1.3.1 Autorização da DGIDC para a aplicação do questionário em meio
escolar
A escola assume um papel importante na vida de crianças e adolescentes, constituindo o contexto onde estes passam a maior parte do seu tempo. Considerou-se, por isso, que a escola constituía um local privilegiado para a condução da presente investigação.
Tendo esta investigação como objetivo a aplicação do Questionário das Escolhas Alimentares dos Adolescentes em contexto escolar (e.g., escolas e colégios) foi submetido um pedido de autorização para a sua aplicação em meio escolar junto da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular (DGIDC). Tal como requerido por esta entidade, foram submetidos todos os dados solicitados acerca da investigação e do questionário através do site da Internet da Monitorização de Inquéritos em Meio Escolar (MIME), do Ministério da Educação.
Após submetido o pedido, foi obtida a aprovação da DGIDC para a aplicação do questionário em meio escolar (número de registo: 0139800001).
1.3.2 Procedimento na recolha de dados
Com vista à recolha de dados para este estudo exploratório estabeleceu-se o contacto, através de email, com diversas instituições de ensino público e privado, do distrito de Lisboa. Para cada instituição foi enviada uma carta dirigida ao Diretor(a), informando e solicitando a colaboração da respetiva instituição na presente investigação, em curso na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa (anexo I.2). Como resultado, foram obtidas respostas positivas, por email (anexo I.3), afirmando o interesse em colaborar no presente estudo, por parte de três instituições de ensino secundário (duas públicas e uma privada).
Após a obtenção das respostas das instituições de ensino, propôs-se uma reunião com cada um dos Diretores das instituições em causa, com vista a uma exposição mais compreensiva e detalhada do estudo. Nestas reuniões foram explicitados de forma mais pormenorizada os objetivos do estudo, discutidas as questões relativas à seleção da amostra e recrutamento dos participantes, abordadas as questões éticas e deontológicas, e, por fim, solicitados os recursos logísticos necessários à realização do estudo.
Posteriormente foram estabelecidos os contactos necessários com os professores que se prontificaram a ceder algum tempo das suas aulas para a aplicação do questionário. As datas para as aplicações foram marcadas de acordo com a disponibilidade destes professores e respeitando o horário das suas aulas, de maneira a interferir o menos possível com o programa letivo das suas disciplinas.
Em cada uma das aplicações do questionário, a investigadora dirigia-se às instituições de ensino e, em contexto de sala de aula e na presença dos professores responsáveis, apresentava oralmente o estudo e o respetivo questionário, solicitando o seu preenchimento por parte dos participantes. Nesta apresentação, a investigadora explicitava os objetivos do estudo e as instruções de preenchimento do questionário, comunicava o anonimato das respostas e mostrava-se disponível para esclarecer quaisquer dúvidas ou questões.
Para além das medidas já enunciadas consideradas na elaboração do questionário com vista ao controlo de variáveis externas, foram consideradas medidas adicionais de controlo de possíveis enviesamentos igualmente no momento das aplicações do questionário. Assim, e para controlar eventuais enviesamentos relacionados com a possível tendência dos participantes em se apresentarem de modo favorável, procurou-se comunicar de modo direto aos participantes, na apresentação oral do estudo que não existiam respostas certas nem erradas, que diferentes pessoas poderiam ter diferentes opiniões, e que os participantes deveriam responder de forma honesta, e não segundo aquilo que pudessem pensar que era certo ou correto, uma vez que ninguém saberia quem teria respondido a cada um dos questionários. Solicitou-se ainda aos participantes que respondessem rapidamente, segundo a sua primeira reação e sem dedicarem muito tempo a pensar em cada resposta, de maneira a potenciar uma menor influência da desejabilidade social sobre as respostas, já que, desta forma, os participantes não teriam tempo suficiente para analisar o impacto que as suas respostas poderiam ter na investigadora ou noutras pessoas que delas tomassem
conhecimento (Moreira, 2009). Os participantes eram ainda solicitados a não colocar no questionário quaisquer dados ou referências que os pudessem identificar, de maneira a permitir garantir assim o anonimato das suas respostas. Uma vez que alguns participantes (com menos idade) poderiam não ter uma ideia clara sobre o que significava “anónimo” ou “anonimato”, foi explicitado o significado deste termo. A opção de se proceder a aplicações coletivas do questionário, em contexto de sala de aula, procurou também criar nos participantes um sentimento de maior segurança no anonimato e, por conseguinte, aumentar a probabilidade de responderem de forma honesta (Moreira, 2009).
As aplicações do questionário tiveram início em Setembro de 2010 e fim em Março de 2011. No total foram realizadas 12 aplicações coletivas, duas por cada ano de escolaridade do 7º ao 12º ano, tendo sido obtido o preenchimento de um total de 274 questionários. Destes 274 questionários foram posteriormente excluídos 27 devido a excesso de respostas omissas ou de tendência central. Assim, totalizaram 247 os questionários válidos para posterior análise de dados.
1.3.3 Procedimentos éticos e deontológicos
Tendo em conta a importância dos aspetos éticos e deontológicos na investigação, procurou-se respeitar os princípios do código deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). Considerou-se de extrema importância assegurar que o estudo não causaria quaisquer danos ou prejuízos (físicos ou psicológicos) aos participantes e minimizar eventuais interferências com o normal funcionamento das suas aulas ou dos programas letivos.
