4.3 Andre rapporteringskrav fra KD
5.1.3 Styringsparametere for 2018
Destacam-se, na seqüência em que aparecem no texto, os excursos de Camões, analisando-os em seus aspectos subjetivos, com o fito de sondar as intenções do poeta através de sua fala direta no poema1.
Identificamos ao longo do poema uma voz, em primeira pessoa, que nos leva a concluir pela presença do autor, devido aos traços autobiográficos, que confundem o “eu” autoral com o “eu” poético. Esta voz se faz sentir com maior nitidez no exórdio e na maior parte dos epifonemas, todavia ela está presente em vários outros seguimentos do poema, exigindo uma atenção mais aguçada do leitor, assim como pressupondo uma base razoável de cultura geral e de conhecimento formal da linguagem para a interpretação do sentido polissêmico das palavras e expressões utilizadas.
Cabe salientar, que o exórdio e os epifonemas são espaços retóricos reservadas ao poeta épico para seu discurso autoral, também observados nas epopéias clássicas, principalmente na Eneida, a que mais se aproxima d'Os Lusíadas. Entretanto, Camões utiliza- se desses espaços como meios de libertação da estética convencional dos modelos que segue,
1 Na análise do poema utilizamos a 4ª edição de Os Lusíadas, organizada por Emanuel Paulo Ramos (1980, com
51 através da expressão emotiva. Neste sentido já apontava Faria e Souza (apud CUNHA, 1992), um dos primeiros críticos da obra camoniana, que a originalidade dos epifonemas na epopéia camoniana consistia na largueza e no objetivo com que o poeta usava esta figura retórica.
2.1.1 Canto I
No Exórdio, cabe ao autor anunciar o que se propõe a cantar (Proposição) e invocar ajuda às Ninfas (Invocação) para a realização do canto. Esta é estrutura tradicional. No caso d'Os Lusíadas, seguindo a estrutura das epopéias renascentistas, nesta particularidade, Camões acrescenta a dedicatória ao rei.
Nas três primeiras estrofes do Canto I, que constituem a proposição, Camões inicia seu canto, anunciando os temas centrais de sua epopéia: a viagem de Vasco da Gama, "As armas e os barões assinalados" e a história da nação portuguesa, "as memórias gloriosas":
1 As armas e os barões assinalados Que, da Ocidental praia Lusitana Por mares nunca dantes navegados Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando: Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta.
Ao exaltar o herói coletivo, “o peito ilustre lusitano”, elevando o valor de seus feitos em comparação aos dos heróis greco-latinos, Camões exalta o valor da história de seu povo, o qual, para ele, supera, em grandeza, o valor histórico dos povos gregos e latinos, ainda que reconheça que estes se glorificaram pelas "navegações grandes que fizeram" e pela "fama das vitórias que tiveram".
Na invocação, composta pelas estrofes 4 e 5, em que o poeta pede às musas a inspiração para realizar seu canto, notamos as intenções do poeta quanto à envergadura da obra que planeja realizar.
Ao optar pelo desenvolvimento de uma epopéia, Camões pretende escrever uma grande obra. Tratando-se, pois, de gênero nobre, teria ele que não medir esforços para se pôr à altura dos poetas da Antiguidade clássica, até então os únicos "modelos" dignos de serem imitados. O estilo "sublime" que preside a epopéia exige dele grandiosidade estilística. Para isto apela às musas patrícias, pois o canto tem que estar à altura dos "[..]feitos da famosa/Gente vossa":
4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mi um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mi vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene. 5 Dai-me hüa fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no Universo, Se tão sublime preço cabe em verso.
O louvor, o engrandecimento, a glorificação e imortalização dos heróis, constituem uma árdua tarefa. Camões invoca as Tágides, que são as ninfas do Tejo, uma inovação do
53 poeta, mitificando o rio pátrio. A essas musas ele invoca em primeiro lugar, pedindo ajuda para o seu canto. Pede-lhes que lhe propiciem "um som alto e sublimado" e "um estilo grandíloco". O poeta é consciente da grandiosidade estilística do canto épico já consagrado pelos épicos da Antiguidade clássica, com os quais pretende rivalizar e até superar:
E vós, Tágides minhas...
... Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.
