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pårørende og helsepersonell er viktig

5. Tiltak og virkemidler

5.3. Modelluavhengige tiltak

5.3.1. Styrking av henvisningsprosess og -dialog

Uma das formas encontradas por Oswald para demarcar a sua mudança de posição política foi formular uma autocrítica ao seu passado “burguês”. Empenhado em se apresentar e militar como comunista, o escritor procedeu a uma crítica virulenta aos pressupostos modernistas, assim como aos princípios básicos que configuraram a ideia de antropofagia.

Ao finalizar o “Prefácio” de Serafim Ponte Grande, mencionado anteriormente, Oswald afirmou que

[…] o movimento modernista, culminado no sarampão antropofágico, parecia indicar um fenômeno avançado. São Paulo possuía um poderoso parque industrial. Quem sabe se a alta do café não ia colocar a literatura nova-rica da semicolônia ao lado dos custosos surrealismos imperialistas? Eis porém, que o parque industrial de São Paulo era um parque de transformação. Com matéria-prima importada. Às vezes originária do próprio solo nosso. Macunaíma.252

Se no Manifesto Antropófago constatamos que, segundo o escritor, “só a antropofagia nos un[iria]. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”, ela se manifestou, nesse momento, aos olhos de Oswald, como uma doença, um “sarampão”, que teria contribuído negativamente para a percepção da realidade social, econômica, filosófica e, por que não, política da nação. Se, ainda ao lembrarmos do manifesto, o escritor afirmou que “a nossa independência ainda não [havia sido] proclamada”, a questão não se colocaria agora contra a “importação de ideias enlatadas”, mas sim da negação da exploração de nossas riquezas, em favor do capitalismo imperialista.253

251 Ibidem, p. 167. 252

ANDRADE, Oswald de. “Prefácio”. Serafim Ponte Grande... p. 132-3.

253 Como analisamos no capítulo 2, Oswald já se posicionava, em “Ordem e Progresso”, contra esse tipo de relação desfavorável ao Brasil, ao evidenciar o quanto o nosso solo era espoliado pela lógica capitalista de produção.

A referência ao livro de Mário de Andrade, Macunaíma, exaltado por Oswald em várias outras ocasiões como o principal livro modernista e antropofágico, aparece como sugestão, em síntese, dessa operação que exaltava o movimento modernista como “fenômeno avançado”, em direção ao “progresso” nacional.

Para Oswald, Mário formaria coro entre os “palhaços da burguesia”, assim como ele mesmo tinha sido.

A valorização do café foi uma operação imperialista. A poesia Pau- Brasil também. Isso tinha que ruir com as cornetas da crise. Como ruiu quase toda a literatura brasileira “de vanguarda”, provinciana e suspeita, quando não extremamente esgotada e reacionária. [...] Enquanto os padres, de parceria sacrílega, em São Paulo com o professor Mário de Andrade e no Rio com o robusto Schimidt [sic], cantam e entoam, nas últimas novenas repletas do Brasil: No céu, no céu/ Com “sua” mãe estarei! Eu prefiro simplesmente me declarar enjoado de tudo.254

O “Prefácio” analisado nos sugere, novamente, a forma de um manifesto. Nele, estão presentes estruturas discursivas já percebidas, por exemplo, no Manifesto Antropófago e no texto de abertura do primeiro número do jornal O Homem do Povo,

intitulado “Ordem e Progresso”.

Ao operar por meio de diagnósticos e prognósticos, o texto sugere algo como uma carta de princípios, uma apresentação pública, misto de enunciado e denúncia. Se para Jacques Rancierè toda escrita é política, exatamente por operar uma “partilha do sensível”,255 como lugar de constantes disputas entre vários segmentos sociais, Oswald nos

sugere um outro gesto, uma auto-encenação, que nos parece ser uma das marcas que acompanha os intelectuais modernos, representado primeiramente pelo autor do manifesto inaugural J'accuse, o escritor francês Émile Zola.256

Em texto publicado no único número da revista Ritmo, em São Paulo em 1935, sem

254

ANDRADE, Oswald de. “Prefácio”. Serafim Ponte Grande... p. 133. 255 RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita...

256 OLINTO, Heidrun Krieger. “Gestos intelectuais no sistema literário”. Semear. Instituto Camões Portugal/PUC-Rio, nº 10, s.d., s.p., http://www.letras.puc-rio.br/catedra/index.html.

título, Oswald de Andrade insurgiu-se contra a escolha do nome da mesma, ao estranhar a “falta de imaginação” que cercava os moços que se propunham a manter uma revista de cultura. Para o escritor, “numa era sincopada e arrítmica, como a nossa, esse nome só podia brotar em gente que atola no creme de ilusões de antigos compassos. Ou no calor idealista de uma torcida que já quer ver cadência onde só há elementos de sobressalto e luta”.257

Esse texto é indicativo das várias searas em que Oswald de Andrade se inseriu, sempre que havia a possibilidade de opinar ou se posicionar a favor de novas posturas de intelectuais que, até aquele momento, ainda não se posicionavam politicamente em relação ao seu papel na sociedade.

