4. MAIN RESULTS 1. Paper I
5.4. Study limitations
Partimos, então, para a nossa breve reflexão sobre o contexto da literatura infantil nos referindo a Hunt (2010), que se contrapõe à ideia de que a Literatura Infantil é desqualificada ou inferior; o pesquisador defende que a Literatura Infantil se define exclusivamente pelo público leitor a que se destina e, por isso, torna-se uma literatura diferente e não menor. Para ele, a crítica literária em relação à Literatura Infantil precisa “de um modo de abordar a literatura infantil que nos ajude a fazer escolhas criteriosas a partir de princípios básicos”
(HUNT, 2010, p. 29). As escolhas da Literatura Infantil perpassam pelas reflexões de oferecer, também, para o pequeno leitor experiências estéticas e artísticas integrais.
Assim, a literatura infantil tem esse nome, de acordo com Cunha (1999), por ser uma literatura que agrada o gosto artístico e literário da criança. As obras da literatura infantil possuem determinadas características importantes para o gosto das crianças, que estão diretamente relacionadas ao desenvolvimento dessa faixa etária de leitores. Uma literatura que é adulta pode se tornar infantil, se atender às demandas e capacidades da criança. A literatura infantil, por sua vez, também é literatura de adultos quando benquista nas leituras desse público. Dessa forma, assume o caráter transitório, sendo, ao mesmo tempo que se destina para jovens e crianças, também pode se tornar escolhas de adultos.
De acordo com essa pesquisadora, a Literatura Infantil surge a partir do momento em que a vida infantil e o tempo da infância são vistos de uma forma diferenciada da vida e do tempo dos adultos - a partir do momento em que se reconhecem as particularidades e singularidades da vida infantil.
Inicialmente, assim como outros conhecimentos apropriados pela escola, a literatura específica para a criança destinava-se a ser normativa, informativa e enciclopédica. Dois foram os caminhos para a sua construção: o primeiro foi a adaptação de clássicos, como os de Perrault, irmãos Grim, e de histórias do folclore; o segundo foi a iniciativa tomada em cada país de se fazer um percurso para novas propostas da literatura infantil. No Brasil, essa iniciativa relacionou-se à construção de obras que orientariam o pedagógico. O marco de inovação no Brasil foi Monteiro Lobato, que escreveu uma obra diversificada, visando a diversos gêneros, exploração do folclore, imaginação, questionamento e inquietação intelectual, questões nacionais e uso do realismo e da fantasia.
A literatura infantil brasileira inicia sob a égide de um dos nossos mais destacados intelectuais: Monteiro Lobato. Se isso, por um lado, prestigiou o gênero no seu surgimento, por outro, fez com que, após Lobato, por muito tempo, a literatura infantil brasileira vivesse à sombra de seu nome. (CADEMARTORI, 2011, p.48)
Para chegar ao contexto da literatura infantil hoje, longos percursos foram percorridos, o campo literário recebeu diferentes contribuições e, assim, a produção hoje não é caracterizada apenas por obras simplificadas sem características marcantes da obra literária como um todo. Pelo contrário, a literatura infanto-juvenil pode ser definida como obras que possuem determinadas características, que chamam a atenção das crianças e jovens e levam em consideração as demandas de cada fase de desenvolvimento do leitor. Há diferentes modalidades que tratam diferentes assuntos e formas, que levam para as crianças em mais de
uma posição enumerativa (o adulto falando para a criança, o adulto se colocando no lugar da criança, o adulto transmitindo valores para a criança). No entanto, o que é significativo é reconhecer o que é uma obra da Literatura Infantil de qualidade. O que caracteriza a Literatura Infantil, de acordo com Cademartori (2010), é a sua destinação e o cuidado em construir possibilidades do leitor, sozinho ou mediado, dar sentidos e significados à leitura. Nessa lógica, é uma literatura que leva em consideração as demandas, as faltas e o que ainda será desenvolvido no pequeno leitor:
