Vimos, no capítulo anterior, avanços importantes em termos legislativos em relação às políticas públicas do espaço urbano e de mobilidade. Em termos conceituais, que serão discutidos na sequência, a mobilidade urbana também teve sua evolução incorporando e priorizando elementos-chave na busca de se construírem espaços urbanos mais sustentáveis e acessíveis, ou seja, mais democráticos e inclusivos.
Pensar em mobilidade urbana é pensar em um espaço onde todos, independentemente do meio de transporte ou da condição física, realizam seus deslocamentos por inúmeros motivos e necessidades de forma igualitária. Não há como pensar mobilidade urbana de forma excludente e não acessível a todos. Logo, não se podem dissolver na prática os conceitos de mobilidade e acessibilidade; caso
contrário, estaríamos construindo cidades não acessíveis, não inclusivas e insustentáveis.
Encontram-se na literatura conceitos diversos sobre mobilidade e acessibilidade. Em grande parte das vezes, os dois conceitos podem até ser confundidos como sinônimos ou se complementarem.
Distinções conceituais são encontradas em alguns autores, outros não apresentam essa separação. Contudo, quando se pensa em planejamento urbano e de mobilidade, deve-se pensar em ações conjuntas e não desvinculadas, pois ao mesmo tempo em que aparecem como distintos em termos de definições, na prática, mobilidade e acessibilidade “caminham” juntas. Assim, nesta pesquisa, procurou-se sempre esse olhar abrangente e integrado desses conceitos quando aplicados ou observados na prática.
Mobilidade urbana pode ser compreendida como a facilidade de deslocamentos de pessoas e bens dentro de um espaço urbano e acessibilidade como o acesso da população para realizar suas atividades e deslocamentos. O conceito de mobilidade está relacionado com os deslocamentos diários (viagens) de pessoas no espaço urbano: não apenas a sua efetiva ocorrência, mas também a facilidade e a possibilidade de ocorrência (BRASIL, 2007a; VASCONCELLOS, 2001).
Segundo Morris et al. (1979), a mobilidade pessoal pode ser considerada como a capacidade do indivíduo de se locomover de um lugar ao outro e depende principalmente da disponibilidade dos diferentes tipos de modos de transporte,
inclusive a pé. Para Tagore e Sikdar (1995), este conceito é interpretado como a capacidade do indivíduo de se mover de um lugar a outro, dependendo do desempenho do sistema de transporte e das características do indivíduo.
Akinyemi e Zuidgeest (1998) citam que a interpretação mais comum para mobilidade é aquela que relaciona o conceito às viagens atuais ou viagens feitas, utilizando as seguintes medidas: a) número de quilômetros por viagem por pessoa; b) número de viagens por pessoa por dia; c) número de quilômetros percorridos por pessoa por modo; e d) números de viagens por dia por pessoa por modo. No entanto, no Brasil, a ponderação da realização de viagens pela sua extensão é muito pouco utilizada.
O termo mobilidade urbana reúne os aspectos físicos, ou seja, a infraestrutura viária (geometria, pavimentação, largura das vias, número de faixas, rampas e sinalização) necessária para que os deslocamentos aconteçam, e também os sistemas e modos de transportes envolvidos, como: os motorizados individuais (automóveis, motocicletas etc.), transporte coletivo urbano e modos não motorizados (pedestres, ciclistas, veículos de propulsão humana ou animal). Logo, a organização e a integração do sistema de trânsito e transportes passam a ser condicionantes para a promoção ou não da mobilidade urbana (BRASIL, 2004).
Tradicionalmente, a mobilidade urbana sempre foi tratada por meio de uma abordagem quantitativa, significando os deslocamentos ou viagens que acontecem nas cidades. Nesse sentido, tem a referência de um local de origem e outro de destino e, muitas vezes, refere-se tão somente às viagens motorizadas.
No entanto, a atual complexidade urbana ajudou a compor um conceito mais complexo que capta a mobilidade como um fenômeno multifacetado, com dimensões diferenciadas, em nível social, econômico e político, e as especificidades de sua inserção nas diversas esferas que o urbano oferece (ALVES e RAIA JR., 2009).
A Política Nacional da Mobilidade Urbana Sustentável, desenvolvida pelo Ministério das Cidades (BRASIL, 2004a), por sua vez, define mobilidade urbana como atributo associado a pessoas e bens, relacionada às necessidades de deslocamentos no espaço urbano, de acordo com as atividades nele desenvolvidas. De acordo com Raia Jr (2000, p. 59):
Na geografia urbana, o deslocamento nas cidades é analisado e interpretado em termos de um esquema conceitual que articula a mobilidade urbana, que são as massas populacionais e seus movimentos; a rede, representada pela infraestrutura que canaliza os deslocamentos no espaço e no tempo; e os fluxos, que são as macro decisões ou condicionantes que orientam o processo no espaço.
