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Romarinho é um nome de fácil identificação, pois muitos brasileiros saberão que se trata de uma referência àquele que é considerado um dos maiores ídolos do futebol brasileiro com grande ressonância internacional: Romário. Quantos romarinhos não deve haver por este país? No Brasil é

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comum que pais, amantes do futebol, escolham os nomes de seus filhos em homenagem aos seus ídolos no futebol.

O Romarinho em questão, não foge a regra, trata-se do jovem atacante do Corinthians paulista, um dos clubes mais bem sucedidos do futebol canarinho em relação ao número de títulos, tamanho da torcida, poder econômico etc.

Esse personagem surge aos holofotes de forma bruscamente repentina em um momento dos mais cruciais da história do seu time: as finais do campeonato continental ―Libertadores da América‖. Esse é um dos

campeonatos mais almejados pelos clubes brasileiros, privilégio de poucos100,

trata-se da maior disputa entre clubes da América com destaque para os times da Argentina, Brasil e Uruguai. Dos quatro grandes times do estado de São Paulo somente o Corinthians não havia chegado a tamanha conquista e há muito tempo que dirigentes corintianos planejavam tal título.

No primeiro semestre desse ano, após uma campanha irrepreensível –

por ter se tornado, por exemplo, o time que menos tomou gols em uma

campanha da história do campeonato – o Corinthians chega a final contra um

dos maiores ganhadores do campeonato, o Boca Juniors101 da Argentina.

O primeiro jogo iria ocorrer no temido estádio do clube argentino chamado ―La Bombonera‖, a mística desse estádio se reflete nos números do

time em seus domínios – o Boca Junior só perdeu nove jogos em seu estádio

em Libertadores da América e somente três times brasileiros realizaram a façanha de derrota-lo lá.

Assim, o jogo concentrava múltiplos ingredientes para mais um

momento épico do futebol sul-americano – um time e uma torcida com a

obsessão de ganhar um título inédito e altamente valorizado disputando-o contra um time acostumado não só a decidir o campeonato em questão, mas a ganha-lo com uma forte mística sobre o seu estádio.

Segundo dizem muitos cronistas, é nesses momentos que os ―deuses do futebol costumam trazer surpresas‖ e de fato não estavam errados, não pelo

100 Somente oito times brasileiros já conquistaram essa taça

– Santos Futebol Clube (três vezes), São Paulo Futebol Clube (três vezes), Flamengo de Futebol e Regatas (duas vezes), Vasco da Gama de Futebol e Regatas (uma vez), Grêmio de Futebol Portoalgrense (uma vez), Internacional (uma vez), Cruzeiro (uma vez) e Palmeiras (uma vez).

101 A Argentina, aliás, tem o maior número de títulos na Libertadores da América

– 21 títulos. Somente o Boca Juniors possui 6 destes.

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menos em relação a surpresa, pois de forma bastante inesperada eis que surge um ilustre desconhecido que sai da reserva para decidir o jogo a favor do time brasileiro: Romarinho.

No final de semana anterior ao jogo da final da Libertadores, o Corinthians havia jogado contra o seu maior rival, o Palmeiras, pelo campeonato brasileiro, e o técnico do time havia optado por colocar somente reservas visando resguardar os titulares para o tão esperado jogo. Romarinho aproveitou muito bem a oportunidade e fazendo sua estreia pelo time, marcou os dois gols da vitória ganhando destaque ao ponto de se tornar opção no banco de reservas para o jogo mais importante do Corinthians nos últimos tempos.

A oportunidade na partida veio após a contusão de um dos jogadores titulares. O tempo de permanência do jogador em campo foi de apenas sete minutos, tempo suficiente para fazer um dos gols mais importantes do clube em sua história e alcançar um avassalador estrelato. A mídia esportiva não perdeu tempo e no dia posterior já se levantava a hipótese de estar se vendo nascer mais um ídolo, conforme as passagens abaixo exortam:

o que é esse rapaz, hein? Pelo amor de Deus! Tem uma baita estrela! Entrou no clássico do último final de semana e fez os dois gols da vitória de virada no dérbi [sic] contra o arquirrival Palmeiras. Agora nem sente pressão e faz um golaço encobrindo o goleiro gringo. Tudo indica que nasceu pra ser ídolo do Timão. Aliás, pelos recentes acontecimentos, entraria com esse menino no jogo da volta no Pacaembu. Tem personalidade e estrela. Tudo o que um corintiano está precisando nesse momento‖. 102

Imagem 07 – Romarinho comemora gol decisivo na Argentina pelo Corinthians. Herói? Ídolo?103

102 Neto, ex-jogador e comentarista esportivo da rede Bandeirantes de Televisão e do portal

UOL, em postagem de seu blog intitulada ―Esse nasceu pra ser ídolo do Timão!‖. Disponível em http://blogdoneto.blogosfera.uol.com.br/2012/06/28/esse-nasceu-pra-ser-idolo-do-timao/ - acesso em 28 jun 2012. Grifo meu.