A literatura infantil se caracteriza pela forma de endereçamento dos textos ao leitor. A idade deles, em suas diferentes faixas etárias, é levada em conta. Os elementos que compõem uma obra do gênero devem estar de acordo com a competência de leitura que o leitor previsto já alcançou. Assim, o autor escolhe uma forma de comunicação que prevê a faixa etária do possível leitor, atendendo seus interesses e respeitando suas potencialidades. A estrutura e o estilo das linguagens verbais e visuais procuram adequar-se às experiências da criança. Os temas são selecionados de modo a corresponder às expectativas dos pequenos, ao mesmo tempo em que o foco narrativo deve permitir a superação delas. Um texto redundante, que só articula o que já é sabido e experimentado, pouco tem a oferecer. (CADEMARTORI, 2010, p.16)
Assim, a leitura literária direcionada para crianças e jovens é singular por levar em consideração os cuidados necessários para que esses novos leitores se interessem pela leitura. Dessa forma, há para cada faixa etária uma determinada preocupação com os elementos que deverão ser privilegiados: seres fantásticos, ilustrações, protagonistas e antagonistas, temas e outros. Essa preocupação não significa que a obra destinada aos jovens leitores é menos qualificada ou que deixa a desejar nas características da leitura literária, pelo contrário, são cuidados que se organizam para estimular as futuras leituras e escolhas literárias.
Cademartori (2010) afirma que a origem da Literatura Infantil vem de dois campos. O primeiro é o campo literário que inicialmente, foi considerado como “primo pobre”; o segundo é o campo educacional. Neste, a Literatura Infantil sempre ocupou um lugar de destaque e foi apropriada para contribuir para a formação do leitor, já que um dos objetivos da escola é a aquisição da leitura e da escrita, dentro do contexto do letramento, ou seja, que todo sujeito aprenda não só a decodificar a língua, mas principalmente compreenda a mensagem a ele direcionada e faça uso efetivo da cultura existente. Dessa forma, os livros da Literatura Infantil passaram a ser ferramentas importantes para o desenvolvimento das demandas da escola; seu uso escolar pode ser considerado como um dos endereçamentos desse campo literário, conforme afirma Paiva (2008):
[...] a literatura infantil cumpre um papel fundamental no processo de escolarização da criança, o que consequentemente, contribuiria de forma decisiva para a formação do futuro leitor; especialmente o leitor literário que poderá apreciar, a qualquer momento e ao longo de sua vida, a Literatura, com “L” maiúsculo, desfrutando, assim, da experiência estética proporcionada por essa manifestação artística. (PAIVA, 2008, p. 36)
A escola pode ser o espaço primeiro de formação de leitores e pode ser, além disso, o espaço que contribuirá para a formação de leitores literários. Esse espaço formador pode contribuir negativa ou positivamente nas futuras e possíveis escolhas dos leitores; para que isso venha a acontecer é importante ter a consciência da apropriação da Literatura Infantil feita pela escola. Para Soares (2006), é possível definir um uso adequado e um uso inadequado no contexto escolar.
Distinguimos entre uma escolarização adequada e uma escolarização inadequada da literatura: adequada seria aquela escolarização que conduzisse eficazmente às práticas de leitura literária que ocorrem no contexto social e às atitudes e valores próprios do ideal de leitor que se quer formar; inadequada é aquela escolarização que deturpa, falsifica, distorce a literatura, afastando, e não aproximando, o aluno das práticas de leitura literária, desenvolvendo nele resistência ou aversão ao livro e ao ler. (SOARES, 2006, p. 47)
A escola possui a responsabilidade de fazer um uso consciente da literatura, ao invés de usá-la apenas como pretexto para trabalhar com outros conteúdos, que são desenvolvidos no contexto escolar. O trabalho com a literatura infanto-juvenil pode possibilitar a formação crítica de um leitor literário, desenvolvendo comportamentos e habilidades que o levem a reconhecer as especificidades de um texto literário, sua organização formal, suas intenções, seus significados, além da possibilidade de realizar uma leitura por prazer.
