ele deveria refazê-lo. Esta situação foi escolhida para verificar o comportamento dos respondentes brasileiros e italianos frente a uma discussão entre conhecidos, em ambiente de trabalho e, portanto, de caráter formal.
FIGURA 21 - Segunda árvore de decisão apresentada aos respondentes do questionário. Na segunda árvore de decisão, os participantes da pesquisa deveriam decidir se discutiriam ou não com duas pessoas que entrassem na fila de um teatro sem terem respeitado a ordem de chegada. Tal situação foi selecionada para observar a reação de brasileiros frente a uma discussão pública entre desconhecidos, em um ambiente informal.
119 FIGURA 22 - Terceira árvore de decisão apresentada aos respondentes do questionário. Na terceira árvore de decisão, os respondentes deveriam escolher entre entrar ou não em uma discussão política com amigos em um bar. Esta situação busca o comportamento de brasileiros e italianos em uma discussão entre conhecidos, em um ambiente informal.
120 Na quarta árvore de decisão, a escolha dos participantes era entrar ou não em uma discussão caso estivessem em uma fila de banco e muitos caixas estivessem fechados. Esta situação foi escolhida para observar o comportamento dos respondentes brasileiros e italianos em uma discussão pública com funcionários de um banco, sendo, portanto, uma discussão de caráter formal.
Como foi possível observar, as situações utilizadas são de naturezas diferentes e apresentam graus de intimidade diferentes entre os participantes da interação. As quatro situações utilizadas visam observar as escolhas de brasileiros e italianos frente a quatro tipos de discussões:
Situação 1: discussão entre conhecidos, ambiente formal. Situação 2: discussão entre desconhecidos, ambiente informal. Situação 3: discussão entre conhecidos, ambiente informal. Situação 4: discussão entre desconhecidos, ambiente formal.
Essa escolha se deu para que os dados que emergem das respostas possam indicar se o grau de intimidade entre os interactantes e o grau de formalidade da situação podem causar algum impacto no processo decisório de entrar ou não em uma discussão.
Em relação aos adjetivos oferecidos aos respondentes como possíveis sentimentos relacionados à decisão de entrar ou não nas discussões apresentadas, a cada um deles foram atribuídos pesos, como é possível visualizar na tabela abaixo:
TABELA 11
Valores atribuídos aos adjetivos das árvores de decisão
Adjetivo Valor
Indiferente 0
Incomodado -1
Angustiado -1
121
Bravo -1
Satisfeito 1
Orgulhoso 1
Feliz 1
A TAB. 11 mostra que aos adjetivos de cunho positivo foi atribuído o valor positivo 1, aos adjetivos de cunho negativo foi atribuído o valor negativo -1 e ao adjetivo indiferente (o qual indicaria um sentimento nem positivo e nem negativo) foi atribuído o valor 0. Os valores citados, associados a cada adjetivo escolhido pelos respondentes, serão usados na análise dos questionários e será feita uma média dos sentimentos associados por brasileiros e italianos à decisão de entrar ou não em uma discussão e ao êxito de tal discussão.
No próximo capítulo serão apresentados os dados obtidos a partir da aplicação dos procedimentos metodológicos aqui indicados e as análises feitas a partir desses dados.
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4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
É preciso discutir/ mas não quero discussão/ da discussão sai a razão/ mas às vezes sai pancada/ a questão é complicada/ quero ver a decisão. Noel Rosa
Neste capítulo serão expostos os resultados obtidos ao longo do estudo. Na subseção 4.1 serão apresentados os dados relativos à aplicação da proposta de Anna Wierzbicka aos verbos discutir e discutere. A partir da reflexão sobre os limites de tal proposta para o trabalho aqui desenvolvido, na subseção 4.2 serão apresentados os dados da nova metodologia empregada para o estudo de discutir e discutere: as análises manual e automática dos tweets. Por sua vez, a subseção 4.3 apresentará os resultados obtidos na etapa cultural do trabalho: os resultados dos questionários aplicados a brasileiros e italianos para observar se há uma tendência culturalmente motivada quando brasileiros e italianos decidem se entram ou não em uma discussão.