103 Disponível em http://blogdoneto.blogosfera.uol.com.br/2012/06/28/esse-nasceu-pra-ser-

117 Romarinho entrou em uma final de Libertadores e toda a sua atuação se resume a dois toques na bola. Parece pouco, mas foi o suficiente para virar herói no Corinthians. Em apenas dois lances, ele marcou o gol de empate que deixou o time alvinegro mais perto da inédita conquista e ainda manteve um discurso humilde. De acordo com o Datafolha, o atacante ficou sete minutos em campo.104

Ídolo, herói, percebe-se que ambos os textos apressam-se em adivinhar o que pode vir pela frente: dois jogos, três gols, um deles histórico, faz com que se projete em Romarinho um ídolo para um futuro muito próximo, praticamente um devir. O tempo de depuração é cada vez mais reduzido e a atitude ―exemplar‖ pode se resumir a sete minutos, afinal de contas, mesmo em tão pouco tempo, o ato heroico de Romarinho fez história e a alegria de milhares de torcedores da ―nação corintiana‖.

O Corinthians confirmou seu título no jogo seguinte e finalmente ―fez

história‖, menos de dois meses passados, porém, vemos Romarinho novamente em destaque no noticiário esportivo, agora por outro motivo: as más

atuações ou a falta de efetividade do atacante. Depois do gol por cobertura no

duelo na Argentina, o Corinthians disputou nove jogos. Romarinho esteve em oito deles, mas não marcou nenhum gol.

104Matéria do portal UOL intitulada ―Romarinho vira herói com dois toques na partida e adota

discurso humilde: ‗Não fui o cara‘.‖ Disponível em http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/libertadores/ultimas-

noticias/2012/06/28/romarinho-vira-heroi-com-dois-toques-na-partida-e-adota-discurso-humilde- nao-fui-o-cara.htm - acesso em 28 jun 2012.

118 Passou a pesar sobre o jogador após essa sequência de jogos sem gols o pejorativo rótulo de ―craque de dois jogos‖. Preocupado em proteger seu atleta, o técnico do time sai na defesa do jogador realizando o que no jargão

jornalístico esportivo chama-se ―blindagem‖ que consiste, em muitos casos, em

um conjunto de ações que visa defender a atuação do jogador em entrevistas coletivas tirando o foco do mesmo e proibindo-o de falar à imprensa. Assim, afirma Tite, treinador do Corinthians:

Um gol tem 20 pernas. Tem uma equipe. Criou-se uma expectativa desse tamanho [colocando a mão no alto] em cima do Romarinho, e aí tu paga o preço dela. Teve o jogo da Bombonera que ele fez o gol. Agora a expectativa é que ele vá ter que guardar em todos os jogos. Ele precisará ter maturidade, concentração e algumas vezes calma para a preparação da jogada, para enquadrar bem

o corpo. Isso é treinamento. É conversa.105

Segundo a mesma reportagem, embora acredite no potencial de Romarinho, Tite ―entende que o jogador não é um fenômeno do futebol‖, impressão deixada após os golaços contra o Palmeiras e, principalmente, depois de calar La Bombonera com um gol de cobertura. A cobrança sobre o jogador tem a mesma proporção da ascensão: bastante rápida, intensa, exagerada e como diz o treinador Tite: Romarinho está pagando o preço por ela.

Passados menos de sessenta dias, passado o momento épico, o ato heroico, Romarinho voltou a ser mais um jogador dentre onze, não mais um destaque, um ―fora de série‖, mas um jogador, embora com potencial, incapaz ainda de resolver as coisas sozinho. Nesse momento, o discurso da importância do craque que por sua capacidade e condição diferenciadas é capaz de decidir jogos sozinho dá lugar ao discurso da coletividade, de que são os onze mais os reservas que compõem o grupo e o gol não é, e ―nunca foi‖, mérito de um, mas de todos.

Assim, após frustrar, pelo menos no curto prazo, as expectativas de que poderia ser mais um ―fenômeno‖ do futebol, Romarinho sai dos holofotes e

105 Disponível em http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/brasileiro/serie-a/ultimas-

noticias/2012/08/08/zerado-apos-golaco-romarinho-ganha-blindagem-de-tite-contra-rotulo-de- craque-de-2-jogos.htm – acesso em 08 ago 2012.

119 deixa de ser o prodígio visado da vez. Quem será o próximo? Esperemos a próxima final de campeonato para saber.

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CAPÍTULO 2: A CONSTRUÇÃO DO ÍDOLO NO IMAGINÁRIO