A sociedade pós-moderna, onde em algumas relações sociais predomina um sentimento de indiferença mediante as aspirações coletivas, apresenta-se vazia em relação às perspectivas de transformação social, das utopias revolucionárias. Trata-se de uma fase cool, nos termos de Gilles Lipovetsky, em que as aparências são mais do que
13. G. Debord. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997. p.16. Sobre a concepção de espetáculo em Debord, ver também A. Japp, Guy Debord. Petropólis, Vozes, 1999.
14. Nos anos 80, bandas inglesas como The Smiths, Joy Division e The Cure tornaram-se objetos de veneração por parte da juventude. As letras de suas músicas, tinham como tema o amor perdido, a vida solitária e a falta de perspectiva da vida moderna.
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nunca apenas aparências, sejam da rebeldia estilizada ou da tristeza estereotipada. Tudo o mais não importa, no seu entender, interessa o fragmento ao invés do todo, quando o indivíduo, influenciado pelos ares da democracia dos meios de comunicação tem sempre algo a dizer, a exprimir, mesmo que se trate de uma mensagem sem sentido, dirigida a platéias ínfimas, apenas para fazer valer o prazer narcisista.
Esta sociedade, acima de qualquer coisa, notadamente marcada pelos “serviços”, substituiu princípios reguladores como revolução e produção pelo princípio da sedução.
“(…) Longe de se circunscrever às relações interpessoais, a sedução tornou-se o processo geral que tende a regular o consumo, as organizações, a informação, a educação, os costumes. Toda a vida das sociedades contemporâneas é doravante governada por uma nova estratégia que destrona o primado das relações de produção em proveito de uma apoteose das relações de sedução”15.
Assim, o espetáculo confirma-se como o principal elemento mitificador da realidade, do jogo das aparências.
A oferta de uma gama variada de produtos e serviços, da programação das TV’s a cabo às vitrines das lojas de departamentos, entre outras coisas, promove a autonomização do desejo, personalizando o princípio da sedução. Noutros termos, aquilo que é necessidade varia em função do indivíduo e não do coletivo social. A sedução reforça o âmbito privado, provocando uma autonomia do indivíduo mediante o coletivo. A tecnologia e as maravilhas eletrônicas como o vídeo cassete, o computador de uso pessoal, libertam da vida social, isolando o indivíduo, provocando, dessa forma, perspectivas ilusórias, irreais, acerca da sociabilidade em seus diversos aspectos. Não é mais preciso sair de casa para se divertir ou mesmo exercer algumas profissões. A
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tecnologia e o consumo das últimas novidades digitais poupam tais esforços. A teia de relacionamentos diretos tornou-se menor. Os “amigos” também podem ser apenas da internet, das comunidades do orkut numa cadeia virtual de interesses e contatos. Até o comércio também pode ser configurado dessa forma com as compras nos sites especializados onde até a referência da credibilidade do vendedor se faz pela consulta virtual.
Entretanto, afirma Lipovetsky,
“(…) esquecemo-nos demasiadas vezes de considerar a fase complementar e inversa do fenômeno: a acentuação das singularidades, a personalização sem precedentes dos indivíduos. A oferta em abismo do consumo desmultiplica as referências e modelos, destrói as fórmulas imperativas, exacerba o desejo do indivíduo de ser plenamente ele próprio e de gozar da vida, transforma cada um num operador permanente de seleção e de combinação livre, é um vetor de diferenciação dos seres (…).” (LIPOVETSKY, 1989: 101)
O hedonismo é, então, um dos marcos dos tempos atuais. A irresponsabilidade, por assim dizer, com o social, transformou o indivíduo em um neo-narciso (IBIDEM: 104), descompromissado com as grandes causas, sem nenhum tipo de culpa moral ou afeição ao espírito de coletividade. O consumo encarregou-se de universalizá-lo, de criar regras específicas para sua aceitação ou rejeição. Por outro lado, este processo contribuiu para o desenvolvimento de uma arte pobre em criatividade, voltada para o esteticismo, gerando símbolos de sua manifestação vazia, como a violência generalizada vinculada pelos meios de comunicação de massa e com referência na realidade. Tal violência aparece em alguns filmes, sem motivação aparente, aparentemente incorporada ao
15. G. Lipovetsky. A Era do Vazio - ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa, Relógio D’Água, 1989. p. 17. Ver aqui também Zygmmunt Bauman, O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Rio de
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cotidiano dos indivíduos. Nesse sentido, o cinema elabora sua leitura particular do mundo, fugindo, dessa forma, da idéia de representação pura e simples. Os filmes, são o resultado de um recorte elaborado pelo artista que é o principal responsável pelo seu processo de criação, o diretor. No momento que envolve a filmagem e a montagem, ele imprime uma marca particular, promove a recria
significados específicos. Tem sido assim desde A
Viagem à Lua, de Georges Méliès, filme de 1902 que
marca a introdução definitiva da ficção como parâmetro da criação cinematográfica.
Ao longo de todo o século XX, o cinema se tornou arte. Desenvolveu sua própria estrutura narrativa e uma linguagem própria. Relacionou-se com a vida das pessoas, criando mitos, difundindo idéias e atitudes, dimensionando e redimensionando as relações sociais do mundo contemporâneo. Virou objeto de desejo, ligado a outros tantos como a moda e formação de grupos de interesse por determinados temas como a ficção científica, entre outros. O cinema mudou a estrutura da arte no século XX e elevou a imagem a uma condição relevante de importante componente da vida das pessoas.
Janeiro, Zahar, 1998; D. Lyon, Pós-Modernidade. Rio de Janeiro, Zahar, 1998.
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“Telas nos informam e nos formam; telas nos colocam em contato com o mundo; telas nos controlam; telas expressam nossos desejos e ampliam nossos sentidos;
telas registram, reproduzem, produzem, criam; telas descobrem nossa consciência e nosso corpo; telas dão conta de nossa felicidade e de nossa doença…”
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