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5. Drøfting

5.2.6 Stumme og falske konsonanter

Como sinalizado anteriormente, há também multiplicidade nas interpretações do recado do Morro. Vale comentar algumas delas, pela experiência poética a que se refere, suas tentativas de alcançar o reino das vaguesas poéticas e metafísicas das quais fala o escritor.

Quem ouve o recado, de início, é Gorgulho. O episódio ocorre no mesmo instante no qual se depara com os viajantes da comitiva, logo no início da narrativa. Além do fato de ficar indefinido pela fala do personagem se o recado do Morro seria para Pedro somente, ou para os viajantes, como evidenciei no capítulo primeiro, vale observar a maneira como o recado é plasmado na narrativa de diferentes modos. A forma escolhida no caso de Gorgulho é o diálogo. Só posteriormente, o recado será comunicado oralmente por Gorgulho aos outros viajantes, naquele momento em que param, à sombra da Gameleira, para descansar e fazer a primeira refeição, ainda no primeiro dia da viagem.

Explicando possíveis influências que teriam presidido a criação literária de

Corpo de Baile, João Guimarães Rosa, afirma a Edoardo Bizzarri:

(...) eu mesmo fiquei esperando de ver, a posteriori, como as novelas, umas mais, outras menos, desenvolvem temas que poderiam filiar-se, de algum modo, aos “Diálogos”, remotamente, ou às “Eneadas”, ou

ter nos velhos textos hindús qualquer raizinha de partida. Daí, as epígrafes de Plotino e Ruysbroeck.170

Por essa via, a das influências literárias, Rosa vincula-se à toda tradição literário- filosófica que se serviu da forma Diálogo para compor aspectos da arquitetônica de sua Literatura. A estrutura dialógica de Grande Sertão : Veredas e de “Meu tio, o Iauaretê” são casos singulares a esse respeito, pois transfiguraram algumas das preocupações que permearam a escrita rosiana, bem como evidenciam sua habilidade na releitura da tradição que se serviu dessa forma narrativa. E, em se tratando de uma sociedade como a brasileira, na qual predominou formas de autoritarismos – salvo poucos momentos de sua história (os “saltos do peixe”) – a escolha dessa forma narratológica pode conter segundas, terceiras e quartas intenções171. Suzana Lages arrisca algumas sugestões. Para ela,

Guimarães Rosa encontra no diálogo uma matriz não só para a sua produção literária, mas também para o seu projeto de Literatura, ou seja, para a sua visão da função social da Literatura. Para ele, o exercício da Literatura se dá como um detonador de conflitos, permitindo uma reflexão multiface sobre o movimento mesmo do pensamento. É no campo do dialógico que se abre a possibi-lidade (sic.) de que surjam e se multipliquem as “anfractuosidades” da língua como jogo que pluraliza a significação, libera o pensamento de toda e qualquer inscrustração ideológica ou dogmatismo, permitindo a convivência das posições mais contraditórias.172

Em “O Recado do Morro”, destaco o momento em que acontece o cifrado diálogo entre montanha e Gorgulho. Vejamos:

170 ROSA, 2003, p. 90.

171 Marilena Chauí escreveu curto, porém incisivo estudo sobre o autoritarismo no Brasil, que está

referenciado ao final desta dissertação. Acredito que a questão do diálogo como forma discursiva em escritores como Guimarães Rosa, e muitos dos representantes daquela Literatura pós-64, a exemplo de Osman Lins, assumiu outras dimensões políticas.

E, nisso, de arranco, ele esbarrou, se desbraçando em gestos e sestros, brandindo seu cacete. Fazia espantos. Falou, mesmo, voz irada, logo ecfônico:

– Eu?! Não! Não comigo! Nenhum filho de nenhum... Não tou somando!

Tomou fôlego, deu um passo. Sem sossegar:

– Não me venha com loxías! Coisas que não entendo, não me praz: é agouro!

E mais gritava, batendo com o alecrim no chão: – Ôi, judengo! Tu, antão, vai p‟r‟ as profundas!...

De tanta maneira, sincera era aquela fúria. Silenciou. E prestava atenção toda, de nariz alto, como se seu queixo fosse um aparêlho de escuta. Ao tempo, enconchara mão à orêlha esquerda.