Fica evidente, nestes fragmentos da invocação, a pretensão de Camões de que seu poema seja maior que as epopéias que lhe servem de modelo.
Na estrofe 5 pede uma "fúria grande e sonorosa", uma inspiração vibrante e um estilo imponente, próprio da epopéia, e não "agreste avena ou frauta ruda", relativo ao lirismo pastoril, "mas de tuba canora e belicosa", instrumento próprio para cantar feitos de guerra.
Consciente da dimensão da empresa que abraça, mas também confiante em sua genialidade, o poeta almeja realizar uma obra tão valorosa quanto os feitos que irá cantar, "Dai-me igual canto aos feitos da famosa/Gente vossa". Tinha ele, por certo, consciência de que sua obra seria mais importante que os próprios feitos que se propunha imortalizar: "Que se espalhe e se cante no universo/Se tão sublime preço cabe em verso".
A seguir o poeta dedica sua obra ao rei D. Sebastião, estruturando a dedicatória à maneira de um discurso oratório, composto de exórdio, exposição, confirmação, peroração e epílogo:
6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antiga liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, (que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande);
7 Vós, tenro e novo ramo florecente De hüa árvore, de Cristo mais amada Que nenhüa nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas e deixou As que Ele pera Si na Cruz tomou
8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro, Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando dece o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco Oriental e do Gentio Que inda bebe o licor do santo Rio:
As estrofes 6, 7 e 8 compõem o exórdio. Nele o poeta dirige-se ao rei, declarando-o enviado providencial para assegurar a independência de Portugal, continuando a obra da dilatação da Fé e do Império, "bem nascida segurança/Da lusitana antiga liberdade". Descendente de uma dinastia mais importante dentre todas da Europa, "tenro ramo florescente" e alto rei de um mesmo império e seu poderoso baluarte contra os inimigos, ismaelitas e turcos. Estes povos eram o inimigo iminente de Portugal, principalmente em razão da divergência religiosa.
O conteúdo dessas estrofes reflete a grande expectativa do povo português num rei que encarnava a única esperança de continuação da autonomia política e da difusão do Cristianismo. Esta esperança era depositada em D. Sebastião (1554-1578), o desejado, por ser ele derradeiro sucessor ao trono português. Não havia ainda nascido quando morre seu pai, em 1554, o Infante D. João, filho do rei D. João III, que veio a falecer três anos após a morte do filho. Sucedendo ao monarca, D. Sebastião, ainda criança, o Governo fica sob a Regência de D. Catarina, sua avó e tutora, que se retira para a Espanha em 1562, passando a Regência
55 ao tio-avô do menino, D. Henrique, Cardeal Arcebispo de Lisboa e Inquisidor-Mor. Ao completar 14 anos de idade, em 1568, D. Sebastião é declarado maior, assumindo o poder.
Apesar da pouca idade, mas formado sob a doutrina dos Jesuítas, empenhados na Contra-Reforma, estava o rei imbuído do ideal de conquista e da dilatação da Fé cristã. Entretanto, sua inexperiência na área militar e seu desequilíbrio comportamental, incompatível com a realeza, entre outras razões, pela imaturidade, fragilizaram seu reinado, para maior angústia e desespero de seu povo, conforme o registro histórico de Serrão (1980, p.70):
A doença deve ter contribuído para uma personalidade não equilibrada - falta de bom senso, tendência impulsiva, fraco poder de reflexão, capricho em se ver obedecido -, marcas próprias da educação que recebeu e do ambiente em que centrou a vida. Houve nele um conceito de auto-suficiência que acabou por conduzir ao desastre. Elevado à realeza desde os verdes anos, cresceu D. Sebastião num meio adulatório, convencido talvez de que o seu nascimento, tão desejado, recebera a graça divina para garantir a independência do Reino. Amado e obedecido como derradeira vergôntea da realeza, com as ilusões próprias da idade juvenil, identificando a sua pessoa com o próprio trono, deve ter julgado que sua missão terrena podia contar com a aliança da Providência e que esta somente lhe reservaria triunfos como "bem nascida segurança" da coroa nacional.
Camões, inobstante a sua visão realista, comungava com o povo na esperança depositada no jovem rei, última esperança que alimentava o ideal de independência, visto que não havia outro sucessor ao trono português.
