As crianças produziram menos passivas do que os adultos. Sete crianças das 60 participantes do experimento não produziram passivas, nem nas imagens coloridas do prime ativo, que suscitavam uma sentença passiva; quatro crianças produziram apenas uma passiva, quando instigadas pela investigadora28; e uma criança falou somente três passivas. Isso totaliza 12 crianças, 20% das crianças testadas. Todos os adultos produziram passivas e quase 100% das sentenças ditas pelos adultos nas imagens do prime passivo (97,5%) eram sentenças passivas. Se retirarmos as 12 crianças que não produziram nenhuma (ou quase nenhuma) estrutura passiva e, dessa maneira, não se tem como verificar efeito de priming algum, o efeito de priming sintático se torna maior na produção das crianças. Se contabilizarmos somente as 48 crianças que produziram passivas na tarefa, a tendência de produção de uma estrutura passiva em uma imagem-alvo após uma imagem-prime “passiva” aumenta para 13,85%. A diferença entre a produção de passivas no prime passivo (13,85%) e na condição neutra (baseline trials) (8,1%) também aumenta, demonstrando um efeito de priming sintático no processamento da linguagem de crianças.
Duas crianças das sete que não produziram nenhuma passiva durante a tarefa do experimento produziram uma passiva no treino para o experimento e, quando induzidas pela pesquisadora, quatro das 12 crianças, como dito acima, produziram uma passiva. Os
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Quatro crianças produziram uma passiva somente quando a investigadora insistiu em uma mesma imagem-
prime “passiva”. Já que essas crianças não falavam passivas, depois da frase proferida pela criança na imagem, a
investigadora perguntava “e tem outra forma de falar sobre o que está acontecendo nesta imagem?”, “e se começássemos, por exemplo, dizendo “A menina foi...A menina está sendo...” como ficaria a frase?”. Com essa indução, essas quatro crianças produziram uma passiva para descrever a imagem em questão. As outras sete crianças que não produziram nenhuma passiva, não produziram passiva nem quando a pesquisadora insistiu em uma imagem-prime “passiva”. A imagem-prime “passiva” utilizada para “indução” era a imagem-prime 88, do verbo ‘empurrar’, em que uma menina era empurrada por um menino, que aparecia bem ao final do experimento, no prime 88 de 91 primes.
resultados sugerem que as crianças com 8 e 9 anos (média 8,73 de idade de nossos participantes) ainda tem margem para aprender sobre o uso da estrutura passiva com o efeito de priming sintático, sendo sensíveis ao efeito de priming, demonstrando uma aprendizagem implícita dessa estrutura.
Pode-se alegar que outro fator que não a sua habilidade gramatical parece ter influenciado às crianças a produzirem menos passivas, ou a não produzirem passivas em nossa tarefa. O’brien, Groalla, Lillo-martin (2006) dizem, em seu artigo, que muitas crianças não produzem passivas em situações experimentais porque os experimentos não satisfazem as condições de felicidade29 para a produção de sentenças passivas pelas crianças. Por exemplo, segundo os autores, para incitar a produção de passivas longas, três personagens devem aparecer na imagem ou na história contada para as crianças, para que seja relevante para criança mencionar o agente da passiva, isto é, quem fez a ação. No entanto, nosso experimento parece reunir as condições de felicidade para a produção da passiva: são imagens com somente dois personagens, mas todos os participantes adultos produziram passivas consideravelmente e, nas imagens-prime que suscitavam passivas, a produção de passivas pelos adultos foi de quase 100%. Além dos adultos, 80% das crianças produziram passivas, o que é maior do que o nível do acaso. Dessa maneira, nos parece que as condições de felicidade pra produção de sentenças passivas foram satisfeitas em nosso experimento.
Seguindo a conclusão de Perotino (1995) e Gabriel (1998), as sentenças passivas são mais frequentes na língua escrita em PB. Segundo o estudo de Gabriel (1998), à medida que os indivíduos avançam tanto em idade quanto em escolaridade, aumenta o uso das passivas. Dessa maneira, o uso menor ou o não uso das passivas por parte das crianças de nosso experimento pode vir de seu contato ainda incipiente com a leitura e a escrita, já que estão no terceiro ano do ensino fundamental. A produção de passivas pelas crianças pode ser reduzida devido à complexidade dessa estrutura, devido às suas características pragmáticas, semânticas e sintáticas específicas, e devido a sua frequência e função maiores na língua escrita em PB. Os adultos já estão há mais tempo inseridos no mundo da leitura e da escrita, a passiva é mais frequente em seu repertório e, talvez, a sua função na língua seja mais evidente. Além disso, temos outras estruturas em português que permitem que o participante afetado pelo evento ocupe a posição de sujeito, sem estar na voz passiva. Talvez essas construções sejam mais
29 Condições de felicidade são condições pragmáticas propícias para o uso de uma estrutura. No que se refere à
estrutura passiva, O’brien, Groalla, Lillo-martin (2006) argumentam que as condições de felicidade são bastante particulares, como já referido em estudos vistos no capítulo 2. Como vimos no capítulo 1, a estrutura passiva tem características semânticas, pragmáticas e sintáticas específicas, que precisam ser levadas em conta no design dos experimentos que visam à produção e compreensão dessas estruturas.
frequentes na oralidade, como construções com o verbo tomar, “a menina tomou um susto do menino”, ou com o verbo levar, “a mulher levou um susto do homem”, que foram bastante utilizadas pelas crianças. Dessa maneira, diante da tarefa de descrever uma cena transitiva em que o paciente está em evidência, as crianças recorrem a outras estruturas, talvez mais frequentes em seu dia a dia, que desempenhem a mesma função da passiva, topicalizar o não agente. Veremos, na seção a seguir, essas outras estruturas utilizadas tanto pelas crianças quanto pelos adultos no lugar da passiva em nosso experimento.