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5. Empiriskt resultat

5.1.3 Styrelsens sammansättning

simbólica do climatério. Todavia, vale a pena ressaltar que não temos a

intenção de generalizar esta constatação, mesmo que reforçada pelos

versos de uma cantora bastante popular para as mulheres brasileiras.

Fazê-lo seria, sem dúvida, um exercício de simplificação da realidade

percebida através de um conteúdo representacional particular. A opção,

neste estudo, pela teoria das representações sociais tem em vista

exatamente não obscurecer a complexidade das produções psicossociais

referentes ao objeto em questão. Por isso, partimos do pressuposto que

os sinais ( tidos por muitos como sintomas ), as imagens, as atitudes, o

sentido, enfim, todas as produções mentais referentes ao climatério são

construídas numa relação indissociável entre a dimensão cognitiva e a

dimensão sócio-cultural. Os sentidos atribuídos ao objeto

representacional, como ressalta Denise Jodelet (1989), resultam de uma

atividade que faz a representação ser uma “construção” e, ao mesmo

tempo, uma “expressão” do sujeito. A representação social é sempre

representação de qualquer coisa (objeto concreto ou abstrato) construída

por alguém.

A atividade de construção representacional deve considerar, pois, tanto os processos cognitivos ( o ser humano considerado de um ponto de vista

epistêmico ), quanto os mecanismos intrapsiquicos ( projeções, fantasias, impulsos instintivos, traços identitários, entre outros ). O ser humano, ainda conforme Jodelet (1989), é visto também de um ponto de vista psicológico. Mas, esta autora vai mais longe. A particularidade do estudo das representações sociais está no fato do mesmo integrar, no processo de uma construção, o pertencimento e a

participação social e cultural de cada pessoa. É isto que diferencia

fundamentalmente a teoria da Serge Moscovici das abordagens centradas sobre uma ótica essencialmente clínica ou cognitiva.

Partindo, portanto, desta perspectiva teórica, podemos perceber que as profissionais da saúde objetivam e ancoram o objeto representacional climatério a partir de uma atividade cognitiva intrinsecamente ligada à sua subjetividade, aos sistemas culturais e identitários aos quais pertencem e que são, por sua vez, a reprodução, no plano micro dos grandes traços culturais da sociedade brasileira. Como vimos até aqui, o eixo semântico “velhice” organiza todos os demais

elementos discursivos presentes nas falas quando fazem referência às pessoas na “meia-idade”. Fase da vida em que a trabalhadora começa a ser considerada pouco produtiva, começa a ficar “velha”. Como bem ressaltou a coordenadora do

programa da Maternidade Escola:

(...) ... todas as pessoas dão valor às mulheres jovens, até no trabalho (...). As mulheres de meia idade, quando ainda estão trabalhando, se reserva para elas, é sempre assim, os trabalhos menos pesados. Já dizem: ah, coloca isso para fulana porque ela está nessa idade já ... pode fazer isso muito bem. Então isso é uma coisa muito ruim para as mulheres e , se conseguirmos trabalhar todas essas mulheres nessa idade elas vão entrar na fase do climatério melhor (S 4).

Dada à supervalorização da juventude, como já ressaltamos anteriormente, e à ausência de uma tradição de políticas sociais destinadas à valorização da maturescência e senescência, na sociedade brasileira ficar mais velho, envelhecer,

é sinônimo de doença, exclusão da vida social, entre vários outros estigmas produzidos ao longo da história nacional.

Percebemos, nos discursos, portanto, tanto as implicações no plano

macrossocial: “uma mulher vestida adequadamente de acordo com a idade”, ou “já foi colocado na cabeça... a mulher chega numa determinada fase da vida, ninguém sabe porquê, geneticamente já é determinado, os ovários dela vão parar de

funcionar”, em conseqüência, ela vai ser “menos mulher”, terá cumprido o seu “dever sexual” ou seja, a sua função reprodutiva; quanto as implicações no plano microssocial, onde se pode melhor perceber a carga afetiva das discriminações e dos estigmas: “É uma fase de transição muito difícil”. “Muitas vezes ela é relegada pelo marido, pela família porque ela começa a se tornar uma pessoa idosa. Por isso ela precisa de ajuda”.

Constatamos que as profissionais da saúde apresentam uma relação muito estreita com o corpo, a estética corporal e os aspectos negativos socialmente atribuídos à velhice. Isto, na nossa visão, está relacionado ao fato de, para essas mulheres, o corpo e a preservação deste, representar para elas um capital social que precisa ser velado, conservado, a fim de render todas as satisfações

psicológicas e simbólicas acessíveis. Afinal, para quais grupos sociais se destinam as clínicas de estética, as cirurgias de lipoaspiração, os produtos de beleza mais sofisticados, enfim todos os produtos que prometem o prolongamento da juventude que se começa a perder? Para esse grupo de mulheres, o corpo, além de ser elemento de importante afirmação social (através da beleza e conservação) é também portador de uma força de trabalho bastante qualificada para o mercado.

