2. The Thesis
2.3. Study methodology
Para delimitar este âmbito específico de experiência de pesquisa é preciso, primeiramente, partir daquilo que difere os aspectos relativos às experiências pessoais, às experiências de engajamento e às experiências acadêmicas. A diferenciação entre estes três tipos de experiência reside nas condições metodológicas de produção do conhecimento, cuja emergência provém dos processos e relações sociais aqui estudadas. Esses três âmbitos de experiência, dentro dos quais desenvolvem-se uma série de interações com os catadores, se diferenciam por suas características em termos de produção de saberes. Os dois primeiros âmbitos podem ser caracterizados pela dimensão empírica da ação social em sua forma mais básica. Já a prática de pesquisa, enquanto outro âmbito de experiência, permite ao pesquisador a obtenção de uma “infra-reflexividade”, em virtude da consecução de uma interpretação de segunda ordem (MELUCCI, 2005, p. 33) capaz de ampliar a produção de conjuntos de significados e o consequente aprofundamento dos sentidos atribuídos às ações sociais e coletivas no interior das relações travadas neste referido movimento. Tal interpretação de segunda ordem diz respeito, conforme explicitado anteriormente, à potencialização tanto da capacidade do pesquisador quanto da própria capacidade do ator social de observar o modo
como se observa e como se interpreta as relações em que ambos se encontram inseridos (RANCI, 2005, p. 66).
Neste sentido, as relações estabelecidas tanto na condição de ator (engajamento sociopolítico) quanto na condição de pesquisador (interpretação de segunda ordem), acabam se tornando significativos “insumos” direcionados às práticas tanto de um como de outro. Isso porque, as relações que são estabelecidas no âmbito das práticas dos atores constituem a “matéria-prima” necessária à construção dos objetos de interpretação desta pesquisa, por outro lado, os sentidos de pesquisa produzidos a partir das interpretações reflexivas, no âmbito da referida prática investigativa, podem contribuir significativamente para o amadurecimento político das ações do MNCR/RS ao suscitar a prática reflexiva sobre as relações sociais e sobre os rumos tomados por estes atores. Estas são possibilidades proporcionadas pelas práticas de pesquisa que conferem a devida importância acadêmica e social às mesmas.
Em nível empírico, o que se verifica, portanto, é uma relação de confiança estabelecida entre mim e os catadores, da qual provém uma série de cooperações e trocas mútuas. Esta confiança se reflete em termos de uma abertura a minha participação nas instâncias tanto quanto nos assuntos que dizem respeito à organização do MNCR/RS. Esta abertura é o que contribui para a constituição dos espaços onde são realizados os feedbacks fundamentais para a consecução da metodologia reflexiva aqui empregada.
No entanto, conforme dito anteriormente, apesar de serem relevantes no sentido de constituição de espaços de feedbacks compartilhados, apenas ações de natureza engajada, não são suficientes para garantir respostas aos desafios sempre renovados que o MNCR/RS enfrenta no contexto da questão social da reciclagem. Porém, as limitações da condição de ator e a demanda por dar respostas às problemáticas sociais, políticas e econômicas dos catadores foram os elementos que definiram a escolha da própria temática de estudo sobre a constituição da reflexividade em um contexto desigual em que são articuladas redes sociopolíticas. Esta escolha que resulta, por conseguinte, de opções éticas e valorativas encontra-se circunscrita, portanto, no âmbito da política e não da ciência. Conforme ilustra Sobottka (2005, p. 52) ao fazer referência aos pressupostos metodológicos de Weber: “são os cientistas como cidadãos e não como cientistas que decidem o que é importante pesquisar e o que não”.
Outro importante fator de definição da escolha desta temática partiu da reflexão a cerca dos novos desafios para os quais sou motivado a procurar respostas enquanto cidadão engajado e enquanto pesquisador. Este fator provém do atual momento em que o MNCR/RS
se torna proponente de uma política de Coleta Seletiva Solidária8 (CSS). Tal política visa incluir os catadores de rua nos serviços de coleta de materiais recicláveis a serem prestados a prefeituras e municipalidades. A CSS vem sendo maturada há algum tempo pelo movimento, desde quando eram debatidos no âmbito do movimento os exemplos de Belo Horizonte em Minas Gerais, onde os catadores de rua faziam diretamente os serviços de coleta seletiva e eram pagos por este serviço. Posteriormente, o Projeto Revitalizando a Coleta Seletiva de Gravataí com Inclusão Socioeconômica, ou o chamado pelos atores da coordenação executiva do movimento de “projeto do subsídio”, projeto por mim sistematizado no início de 2008 através das discussões ocorridas no âmbito do MNCR/RS, era apresentado à Prefeitura Municipal de Gravataí. A apresentação do referido projeto veio a pautar o orçamento público deste município para o ano de 2009. Já no ano de 2010 a implementação desta política coincidiu com um projeto de formação, o CATAFORTE. Ambas iniciativas podem representar novas configurações nas dinâmicas de ação do MNCR em função das novas experiências e expectativas geradas na implementação desses projetos. Assim, o atual momento do MNCR tem demandado um grande esforço por parte destes atores para a estruturação de um modelo de política pública que tenha como mote a contratação direta das organizações de catadores como prestadoras de serviço às prefeituras na área de coleta seletiva de resíduos sólidos. Esta política encontra-se amparada juridicamente com a promulgação da “Lei do Saneamento Básico”9. Esta forma de encaminhamento da problemática da coleta feita por catadores de rua vem sendo negociada em municípios tais como Gravataí e Novo Hamburgo. Neste momento em que se apresentam estes desafios é que são geradas novas perspectivas para os atores ao mesmo tempo em que são renovadas as expectativas do próprio pesquisador. E que, por isso, devem ser explicitadas no marco desta pesquisa.
8 A coleta seletiva solidária no Rio Grande do Sul remete a noção de ser feita a partir do trabalho dos catadores de rua, tal como foi divulgado durante uma manifestação em frente à prefeitura de Porto Alegre no dia 9 de junho de 2005 , onde foi distribuído um adesivo com uma imagem de dois catadores de rua puxando um carrinho repleto de materiais contendo os dizeres: “Eu apoio a coleta solidária dos catadores de rua”.
9 Lei nº 11.445 de 5 de janeiro de 2007, a qual acarretou mudanças na Lei n° 8.666 de 21 de julho de 1993 onde em seu artigo 24, inciso XXVII se lê respectivamente que: É dispensável a licitação- na contratação da coleta, processamento e comercialização de resíduos sólidos urbanos recicláveis ou reutilizáveis, em áreas com sistema de coleta seletiva de lixo, efetuados por associações ou cooperativas formadas exclusivamente por pessoas físicas de baixa renda reconhecidas pelo poder público como catadores de materiais recicláveis (GOVERNO FEDERAL, 2009).