Na exposição composta pelas estrofes 9, 10 e 11 o poeta pede a D. Sebastião que ponha os olhos no poema que fez e ora lhe dedica, desinteressadamente, no qual ele verá os grandes feitos dos portugueses, feitos reais e não fingidos, superiores àqueles narrados nas antigas epopéias. Desta forma, o rei poderia julgar se seria mais feliz como rei de tal gente (portuguesa) ou como rei de todo o mundo:
9 Inclinai por um pouco a majestade Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno Templo; Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos devulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno; Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor supremo, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de tal gente. 11 Ouvi: que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas Que excedem as sonhadas, fabulosas, Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro E Orlando, inda que fora verdadeiro.
Camões declara que escreve seu poema por puro amor à pátria, porém deixa transparecer novamente, neste passo, sua certeza quanto à repercussão de seus versos, que o farão conhecido "Que não é prémio vil ser conhecido/Por um pregão do ninho meu paterno". Roga ao rei que atente para o seu canto, pois nele é glorificado o povo lusitano, que deveria ser motivo de orgulho para o soberano.
O poeta compara os feitos heróicos cantados n'Os Lusíadas com as epopéias clássicas e renascentistas, afirmando a superioridade de seu canto, por se constituir de fatos e não de fábulas como os outros, confirmando, assim, a veracidade como premissa de sua obra.
As estrofes 12, 13 e 14, são a confirmação do que o poeta disse antes, ou seja, a promessa de cantar os heróis verdadeiros, cujos feitos excedem em valor os dos heróis fabulosos cantados nas outras epopéias:
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12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço, Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero A cítara par'eles só cobiço;
Pois polos Doze Pares dar-vos quero Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois, se a troco de Carlos, Rei de França,
Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou, com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro;
O quarto e quinto Afonsos e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que, nos Reinos lá da Aurora Se fizeram por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora, Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte
Neste passo, o poeta nomeia os heróis de sua epopéia, rivalizando com os heróis consagrados pela épica clássica e com os vultos gloriosos da história universal. Assim, apresenta os heróis da verdadeira história de Portugal, elevando-os em relação aos heróis- mitos das outras epopéias, que são, para o poeta, histórias "fantásticas, fingidas, mentirosas".
Em primeiro lugar, são citados aqueles que se destacaram nos feitos militares desenvolvidos na Península Ibérica, pela independência e consolidação da soberania do Condado portucalense, tais como, Nuno Alvares, Egas Muniz e D. Fuas Roupinho, para os quais Camões deseja cantar com a mesma imponência da lira de Homero (o maior dos poetas épicos), "que de Homero/para eles, a cítara só cobiço"; e, ainda, destaca Vasco da Gama, protagonista d'Os Lusíadas, "o ilustre Gama", cuja aventura é mais famosa que a de Enéias, herói virgiliano.
Em segundo lugar, o poeta cita D. Afonso Henriques, que proclamou-se o primeiro rei de Portugal, cuja glória faz sombra a qualquer outra glória estrangeira, comparando-o a Carlos, rei de França e a César, Imperador de Roma, "[...] a troco de Carlos, rei de França/ou de César, quereis igual memória/Vede o primeiro Afonso, cuja lança/Escura faz qualquer estranha glória"; assim como os Afonso IV e V, que reinaram posteriormente.
Em terceiro lugar, promete o poeta não deixar de cantar em seus versos aqueles que se destacaram na conquista do Oriente, "Aqueles que nos Reino lá da Aurora/Se fizeram por armas tão subido". São eles: Duarte Pacheco, "Pacheco fortíssimo"; D. Francisco de Almeida e seu filho D. Lourenço de Almeida, "os temidos Almeidas"; D. Afonso de Albuquerque, o "terríbil"; e D. Joaõ de Castro, "Castro forte", além de outros, considerados imortais, "E outros em quem poder não teve a morte".
Na peroração (15,16 e 17) o poeta elogia o rei incitando-o a continuar a luta na terra e no mar, na África e no Oriente, prevendo para ele vitórias:
15 E, enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que polo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.