Essas profissionais pertencem ao grupo que comumente chamamos de classe média ou que, numa classificação sociológica mais rigorosa, Domingos Sobrinho (1994,1997) denomina de “classe média assalariada” ( cma, a seguir ). Esta é formada por trabalhadores assalariados não manuais “detentores de uma

formação educacional elevada ( de nível secundário ou universitário ). São trabalhadoras e trabalhadores especializados, exercendo profissões novas ou renovadas, nascidas da ampliação dos serviços públicos ou paraestatais, da aceleração das inovações tecnológicas ou ainda da expansão do sistema educativo. No mundo do trabalho, a cma não é nem elite dirigente nem simples executora de tarefas, pois sua inserção privilegiada nesse universo permite-lhe uma certa margem de manobra e de poder no desempenho de suas tarefas. Ela se distingue ainda, no plano social, pelo seu estilo de vida, valores e comportamentos culturais, tanto das elites dominantes quanto do proletariado em seu sentido amplo. A cma constitui, portanto, a exemplo do que representaram os profissionais liberais no passado, o novo pólo de atração para as demais camadas médias desprovidas de representação social própria e a substância da nova forma Social desse agente que, em sentido amplo, denominamos de classe média brasileira. A estreita relação mantida pela cma com a Educação vai assegurar-lhe não só uma posição

privilegiada na estrutura social, mas também guiar a construção de uma identidade sócio-cultural específica. “A detenção de um saber sistematizado e especializado permite-lhe desenvolver uma visão de mundo estruturada e coerente, fundada sobre valores filosóficos, psicológicos, éticos que permitem guiar suas práticas quotidianas e dar sentido à vida” (DOMINGOS SOBRINHO, 1994, p.46). O exercício da profissão para a cma, como diz ainda este autor, não é apenas um meio para assegurar a sobrevivência material, como acontece freqüentemente no mundo do trabalho manual, onde o trabalhador executa fundamentalmente as tarefas que lhe são designadas, pelos superiores. O trabalho para os grupos que compõe a cma , confunde-se com uma fonte de prazer e realização profissional, mesmo que, do ponto de vista das condições materiais de sua realização, por vezes essas não sejam satisfatórias (DOMINGOS SOBRINHO, 1994, p. 22-24). Por conseguinte, se, como diz Jodelet (1989b), as representações sociais são uma construção e expressão das pessoas. Elas dão visibilidade aos sistemas identitários

das mesmas na medida em que, os sentidos atribuídos aos objetos, expressarão o resultado do trabalho cognitivo que o coletivo desenvolve durante o processo de construção das representações. Estas deverão, por sua vez, cumprir certas funções de preservação da identidade coletiva e do equilíbrio sócio-cognitivo exigido pela mesma.

As diferentes falas das profissionais deixam transparecer muitos indícios desse trabalho sócio-cognitivo de incorporação do novo nas suas vidas: o

climatério. Novidade que representa uma ameaça a mulheres qualificadas, capazes de exercer suas profissões ainda por muitos anos, porque ancorada em referentes culturais, como é o caso do signo velhice, de carga simbólica fortemente negativa. Esta constatação permite-nos ressaltar uma outra função das representações sociais que é a de orientar as pessoas com relação ao real, influenciando suas atitudes e ações. Esta função é que faz a representação ser uma reconstrução do objeto, pelo fato de ser uma extensão do ser humano – o que pode produzir três efeitos principais sublinhados por Jodelet (1989a): distorção, suplementação e supressão. No nosso caso, constatamos claramente os efeitos de distorção e suplementação.

Ora, do ponto de vista da ciência, o climatério não pode ser mais que uma fase do desenvolvimento biológico do organismo feminino. As formas pelas quais os sinais e anúncios do mesmo se exteriorizam são o resultado de construções sócio-cognitivas temporal e espacialmente datadas. Ao objetivar e ancorar o climatério no signo velhice, as profissionais da saúde preservam os atributos negativos do mesmo tal como existentes na cultura brasileira, “distorcendo”, alterando o sentido real do fenômeno. Mais ainda, ao considerarem o climatério como algo que “amedronta”, “fase muito difícil”, “processo doloroso”, estão

conferindo ao objeto características que o mesmo, fora do contexto sócio-cognitivo que lhe dá significação, não as possui. Temos, assim, um claro exemplo da

suplementação, da qual fala Jodelet (1989a, p.53), e que consiste em conferir ao objeto “atributos, conotações que não lhe pertencem propriamente”, numa operação cognitiva motivada muito mais pelo imaginário e pelas particularidades da inserção do humano no mundo social.

A não delimitação das dimensões fisiológica, cultural e psicossocial têm levado muitos profissionais, da própria área médica, a confundir outras

manifestações sintomatológicas, ou de ordem essencialmente simbólicas, com os anúncios do climatério. Montgomery (1997, p.53) é um dos autores que mais chamam a atenção para este fato, e exemplifica dizendo que sintomas como a amenorréia, o prurido vaginal, a mastodinia, entre outros, são comumente relacionados ao climatério. Incorporar estas dimensões ao estudo das

representações sociais é uma tarefa fundamental para não se reduzir o conceito à mera expressão de uma atividade cognitiva. Incorporá-las significa também assumir a complexidade e implicações desse tipo de abordagem. Sendo assim,

procuraremos evidenciar, a seguir, como as relações de gênero influenciam a construção do nosso objeto de estudo.

4.2 - As relações de gênero e a representação social do