Esses três elementos, citados por Raia Jr. (2000), é que irão determinar as características da mobilidade urbana. É claro que esses processos ocorrem de forma divergente em cada ambiente urbano, pois cada cidade apresenta seus dinamismos próprios, devendo, portanto, ser analisados de acordo com as peculiaridades de cada espaço urbano.
Alguns fatores podem restringir ou até mesmo ser condicionantes no que diz respeito à mobilidade urbana. Esses fatores podem ser relacionados ao próprio indivíduo (sexo, idade, habilidade motora, renda etc.) e/ou à infraestrutura urbana (disponibilidade e possibilidade de acesso ao sistema viário, de transportes etc.). Por
fim, há ainda as medidas de regulação por parte do órgão gestor, como restrições de horários, locais, veículos, entre outros (VASCONCELLOS, 2012).
Brasil (2013) também procurou descrever alguns fatores que interferem na mobilidade urbana, como a renda, a idade e o nível educacional. O fator renda mostra que existe uma relação direta entre a renda per capita e o número de viagens produzidas. Em países europeus, a taxa média de mobilidade por pessoa é de 3-4 viagens/dia e, no Brasil, é de 2,5 viagens/dia.
A idade está relacionada à mobilidade: as pessoas que estão em fase produtiva (20 a 50 anos) se deslocam mais para o trabalho; jovens e crianças também exercem muita mobilidade para irem a escolas e cursos; aposentados e idosos se deslocam menos. A escolaridade interfere na mobilidade, pois verifica-se que pessoas com nível educacional mais elevado viajam mais que os demais.
Assim como a mobilidade, a acessibilidade apresenta várias definições e conceitos que a particularizam. Para Brasil (2007b), acessibilidade significa a condição do indivíduo se movimentar, locomover e atingir um destino desejado, “dentro de suas capacidades individuais”. Isto é, realizar qualquer movimentação ou deslocamento por seus próprios meios, com total autonomia e em condições seguras, mesmo que para isso precise se utilizar de objetos e aparelhos específicos. Logo, a acessibilidade é, antes de tudo, uma medida de inclusão social.
Para os autores Ribeiro Filho et al. (2012), o termo acessibilidade remete a uma reflexão e um olhar mais atento sobre as cidades, procurando melhor compreender
como as pessoas podem usufruir a cidade de maneira igualitária, tendo acesso a todos os bens e serviços.
O Plano de Mobilidade Urbana (PLANMOB) (BRASIL, 2007a) apresenta esses conceitos de forma articulada,. Segundo o plano, a mobilidade urbana para a construção de cidades sustentáveis será produto de políticas que proporcionem o acesso amplo e democrático ao espaço urbano, priorizem os modos coletivos e não motorizados de transporte, eliminem ou reduzam a segregação espacial e contribuam para a inclusão social, favorecendo a sustentabilidade ambiental.
É importante destacar a associação existente entre o uso do solo, a condição socioeconômica e a acessibilidade. A acessibilidade cresce quando os seus deslocamentos apresentam um custo menor; do mesmo modo, a propensão para interação entre dois lugares cresce com a queda do custo dos movimentos entre eles (RAIA Jr, 2000). Cardoso e Matos (2007, p.12) confirmam essa relação ao serem enfáticos na afirmação que:
A acessibilidade urbana é condicionada pela interação entre o uso do solo e o transporte e se constitui como um importante indicador de exclusão social, ao lado. Entre outros, da mobilidade, da habitação, da educação e da renda. Nesse sentido, a acessibilidade, ao ser parte integrante e fundamental da dinâmica e do funcionamento das cidades, passa a ser um elemento que contribui para a qualidade de vida urbana, na medida em que facilita o acesso da população aos serviços e equipamentos urbanos, além de viabilizar sua aproximação com as atividades econômicas.
Verifica-se que, de acordo com Raia Junior (2000), Cardoso e Matos (2007) e Brasil (2007b), a acessibilidade também pode ser compreendida como o acesso de todos, de forma igualitária e democrática, aos serviços básicos, como saúde, educação, habitação e transporte, e não apenas a barreiras físicas encontradas nos espaços urbanos.
Diante do exposto, as preocupações dos planejadores e gestores do espaço urbano devem ser no sentido de aplicar ações conjuntas que promovam a acessibilidade a todos. A acessibilidade deve ser entendida aqui tanto como superação das barreiras físicas quanto no sentido de oferecer mais acesso à população para exercer a mobilidade, independente do modo de transporte utilizado. Logo, mobilidade e acessibilidade podem até ser tratadas, de forma conceitual, como segregadas, mas na prática devem ser pensadas articuladamente.