Para que o leitor em formação tenha acesso à possibilidade de se tornar um leitor literário, é importante reconhecer que a leitura não é uma aquisição natural, mas acontece de forma sistemática e é mediada por um adulto. O contato sistematizado e direcionado, de forma consciente das necessidades e habilidades a serem desenvolvidas, com obras literárias desde a primeira infância, estimula e auxilia na formação do leitor, como afirma Ceccantini (2009):
Nesse contexto, deixa de lado a visão ingênua que, muitas vezes, imaginava a leitura como um caminho espontâneo e natural, percorrido apenas pelos que possuíssem uma “queda”, um “dom” ou um “pendor” para essa atividade, passou-se a um enfoque mais realista da questão, constatando-se que duas instituições – a família e a escola – assumem uma dimensão da maior relevância para o desenvolvimento do comportamento leitor da criança, com consequências diretas para a vida do potencial adulto leitor. (CECCANTINI, 2009, p.211)
O papel do mediador é também o de ser exemplo, ou seja, para que exista o estímulo à leitura, o adulto - professores, pais, bibliotecários - também precisa ser um leitor que goste de ler e reconheça a importância de promover momentos de leitura cotidianamente no processo de formação dos pequenos leitores. Dessa forma, a leitura não é usada apenas para um fim utilitarista mas, sim, para apresentar ao leitor em formação as diversas possibilidades com a leitura (trabalho lúdico e prazeroso, ampliação de conhecimentos sobre o mundo e construção de outras formas de lidar com a vida com bastante sentimento). Assim, a hora da leitura, a leitura deleite, tempo dedicado a contar e ler histórias para crianças é tempo de socialização, de partilhas, de expressões da arte, da sensibilidade. O contato com a leitura pode se estender para além da hora da leitura. Inciativas voltadas para a leitura literária, de acordo com Ceccantini (2009), são voltadas para a promoção do gosto de “ler por ler”. A função primordial do mediador de leitura, então, é:
[...] despertar um desejo autêntico de ler, ao contrário de fazer ler a qualquer custo, coisa, aliás que a escola tradicional sempre fez, e com resultados muitas vezes desastrosos e sobejamente conhecidos, vacinando gerações a fio contra a leitura. (CECCANTINI, 2009, p.216)
Assim, o formador assume a responsabilidade em escolher as obras a serem apresentadas e a forma como trabalhá-las com os sujeitos em formação. Paiva (2008) aponta três grandes grupos de temáticas produzidas, divulgadas e endereçadas para o público da Literatura Infanto-Juvenil. Essas produções estão diluídas nos gêneros prosa, verso, livros de imagem e histórias em quadrinhos, sendo que o primeiro predomina. O primeiro grupo refere- se aos contos de fadas, fábulas, histórias de animais, fazendas, parques, circos, dentre outros. O segundo contempla produções com o desenvolvimento de temas transversais como é o caso de ecologia, meio ambiente, questões étnico-raciais, inclusão social. Por fim, o terceiro grupo refere-se aos temas delicados da vida humana como morte, medo, abandono, separação e sentimentos variados.
O mercado editorial brasileiro ainda está muito voltado para às demandas da escola que opta, na grande maioria dos casos, por obras que apresentam um fundo pedagógico e moralizante. Há ainda necessidade de uma expansão de temas com o intuito de fazer com que a Literatura Infantil passe a ocupar um maior espaço, assim como acontece com a Literatura em geral, afastando-se das demandas pedagógicas e educacionais e explorando temas que
aproximem o leitor infantil de experiências estéticas mais aprofundadas, como afirma Paiva (2008):
[...] um distanciamento, o mais radical possível, das demandas pedagógicas, possa contribuir para um redimensionamento do livro infantil e, ao mesmo tempo, inseri-lo em outra perspectiva, no contexto maior da literatura em geral. (PAIVA, 2008, p. 49)
Nesse sentido, nem sempre, as escolhas feitas pelos mediadores e formadores de leitores, são as mais acertadas para as demandas nas faixas etárias. Cada faixa etária demanda um tamanho de texto, um determinado tipo de interação com o mundo imagético, um dado grau de humor e outros; nem sempre isso é levado em consideração. Há responsabilidade de selecionar livros e gêneros literários que auxiliarão na construção do leitor, apresentar a este sujeito as especificidades que compõem a Literatura literária e incentivar à leitura. Hoje, o acesso às pesquisas e ações governamentais, que auxiliam as escolhas dos professores e profissionais ligados à formação de leitores literários, têm avançado de forma relevante e apresentam um acesso facilitado.