16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver, o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
Tethys todo o cerúleo senhorio
Tem pera vós por dote aparelhado, Que, afeiçoada ao gesto belo e tento, Deseja de comprar-vos pera genro. 17 Em vós se vem, da Olímpica morada,
Dos dous avós as almas cá famosas;
Hüa, na paz angélica dourada,
Outra, polas batalhas sanguinosas. Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas;
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E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade.
Camões escusa-se por não poder cantar o rei, "enquanto eu estes canto - e vos não posso", pois não encontra palavras para tecer-lhe o canto à altura, bem como o rei é muito jovem ainda (ascendeu ao trono aos 14 anos de idade), não tendo realizações a serem enaltecidas, mas tão somente a sua predestinação divina à realeza, "Em vós se vem da Olímpica morada/Dos dous avós as almas cá famosas" (17, vv.1-2), como era o pensamento da época a seu respeito.
O poeta o incita a empreender as ações que dele se esperam, no plano político-militar "tomai logo as rédias, Vós do Reino vosso", pois assim será cantado como nenhum outro, "dareis matéria a nunca ouvido canto". Conota-se, nesta parte da dedicatória, um tom de sutil advertência, que irá se acentuar no final do poema, quando Camões retoma a dedicatória.
É relevante esclarecer que a iminente ameaça à soberania de Portugal, ao tempo de Camões, motivou a mobilização do espírito nacional, através de um ideário de independência, levando o povo a agarrar-se com toda a sua fé na única promessa de salvação, que era D. Sebastião. Porém, a inexistência de herdeiro dava causa ao sentimento de instabilidade e apreensão, temendo-se que a falta de um sucessor levasse o reino à desgraça, como, de fato, veio a ocorrer.
Em 1578, o rei D. Sebastião desapareceu na famosa batalha de Alcácer-Quibir. Não deixando herdeiro ao trono, ensejou-se uma longa disputa pela sucessão. Entre os pretendentes estava Filipe, rei da Espanha, que anexou Portugal ao seu império em 1580. O domínio espanhol duraria sessenta anos (1580 a 1640). Criou-se nesse período o mito popular do "Sebastianismo", segundo o qual, D. Sebastião retornaria para reerguer o império português.
Para Serrão (1980), poucas épocas mereceram tanto interesse histórico e, apesar da vasta documentação, continua o debate em torno da figura régia que ficou como símbolo da perda da independência. Trata-se de um reinado controvertido. D. Sebastião, formado sob a influência religiosa dos Jesuítas, incorporou o espírito de militância da Contra-Reforma, que se traduziu na busca de um ideal heróico apoiado na força das armas como meio de impor a Cristandade. Tal idealismo fundou o conceito, em seu tempo, de rei cavaleiro e defensor da fé, "maravilha fatal da nossa idade", no verso camoniano. Baseado nisto, afirma Serrão: "A apreciação do reinado não pode assim ignorar a força de uma educação que marcou poderosamente o jovem monarca e fez dele um símbolo que muita gente do tempo procurou seguir" (p. 64).
Vemos, no entanto, que Camões, embora comungasse com esse ideário de independência, demonstrado através de vários versos compostos nesta dedicatória em reverência ao rei e em exaltação ao espírito de patriotismo, jamais deixara de enxergar o torpor com que estava sendo conduzido reino pelo jovem monarca, com visíveis sinais de decadência.
No epílogo, contido na estrofe 18, o poeta suplica ao rei que aceite benevolamente Os Lusíadas:
18 Mas, enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento,
Pera que estes meus versos vossos sejam,
E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado.
Camões reforça, enfim, o pedido de proteção ao poema, "Daí vós favor ao novo atrevimento", e de aceitação de seus versos, para que assim, aqueles que sacrificam suas vidas pelo reino, singrando os mares revoltos, "cortando o salso argento", possam sentir que são
61 reconhecidos por seu rei, "Que são vistos de vós no mar irado", e, deste modo, enquanto ainda não possui o domínio de todo o império que lhe está reservado, "enquanto este tempo passa lento/De de regerdes os povos, que o desejam", vai já se acostumando a ser venerado.
Podemos também depreender deste apelo feito ao rei, uma segunda intenção do poeta, que se traduz em lição de humanismo. Camões não se limita a suplicar o favor para a publicação de sua obra, mas também que o rei atente para a importância dela como um legado de honra àqueles que, na obscuridade, labutam em prol da soberania da pátria, enfrentando as