A crítica do escritor situou-se em considerar os responsáveis pela revista, “a novíssima geração”, também como “originários de uma pequena burguesia colonial e pacata” que, diferentemente dos intelectuais engajados, ainda não sentiam o “[...] abalo diário da terra telegráfica e a mobilização das catástrofes que [iriam] engolir, com manteiga de sangue, a velha sociedade”.258

Ainda para o escritor,

[...] nenhum homem de hoje está folgado de prisões, olhos vasados, naufrágios com crowls heróicos e guinchos terríveis e surdos porque Os

Lusíadas nos dentes impedem de berrar por socorro. Isto de escritor com vestuário completo, pena de pato e ordenado, surpreendendo no galinheiro das locubrações a palavra “Ritmo” para capear uma revista, vai longe da nossa vida cavada e rebelde.259

Oswald novamente se posicionou em relação à Semana de Arte Moderna, ao encontrar nela as origens a partir das quais os integrantes da “novíssima geração” de escritores e intelectuais deveriam se apoiar. Seu discurso, nesse momento, também operou, em grande medida, como um corte, novamente uma ruptura, com o legado de 1922, mesmo

257

ANDRADE, Oswald de. “Hora H”. Estética e política... p. 46 (título atribuído por Maria Eugenia Boaventura, a organizadora do volume)

258 Idem.

que mantendo alguns elementos de continuidade.

Nós, da Semana de 22, não produzimos grande safra. Temos diversas vergonhas no brasão, como essas honradas famílias da pequena burguesia que apanhando um vento de prosperidade vão se tornando moralistas, quando veem de repente as filhas irem parar na casa de Dadá. [...] mas apesar dessas irremediáveis prostituições, o patrimônio material existe. Nós fizemos, paralelamente às gerações mais avançadas da Europa, todas as tarefas intelectuais que nos competiam. [...] A nova geração tem que pesquisar tudo isso, tem que conhecer a sucessão libertadora da Semana de 22, que eu orientei para o movimento “Pau-Brasil”, culminando com alguns dos melhores talentos literários do movimento – Bopp, Pagu, Geraldo Ferraz, Osvaldo da Costa, nesse admirável sarampão de revolta que se chamou “Antropofagia” e que havia mais tarde de desembocar no marxismo.260

Nesse momento de sua vida intelectual, Oswald considerava que, junto com vários outros elementos, ele havia abandonado as “proezas espíritas da sensibilidade ultraburguesa pela literatura político-socializante”. O escritor saúda vários intelectuais, através dos quais “a gente tem protestado”, como John dos Passos, Aldous Huxley, Ilia Ehrenburg, e os nacionais, em primeiro plano, Jorge Amado e Aníbal Machado. Esses, segundo Oswald, seriam os responsáveis pelo “romance social moderno, pois passaram e sentiram todas as experiências intelectuais da sua época e trazem no sangue de sua escrita o resultado das mais vastas e corajosas aventuras”.261

Curiosamente, entre os vários escritores reverenciados como os principais representantes da literatura política, José Lins do Rego foi quem sofreu as críticas mais duras por parte de Oswald. Mesmo considerando Murilo Mendes e Jorge de Lima como “dois atuais desencaminhados” e Plínio Salgado, como autor de “tentativas estilísticas paranóicas”, a crítica a José Lins recaiu, em grande medida, sobre a sua forma de escrita, via “narrativa direta”. Ao escritor, Oswald

[…] não lhe neg[ou] um sólido fôlego de contador, admir[ou] a honestidade de sua documentação e saud[ou] a direção ideológica que enfim, no último

260 Ibidem, p. 48 (aspas no original). 261 Idem.

livro, lhe d[eu] um particular destaque. Mas [se] recus[ou] a ver nele mais que um cicerone que a massa retardada entend[ia].262

Para Oswald,

[…] tudo isso é preciso, é necessário à formação de vocês que não podem ficar chupando o dedão gostoso de José Lins do Rego, porque é fácil de entender, porque satisfaz as curiosidades mais vivas da adolescência e desafoga seus correspondentes recalques e também porque não obriga ninguém a ter cultura especial nenhuma.263

Essa indicação é importante para percebermos a pouca simpatia de Oswald por uma literatura pedagogizante, condizente com o Realismo Socialista, até então propagado como modelo ideal de esclarecimento das “massas”.