Alguém também algo ouvira? Nada, não. Enquanto o Gorgulho estivera aos gritos, sim, que repercutiam, de tornavoz, nos contrafortes e paredões da montanha, perto, que para tanto são dos melhores aqueles lanços. Agora e antes, porém, tudo era quieto. (...)

– “H‟hum... Que é que o morro não tem preceito de estar gritando... Avisando de coisas...” – disse, por fim, se persignando e rebenzendo, e apontando com o dedo no rumo magnético de vinte e nove graus nordeste.

Lá – estava o Morro da Garça: solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide.173

A primeira experiência com o recado vem na forma de um diálogo no qual, porém, só lemos as falas de Gorgulho, mas que refletem, na estrutura dialogal fixada no texto, as supostas falas silenciosas do Morro. Ao modo de Riobaldo em Grande Sertão :

Veredas e do narrador da estória de Tonho Tigreiro, mais uma vez o escritor retoma a tradição dos diálogos. Nós, os narratários da estória, estamos na mesma condição dos viajantes do conto: não escutamos nada daquilo que a estrutura do texto rosiano nos fazer desconfiar existir. Algo “importante” se passou ali, a despeito de nossa incapacidade de escutar, de experimentar o fato em si.

A segunda interpretação do recado do Morro que gostaria de destacar aqui acontece na fazenda de dona Vininha, quando os viajantes preparavam a viagem de retorno para Cordisburgo. O menino Joãozezim ouve o recado de Catraz, irmão de

Gorgulho, e o repassa ao Guégue, o imbecil da fazenda. O que chama a atenção nela é o modo sem palavras pelo qual Guégue memoriza a mensagem. O debate que parece ser proposto pelo escritor é o da representação artística. O que foi dito por Joãozezim é, por Guégue, reinventado noutra linguagem, a da mímica, como na arte dramática, no teatro. Portanto, se é interessante observar as permanências e as alterações arbitrárias de cada um dos intérpretes quanto ao conteúdo do recado como vem sendo sugerido pela crítica, parece-me também necessário considerar os modos (e os veículos) pelos quais a mensagem é re-transmitida. Guimarães salienta a importância de estarmos atentos mais para o como se diz, do que para o que se diz, advindo daí a “Alegria do jogo das palavras”. Cada personagem se serve de uma forma de expressão, de linguagem; ou melhor, cada um deles nos faz considerar diferentes modos de representação daquela mensagem trazida pelo Morro. Por aí, quem sabe, damos mais um passo, avançando na “multiplicidade de conotações” próprias do movimento da crítica em relação à obra de Rosa, esses “estouros de boiadas”. Descreve Joãozezim o seguinte:

– O recado foi este, você escute certo: que era o rei... Você sabe o que é o rei? O que tem espada na mão, um facão comprido e fino, chama espada. Repete. A bom... O rei tremia as peles, não queria ser favoroso... Disse que a sorte quem marca é Deus, seus Apóstolos. E a Morte, tocando caixa, naquela festa. A Morte com a caveira, de noite, na festa. E matou à traição...

O menino Joãozezim falava desapoderado, como se tivesse aprendido só na memória o ao-comprido da conversa. E queria uma confirmação de resposta, saber do Guégue. Mas, enquanto a esperava, não podia deixar de mexer os lábios, continuasse a reproduzir tudo para si, num sussurro sem som.

Mas o Guégue não sabia dar opinião, apenas repetia, alto, as palavras; e, no intervalo, imitava com o cochicho de beiços. Representando por gestos cada verdade que o menino dizia: sungava as mãos à altura de um homem, ao ouvir do rei; e apontava para o morro, e mostrava sete dedos pelos sete homens, e alongava o braço por diante, para ser a espada, e formava cruz com dois dedos e beijava-a, ao nome de Deus; e batia caixa com as mãos na barriga, e com uma careta e um esconjuro figurava a aparição da Morte. Tudo, por seus meios, ele recapitulava, e pontuava cada estância com um

feio meio-guincho. Mas Pedro Orósio, que via e ouvia e não entendia, achava-lhe muita graça.174