Procurou-se também que a participação no estudo fosse voluntária e mediante o consentimento dos adolescentes ou dos pais no caso dos participantes menores de 18 anos. Visto que os participantes teriam idades compreendidas entre os 12 e os 19 anos, considerou-se que os adolescentes com idade igual ou superior a 18 anos teriam maturidade para decidir autonomamente sobre a sua participação no estudo, não sendo, por isso, necessário o consentimento dos pais. Procurou-se igualmente que a participação fosse informada, tendo para isso sido fornecida a informação necessária sobre o estudo de forma a possibilitar uma decisão
Foi elaborada uma declaração de consentimento informado (anexo I.4) onde eram dados a conhecer os objetivos da investigação e da aplicação do questionário, a ausência de riscos (físicos ou psicológicos) da participação no estudo, a confidencialidade dos dados recolhidos, o anonimato das respostas, o respeito pelos princípios éticos e deontológicos declarados pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), sendo, por fim, solicitado o consentimento mediante a assinatura do próprio ou do encarregado de educação (dos menores de 18 anos). Antes de cada uma das aplicações do questionário (com uma antecedência de entre uma a duas semanas) eram entregues aos professores responsáveis as declarações de consentimento informado que, por sua vez, se encarregavam de as distribuir pelos alunos que voluntariamente aceitassem participar no estudo. Depois da obtenção das declarações de consentimento informado, devidamente assinadas, procedia-se então às aplicações coletivas do questionário em contexto de sala de aula.
Procurou-se recolher apenas os dados pessoais necessários à condução do estudo e manter todos os dados anónimos e confidenciais, tendo sido atribuído um número codificado a cada questionário para efeitos de análise e registo no software estatístico.
Por fim, procurou-se assegurar que após a realização da investigação, os participantes teriam a oportunidade de ter acesso a informação sobre os resultados e conclusões do estudo.
1.3.4 Procedimento de análise dos resultados
Na análise dos resultados utilizou-se o software estatístico para ciências sociais PASW Statistics
18.
Previamente à análise dos resultados procedeu-se a uma primeira análise descritiva dos dados para fins de caracterização da amostra. Posteriormente, as variáveis que tinham sido invertidas (i.e., itens formulados na negativa para controlar efeitos indesejáveis) foram transformadas para que pudessem ser processadas e analisadas na forma correta.
Procedeu-se à análise da primeira secção do questionário (análise dos fatores) através do recurso a uma estratégia de análise fatorial exploratória, após a verificação do pressuposto da normalidade (Maroco, 2007, 2010; Pestana & Gageiro, 2008). A consistência interna dos fatores foi analisada
através do Alfa de Cronbach. Posteriormente foi explorada a significância dos efeitos do género e da idade nos resultados de cada fator. Para isto, e uma vez tratando-se de variáveis quantitativas e amostras independentes, procedeu-se à comparação das médias dos resultados através do teste paramétrico ANOVA one-way após verificação do pressuposto da normalidade, com o teste de Kolmogorov-Smirnov (quando N>10) e o teste de Shapiro-Wilk (quando N<10) (p>0,05), e verificação do pressuposto da homocedasticidade com o Teste de Levene. A dimensão dos efeitos observados foi avaliada pelo Eta2 Parcial (ƞ2p) e as diferenças entre grupos foram avaliadas com o
Teste HSD de Tukey para α=0,05 (Maroco, 2007).
Por fim, procedeu-se à análise descritiva dos resultados obtidos a partir das restantes secções do questionário, nomeadamente, referentes aos obstáculos e aspetos facilitadores das escolhas alimentares saudáveis dos adolescentes. De notar que, para facilitar a apresentação dos resultados das análises descritivas agruparam-se as respostas “concordo totalmente” e “concordo parcialmente” numa mesma categoria, “concordo”; e, de igual forma, as respostas “discordo totalmente” e “discordo parcialmente” foram agrupadas numa mesma categoria, “discordo”. Procedeu-se ainda à análise de diferenças significativas de acordo com o género e a idade nos resultados obtidos a partir destas secções do questionário. Para isto, tratando-se de variáveis ordinais e amostras independentes, procedeu-se à comparação dos resultados através do teste não paramétrico de Kruskal-Wallis, seguido do teste de comparação múltipla das médias das ordens (LSD Fisher e Bonferroni), como descrito por Maroco (2007, 2010). Consideraram-se efeitos estatisticamente significativos quando p<0,05.
Tendo em conta as linhas metodológicas do presente estudo, apresentam-se de seguida os resultados obtidos da análise de dados.
2 R
ESULTADOSDe seguida serão apresentados os resultados obtidos no presente estudo exploratório. Começa-se por apresentar os resultados da análise fatorial exploratória e da interpretação dos fatores, sendo depois apresentados os resultados da análise da consistência interna dos fatores e, ainda, da análise dos efeitos significativos das variáveis género e idade.
Posteriormente são apresentados os restantes resultados obtidos neste estudo, nomeadamente sobre os obstáculos e aspetos facilitadores da prática de escolhas alimentares saudáveis dos adolescentes.
Antes de se proceder à apresentação dos resultados propriamente ditos, importa apenas fazer referência à análise das não respostas (missings). Como tal, registou uma percentagem de não respostas de 10,50%, tendo 89,50% da amostra de participantes fornecido respostas válidas a todos os itens que compunham o questionário.