Surpreendentemente, assim como Habermas, Zizek (2009) também defende a tese de que a modernidade é um projeto inacabado, e que a tarefa principal da filosofia hoje é recuperar os pressupostos de emancipação e autonomia moral abandonados pelo pensamento “pós-moderno”6. Entretanto, para Zizek (2003), a saída para esse dilema não pode ser tratada segundo o modo habermasiano de opor liberdade e conhecimento, isto é, a escolha entre, de um lado, argumentação racional pública e auto-objetivação científica, de outro; a solução reside justamente no caminho contrário: é preciso levar a cabo o projeto de auto-objetivação científica e, somente assim, extrair, de dentro dele, o fundamento da liberdade humana.
O esforço “pós-secular” da formação dos “limites do desencantamento” aceita rápido demais a premissa segundo a qual a lógica inerente ao Iluminismo acaba na completa auto-objetivação científica da humanidade, na transformação dos humanos em objetos à disposição da manipulação científica (...). Contra essa tentação, é crucial persistir até o fim no projeto do Iluminismo. O Iluminismo continua sendo um “projeto inacabado” que tem de ser finalizado, e seu fim não é a completa auto- objetivação científica, mas – temos que apostar nisso – uma nova imagem da liberdade que irá surgir ao seguirmos a lógica da ciência até o fim. (ZIZEK, 2011a,
6 O advérbio “surpreendentemente” aqui é direcionado especialmente àqueles para quem o pensamento de Zizek corresponde a uma espécie de obscurantismo pós-moderno, um apologista do irracionalismo, do relativismo, do niilismo, do totalitarismo, da fúria convulsiva do terror revolucionário, ou coisa que o valha. O que pode causar um grande desconforto nesse tipo de leitor é constatar aqui, ao longo do texto, o fato de que Zizek, muito longe de ser um pós-moderno leviano, é um legítimo pensador moderno, para quem a Aufklärung ainda representa a pedra fundamental da filosofia propriamente dita.
189).
A dúvida que surge é: acaso não temos aqui dois modelos diferentes de Aufklärung, cuja matriz kantiana seguida por Habermas já não se adequa mais ao modo como Zizek enxerga a questão? Ou, de forma mais simples, será que podemos conceber duas modalidades de Aufklärung, uma, a habermasiana, que procura manter-se fiel ao diagnóstico kantiano e que induz à dicotomia apresentada acima entre liberdade e conhecimento, e uma outra variante do termo, proposta por Zizek (2009), que visa superar o modelo kantiano e articular uma nova Aufklärung que faça coincidir liberdade e conhecimento? A resposta pode até ser simples e direta: não, a matriz zizekiana continua a ser a matriz kantiana; porém, o desdobramento dessa ideia certamente não é tão simples e direto assim. Não há dois modos de se pensar a Aufklärung, dois modelos paralelos que podem coexistir dependendo do ponto de vista teórico em jogo: o princípio do Esclarecimento é exatamente o mesmo proposto por Kant; todavia, resta apenas saber se sua essência foi suficientemente radicalizada na história do pensamento ocidental, isto é, se cumprimos efetivamente o potencial interno do sentido de Aufklärung que Kant propôs. E, quanto a isso, a premissa de Zizek é de que não: para ele, esse conceito, inaugurado na era moderna, ainda necessita efetuar um salto radical e decisivo para consumar aquilo a que ele se propõe – e a dicotomia mantida por Habermas só confirma uma resistência acanhada no que diz respeito a esse salto mortale.
Estamos, na verdade, lidando com uma problemática aberta no cerne do pensamento kantiano, ou melhor, no coração da modernidade e de seu ideal iluminista de progresso. É sabido que, no auge dos séculos XIX e XX, deu-se início a uma profunda desconfiança em relação ao ideal moderno de progresso centralizado na razão subjetiva. O ponto é que esse tão sonhado momento de emancipação humana, orientado pela ciência e pelo discernimento racional subjetivo, culminou numa profunda escravização do próprio homem por aquilo que os teóricos da Escola de Frankfurt denominaram de razão instrumental. Ou seja, à medida que o homem julgou a si mesmo o senhor da natureza e detentor dos meios metodológicos de manipulação e exploração técnica, uma inversão lógica inesperada já atuava na contrapartida subjacente desse projeto, transformando em objeto exatamente aquilo que conjecturava exercer um poder soberano de controle e domínio à distância. Nesse momento, o homem passa a alienar-se da força atuante pela sua própria razão, e conclusão: aquilo que parecia ser o momento de glorificação da liberdade pelo uso da razão técnica passa a ser o triste aprisionamento por forças desconhecidas originadas pela própria contradição lógica dessa
dinâmica de dominação7. Eis, em termos gerais, o impasse inerente ao próprio projeto iluminista de progresso e emancipação. E, diante disso, a preocupação filosófica primordial dos nossos tempos é, com efeito, saber o que fazer com essa lacuna que surge no seio da razão moderna, contradizendo todos os ideais emancipatórios em cujo fundo depositávamos nossas esperanças. Como afirma Vladimir Safatle (2012) a esse respeito:
Tudo se passa como se o pensamento contemporâneo tomasse consciência de que as expectativas emancipatórias da razão, essas expectativas que prometiam retirar o homem de sua minoridade e, como dizia Descartes, ser “senhor da natureza”, haviam produzido o inverso daquilo que era seu conceito (SAFATLE, 2012, p.230).
Segundo nossos propósitos, podemos discernir aqui basicamente três posições em relação a esse impasse epistemológico. Primeiramente, temos o reconhecimento explícito do impasse e de sua condição intransponível, ou seja, a constatação decisiva de que o ideal Iluminista da modernidade está estritamente conectado com seu lado avesso recalcado – e de tal maneira, não haveria progresso sem barbárie. Posteriormente, procura-se negar esse impasse como o ponto final e intransponível da modernidade, ou seja, busca-se encontrar uma saída estratégica a fim alcançar os ideais de progresso e emancipação proclamados por essa era e, com isso, superar de vez a visão apocalíptico-niilista preconizada pelo pensamento “pós-moderno”. Em terceiro lugar, temos um duplo movimento: por um lado, se aceita enfaticamente o impasse como limite insuperável do pensamento moderno, mas, à diferença da primeira posição, cumpre aqui, por sua vez, efetuar uma inesperada e conclusiva inversão dialética, em que o problema oriundo da própria Aufklärung, ou seja, seu impasse constitutivo, passa a ser, a partir de então, a sua única e verdadeira solução.
Sem dificuldades, já podemos dar nomes aos bois: a primeira postura é a posição dos teóricos da Escola de Frankfurt, mais precisamente a defendida por Adorno e Horkheimer (2006), que veem na própria essência do esclarecimento sua atividade autodestrutiva; a segunda, é claro, corresponde à pragmática formal de Habermas, que procura solucionar o problema da modernidade deslocando a referência da razão instrumental para a razão comunicativa; e a terceira, a de Zizek: trata-se de uma síntese hegeliana entre as duas primeiras posturas, ou seja, cabe identificar na própria lacuna, alojada no cerne do pensamento moderno, a única saída possível para sua real efetivação. Vejamos então como se dá o desenvolvimento dessas três posições.
7 Como diz Adorno (2009, p.28) em sua Dialética Negativa, “a imagem do homem no centro está irmanada com o desprezo pelo homem”.