Passo, aqui, a expor a terceira situação em torno da interpretação do recado. A interpretação de Nominedomine já foi anteriormente abordada. Para ele, é a mensagem trazida por um anjo, um anjo papudo: “um arcanjo sabe o poder de palavras que acaba de sair da tua boca . . .”175 Ela consiste no debate sobre o nascedouro da poesia

fundante, portanto, anterior à linguagem. Porém, é Nominedomine quem repassa a mensagem ao Coletor. E isso acontece porque quando a comitiva amanhece o sábado em Cordisburgo, ela assiste à chegada de Nominedomine na cidade que, como sempre, anuncia o fim do mundo. Quanto a essa busca da poesia que podemos supor alcançar em sua companhia, observemos que ele adentra a cidade gritando: “„... É a Voz e o Verbo... É a Voz e o Verbo‟”.176 Além disso, afirma ser ele mesmo “o zerinho zero, malemal

uma humilde criatura do Senhor: eu nem sou a Voz...”.177 Porém, o narrador retruca, e

afirma que “A voz do Nominedomine, em seu despropósito de urgente felicidade” sentia uma “Alegria maluca e santa”178; e completa:

Aí, quando iam acabando de subir a ladeirinha, e chegando lá – êle parou. Esbarrou de tocar, de um ponto curto, no coração da gente, que se tonteou. Como quando uma cigarra graúda de dezembro está tinindo muito perto, e acaba.179

Essa passagem lembra-nos Grande Sertão : Veredas, quando Riobaldo afirma que no momento em que estamos a um passo de alcançar nossa maior Alegria, aquilo

174 ROSA, 1965, p. 34-35. 175 ROSA, 1965, p. 39-40. 176 ROSA, 1965, p. 46. 177 ROSA, 1965, p. 47. 178 ROSA, 1965, p. 47. 179 ROSA, 1965, p. 48.

que está, pelo destino, determinado para nós, algo o afasta, vem o sertão e sorrateiramente nos toma. Isso serve como metáfora para a busca da poesia.

Porém, é para o Coletor que Nominedomine repassa o recado. Outro louco que surtou de vez, após perder toda a sua riqueza. Desde então vive pela vila de Cordisburgo a fazer gigantescas contas matemáticas, preferencialmente nas paredes brancas da igreja matriz, calculando o tamanho de sua fortuna. Vale notar que é a interpretação matemática do Coletor acerca do recado do Morro aquela que precede à forma musical impetrada por Laudelim Pulgapé e que também é matemática. Támbém vale notar o fato de que no texto bíblico o outro nome dado a Hiram Abiff é “Coletor”, naquele caso, de impostos180. Assim é descrito o personagem:

Bem dizer, nem nunca tinha sido coletor, nem aquêle era nome válido. Transtornos e desordens da vida, a peso disso ensandecera. (...) De qualidade que, por azo, preferia a Matriz, por ter as maiores paredes brancas do arraial. Ia desalinhando números tão desacabados de compridos, que pessoa nenhuma era capaz de tabuar: seus ouros, suas casas, suas terras, suas boiadas no invernar, sua cavalaria de ótimas eguadas, seus contos-de-réis em numerário, cada lançamento daqueles era feito uma correição de formiguinhas prêtas enfileiradas. Aquele homem tinha uma felicidade enorme.181

E, ao receber o recado, cria nova interpretação para ele, aquela segundo a matemática, seu fascínio. Assim diz:

Por que Deus baixou ordens... Novecentos milhões. . . Nove, seis e um – sete. . . (...). Por assim, quantos números compunha, o Coletor não esbarrava de resmonear o sermão de Nominedômine, sem-pés-nem- cabeça. (...) Mas o Laudelim cismara tanto e tanto, enquanto estava ouvindo, seu rosto se ensombreceu, logo se alumiou ainda mais. (...) “Isso é importante!” – disse. E pendurou cara, por escutar mais – “. . . O extraordinário de importante”. . . tremer as peles. . . Cristãos sem

180 KNIGTH & LOMAS, 2002, p. 31. 181 ROSA, 1965, p. 52.

o que fazer. . . Quero ver meu ouro. . . Um danado de extraordinário!182

A Interpretação do Coletor remete, a meu ver, à construção da Pirâmide de Gizé, no Egito. A sequência de números: 9, 6 menos 1 – 7, é o cálculo da existência de Deus183, o que reforçaria o princípio, já comentado, da “Álgebra Márgica”, ou seja, de haver no universo uma unidade métrica que, de tão básica, é capaz de mensurar qualquer dimensão do universo: a relação entre rigor e indeterminação buscada por Rosa. Vale ressaltar que o apelido de um dos personagens do conto – Zé Azougue – é Jizé184, em referência imediata à pirâmide no Vale dos Reis.