No contexto brasileiro, há dois pontos importantes: o primeiro é o reconhecimento da importância da formação do leitor literário e Literatura; o segundo são as ações governamentais que levam para o contexto das escolas obras da Literatura Infantil recomendadas e organizadas, para garantir o acesso às leituras de qualidade. Há, além desses dois pontos, ações de instituições ligadas ao contexto da Literatura Infantil que avaliam e divulgam, a partir de critérios estabelecidos, obras de qualidade para o público Infanto- Juvenil, como é o caso da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Um dos programas do governo brasileiro já existe há mais de dez anos e se intitula Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). Nesse programa, livros literários são avaliados, a partir da qualidade textual, temática e gráfica e selecionados para se dirigirem às escolas públicas. Entretanto, de acordo com pesquisas de Paiva (2012) e outros pesquisadores, ainda há uma distância grande entre os objetivos desse programa e o que acontece no interior das escolas, já que nem sempre esses livros são acessados por professores e alunos e permanecem nas caixas que são enviados.
Assim, já se caminhou muito no processo de formação do leitor literário, mas há ainda um longo caminho a se seguir. É importante refletir sobre a ideia de que a Literatura Infantil não está a serviço somente para a formação inicial do leitor literário no contexto escolar. A Literatura Infantil é também a possibilidade de acesso à leitura literária além desse espaço e, por isso, é importante repensar sobre escolhas e produções editoriais, que podem ampliar os
temas e garantir que a leitura literária se estenda para fora dos muros escolares de forma efetiva e significativa. E, assim:
Reinvindicar para a literatura infantil uma dimensão de arte, isto é, um estatuto literário, não nos parece uma tarefa impossível, visto que os territórios da arte se alargaram e já contemplam manifestações artísticas emergentes. (PAIVA, 2008, p. 52)
Trabalhar com crítica literária na Literatura Infantil é, então, reconhecer um trabalho mais complexo que outras literaturas pois, a todo o momento, é necessário questionar que objeto é esse, visto que assume uma natureza transitória, ocupa dois espaços sociais, a escola e espaços não escolares, e busca por status, por ser reconhecida e respeitada. É também reconhecer que as escolhas dos leitores ou dos mediadores de leitura estão baseadas nas diferentes influências culturais e sociais.
Assim, as escolhas do leitor passam pelas influências que ele receberá não só do texto lido, mas também da biografia do autor, da sua forma de escrever e falar sobre o mundo, do tipo de produção editorial predominante, da relação do ilustrador com as imagens, bem como da formação literária que teve durante seu período escolar e do acesso a determinadas obras.
Segundo Magda Soares (2008),
quando o objeto livro encontra leitores, a interação que no ato da leitura se desenvolve não é simplesmente uma interação direta leitor-autor, pela mediação do texto. Este, ao tornar-se objeto – o livro –, chega ao leitor com as marcas e interferências de um conjunto de profissionais – uma estrutura coletiva, a edição – que define destinatários e, em função destes, escolhe textos, seleciona formas para sua apresentação e estratégias de divulgação e comercialização. (SOARES, 2008, p.21) .
As diferentes relações inseridas nas escolhas literárias fazem parte do contexto de formação do leitor, das influências sociais e culturais e das produções editorias. Então, uma obra está carregada de sentidos e intenções explícitas e implicítas. A obra “O Menino Poeta” foi escolhida e selecionada em algumas versões para programas governamentais e recebeu premiações da FNLIJ, participando, então, desse contexto da Literatura Infantil, que caminha tanto no contexto escolar e fora dele e busca por ter um espaço reconhecido e legitimado na cultura. No próximo tópico, buscamos reconhecer a inserção da obra “O Menino Poeta” no contexto histórico da poesia infantil brasileira.