A massa, meu caro, há de chegar ao biscoito fino que eu fabrico. [...] Descrer da capacidade de compreensão da massa é descrer do próprio progresso revolucionário. É pactuar com a atitude de complô da indústria capitalista, denunciada pela tecnocracia, a qual guarda nas gavetas das burras as invenções mais preciosas e necessárias ao desenvolvimento da humanidade, porque convém aos interesses de grupo que a massa patine nos processos atrasados de produção. Para frente é que se deve andar.264

Ao analisar o Modernismo de 22, Oswald estabeleceu, em texto publicado originalmente no “Suplemento em Rotogravura” do Estado de S. Paulo, de 1937, intitulado “O divisor de águas modernistas”, vinte e oito anos antes do texto de Candido,265 uma

análise a partir da qual podemos perceber os motivos pelos quais Oswald teria optado pela militância comunista e, concomitantemente, pela criação de uma literatura engajada.

Para o autor, “[...] qualquer apreciação das letras brasileiras deve[ria] ser precedida do exame da revolta manifesta de 1922. Essa famosa Semana foi uma parada de conjunto, feita para protestar contra a decadência da literatura e da arte no Brasil em fevereiro

262 Idem. 263

Ibidem, p. 49. 264 Idem.

265 CANDIDO, Antonio. “Literatura e cultura de 1900 a 1945”. Literatura e sociedade: estudos de teoria e

daquele ano [...]”.266

Nesse momento, o discurso de Oswald, ao retornar ao “legado” da Semana de 1922, é elogioso. O sentido é de monumentalização das propostas e do alcance da iniciativa modernista, de valorização da radicalização daquele evento. Para ele, “[...] a noite heróica da Semana constituiu na apresentação da literatura nova […] a vitória do movimento nas suas mais incríveis diversidades desenhou-se logo […]. Estava vencida uma etapa da literatura nacional”.267

Cotejado com a conferência de 1923, “O esforço intelectual do Brasil contemporâneo”, analisada anteriormente no capítulo 1, o texto pode ser entendido, novamente, como uma construção geneológica, ao enfatizar e estabelecer a Semana de Arte Moderna como epicentro a partir do qual teria sido gestado e desenvolvido o “autêntico” pensamento social brasileiro. Para tanto, não deixou, como no texto de 1923, de criar um panteão com “nomes ilustres” que, de uma forma ou de outra, passaram a constituir a memória do modernismo brasileiro.268 Se 1922 foi o momento inicial da

consagração do movimento modernista, 1930 seria o de divisão e radicalização. Nas palavras de Oswald, “[...] se 1922 anunciava uma sintaxe para a liberdade criadora de nossa gente, pode-se dizer que só 1930 e a revolução outubrista decidiram do aproveitamento e destino do modernismo”.269

266ANDRADE, Oswald de. “O divisor das águas modernistas”. Estética e política... p. 53. 267 Idem.

268

A lista de “intelectuais brasileiros” é exaustiva, mas achamos relevante citá-los. São eles: Graça Aranha e Paulo Prado (“os velhos letrados”), René Thiollier (“o moço”), Guiomar Novais, Villa-Lobos (o “maestro”), Ronald de Carvalho (o “poeta”), Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Agenor Barbosa, Anita Malfatti, Zina Aita, Victor Brecheret, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Filipe D’Oliveira, Augusto Frederico Schmidt, Cassiano Ricardo, Flávio de Carvalho, Couto de Barros, Osvaldo da Costa, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Tristão de Athayde, Raul Bopp, Aníbal Machado, José Américo de Almeida, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, João Ribeiro. Idem.

269 ANDRADE, Oswald de. “O divisor das águas modernistas”. Estética e política... p. 54. Para Oswald, a virada significativa nas concepções e formas de se pensar uma “arte nacional”, a partir do advento da Semana de Arte Moderna, “dentro das linhas avançadas”, teria sido orquestrada, principalmente, pelos escritores Raul Bopp, em Cobra Norato, Mário de Andrade, em Macunaíma e Aníbal Machado, com João Ternura. Ainda para o autor, “espíritos severos como José Américo de Almeida, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda apoiaram a avançada. E a crítica de João Ribeiro consagrou os valores novos”.

Entretanto, Oswald já havia anunciado o fim de sua fase modernista, em 1931. Principalmente a partir do prefácio escrito em 1933, para Serafim Ponte Grande, o discurso do escritor é de ruptura. Ao negar quase a totalidade de suas obras publicadas antes de sua filiação ao Partido Comunista, ele assumiu o compromisso de colocar a sua criação literária a serviço da revolução brasileira.

Como entender essas posições aparentemente díspares? O que teria informado essas duas tomadas de posição de Oswald, entre os anos iniciais da década de 1930 e esse texto de 1937, “O divisor das águas modernistas”?