Toda essa estrutra simbólica no ambiente militar, no caso desta pesquisa, no universo policial militar é multifaceta e contém elementos comuns às mais diversas épocas da existência das Polícias Militares. Com o passar do tempo, tais símbolos vão exercendo pressão sobre os militares, guiando-os se moldarem aos padrões profissionais exigidos pela Corporação.
Entregues ao sistema que os acolheu sem dar-lhes chances de interferir em possíveis mudanças, esses policiais, comumente, passam a repetir toda a representação gestual, verbal e conceitiual, comuns ao ambiente militar. Mas, nem sempre essa repercursão ocorre como algo positivo e aceitável. Na realidade das Cororações Policiais Militares a adaptação dos policiais aos códigos e simbolismos que regem as ordens internas destas instituições, certas vezes, leva os policiais militares a sucumbirem a ensinamentos distorcidos acerca do que é ser um verdadeiro policial, apartando-os de uma conduta digna de pertencer às fileiras da Corporação.
Esse tipo de desvio de conduta não causa estranheza a 62% dos cadetes entrevistados, visto estes entenderem que apasar de certos policiais militares receberem uma formação de qualidade superior aos demais, como acontece nas tropas especializadas, não estão livres de se corromper no exerecício de sua função. Para 60% dos casetes, a própria rotina profissional induz o policial militar a desvirtuar-se.
Portanto, cabe às instituições de ensino militar voltarem a essas questões, buscando fazer no processo ensino-aprendizagem dos policiais militares, não um espaço organizado que produza corpos dóceis que perpetuem ideologias nocivas socialmente. É resposabilidade do Estado fazer com que os sistemas de educação policiais militares se tornem ambientes de aprendizado, produção e reprodução do respeito à cidadania, tanto no ambiente interno quanto externamente aos muros dos quarteis.
5 O CONFLITO COBRA O SEU PREÇO: é preciso cuidar do cuidador
Vários são os matizes que compõem a diversidade de fatores responsáveis por exercerem pressão sobre os policiais militares em formação, fazendo com que recaia sobre estes profissionais as consequências de estarem imersos em um ambiente tão conflitivo, no qual as culturas de ordem chocam-se constantemente. Portanto, entende-se como o cuidado oferecido pelo Estado aos policiais, para enfrentar as dificuldades inerentes a sua profissão, é um tema delicado e complexo.
Para a Corporação, muitas vezes importa, prioritariamente, utilizar as habilidades profissionais dos policiais militares, para que o serviço seja executado a contento. Nesses casos, os desígnios do comando devem ter precedência, mesmo em detrimento do cuidado com o ser humano por trás da farda. Em uma relação que geralmente ocorre de forma verticalizada, ao dispensar-se aos subalternos um tratamento com indiferença e distanciamento, ao expor seus pleitos junto aos seus superiores.
Mostrando-se insensíveis às necessidades dos policiais militares, quanto às dificuldades inerentes à sua profissão, por diversas vezes os sistemas de poder dos quarteis negligenciam ou interpretam mal os sinais que alertam para a necessidade de ser ofertado aos policiais militares um cuidado biopsicossocial mais adequado.
Nesse contexto, percebe-se que uma das tarefas mais intricadas, que exige bastante sensibilidade e destreza ao ser executada é, justamente, o trabalho de equacionar todos esses aspectos conjunturais, físicos e emocionais, com a finalidade de tornar as forças policiais mais atuantes e eficientes. Pois, dos mais variados ângulos, durante e depois da sua formação, faz-se sentir, sobre os policiais militares as expectativas para que seja um cuidador presente e ilibada da sociedade a qual pertence. Todavia, ao se pleitear que o Estado ofereça uma força policial exemplar, tem-se, anteriormente, que ser levado em conta a forma como estão sendo processadas as atenções dispensadas a esses profissionais. Deve-se considerar de que forma vêm sendo cuidados os cuidadores.
Com base nessa premissa, entende-se que não são poucas as exigências que ora permeiam a constituição do policial militar, requerendo sua adaptação ao novo perfil desenhado sob os atuais apelos sociais brasileiros. Consequentemente, amplia-se a necessidade de serem implementadas políticas públicas de Segurança consoantes com esse processo.
Com base nessa realidade, vem sendo afirmado, progressivamente, a busca pela inserção do modelo da atenção biopsicossocial, no âmbito da formação e da capacitação dos agentes de Segurança Pública brasileira. Diante dessa perspectiva, intenciona-se que os policiais militares venham a ser reconhecidos, como um todo integral. Sob os preceitos de uma visão holística, esses profissionais passam a ser vistos de uma forma mais ampla, que abrange as dimensões física, psicológica e social, sabendo-se que se encontram inseridos em uma realidade social diversificada e em constante transformação.
Contudo, apesar de serem reconhecidamente positivos, nas mais diversas áreas, os resultados práticos e efetivos do olhar biopsicossocial não frutificam, tão rapidamente, quanto se poderia desejar, seja durante a formação ou o aperfeiçoamento, seja na vida profissional dos policiais militares. Durante séculos de existência, as especificidades e complexidades da profissão policial militar foram constituídas e fortemente arraigadas, sob uma série de dogmas e preceitos elementares, muitos dos quais resistem, tremendamente, a qualquer mudança.
A estruturação do autoritarismo e do tecnicismo bélico nas Corporações Policiais Militares tem sido uma considerável barreira para que o autoritarismo ceda espaço às relações democráticas de parceria, no âmbito interno, entre os níveis hierárquicos, ou externo, na relação polícia-sociedade. O que se percebe são condutas cristalizadas que não acompanham, par e passo, a valorização das liberdades e dos direitos de cidadania do indivíduo, como esperado pela sociedade.
Quando o policial militar é somado às fileiras da Corporação, toda uma gama de costumes, conhecimentos e dogmas lhe é repassada, com a intenção de transformá-lo uma das partes de um todo uniforme. Nesse processo, as singularidades e necessidades individuais são interpretadas como empecilho ao perfeito andamento da engrenagem militar.
5.1 AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA E A ATENÇÃO