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Os mitos têm sido amplamente retomados por diversos autores como uma fonte original de temas, revestidos de uma nova roupagem em suas narrativas. Como foi possível apreciar neste estudo, Julio Cortázar é um dos autores que se apropria de temas e estruturas de narrativas míticas para reatualizá-las em sua obra. Nos contos “Circe” e “Las Ménades”, foi feito o levantamento e o estudo de dois temas intrínsecos aos mitos – a mulher fatal e o ritual – que são reatualizados nos contos, a fim de perceber a dinâmica que a construção literária imprime aos temas mitológicos. Por tratar-se de dois contos fantásticos o mais importante é estabelecer a função desses temas na construção das imagens do insólito.

Quando escreve sobre a retomada dos arquétipos em outras narrativas, Eleazar Meletínski salienta que

Alguns arquétipos sofrem transformações. [...] Entretanto, mesmo no caso dessas transformações, o arquétipo originário transparece bastante claramente. Ele como que permanece depositado no nível profundo da narrativa. Mais adiante ocorre um processo duplo: por um lado, os temas tradicionais que se transformam, em princípio, em arquétipos, são conservados por muito tempo na literatura, manifestando periodicamente e de maneira nítida o seu caráter arquetípico; por outro lado, as transformações dos temas tradicionais originais contribuem para obscurecer e disfarçar as profundas significações arquetípicas. (MELETÍNSKI, 2002, 157, 158)

Nos contos analisados, o fantástico exerce um papel essencial na transformação dos arquétipos e vice-versa: os arquétipos constituem o ingrediente principal que dá vida ao fantástico. A parte introdutória deste trabalho apresentou uma cronologia teórica sobre o fantástico e as diversas vertentes que estudam o gênero. Na tentativa de defini-lo, encontramos diversas referências ao ‘real’, a ‘ordem’ ou ao ‘cotidiano’, no qual intervêm ‘o estranho’, ‘inexplicável’ ou ‘insólito’, que causa uma ‘ruptura’, ‘desordem’ ou ‘transgressão’. Destaca-se a presença do ‘dual’, dos ‘opostos’, de ‘mundos paralelos’, ‘forças antagônicas’ e da ‘ambiguidade’ para gerar a ‘incerteza’, a ‘vacilação’, o ‘estranhamento’, ou a ‘hesitação’.

Ao apresentarem os mitos clássicos nos títulos, os dois contos analisados, “Circe” e “Las Ménades”, anunciam seu caráter fantástico e induzem o leitor a realizar uma leitura que leve em conta o componente mítico. O jogo estabelecido entre as temáticas e a realidade distorce a percepção de cada um destes componentes e insere o leitor em uma nova realidade que se transforma pela inserção de seres e fatos pertencentes a outra ordem de sentido. A bruxa, mulher fatal, as cerimonias rituais dionisíacas são uma referência a um imaginário que não pertence ao cotidiano de Buenos Aires dos anos 20. No entanto, pertencem a um universo mitológico clássico, intelectual. Eles possuem uma carga de sentido simbólica, que a literatura de Cortázar utiliza para compor vários sentidos, entre eles, o fantástico.

Os elementos arquetípicos destacados configuram-se como os mesmos elementos que contribuem para a formação da atmosfera do fantástico nos contos, pois estão diretamente relacionados ao evento insólito e a dúvida proposta pela narrativa fantástica. Percebemos que o fantástico apresenta antagonismos nas suas descrições, tanto das personagens, como das realidades.

Delia é construída a partir da junção de vários componentes encontrados em arquétipos de mulheres fatais de diversas tradições literárias. Combina modernidade e antiguidade em sua composição: é uma moça bonaerense que mora na cidade de Buenos Aires dos anos vinte, mas também o seu comportamento a faz assumir a imagem da deusa mitológica clássica, das Sereias da Odisseia ou da própria Eva. Sua personalidade antitética, além de incorporar o arquétipo da mulher fatal, cumpre com a exigência do fantástico. Também há uma oposição entre a maldade e a o caráter destrutivo de Delia e a atitude redentora de Mario, seus sorrisos dissimulados e o choro final. Ao destacar a construção das narrativas contemporâneas que reimprimem mitos em sua estrutura, Meletínski menciona que:

a substituição de personagens por modelos de diversas mitologias, fontes literárias e históricas (...) corresponde à necessidade de uma simbolização universal e traduz simultaneamente o nivelamento, a falta de personalidade de determinados personagens e objetos no universo da alienação de nossos dias. (MELETÍNSKI, 1976, pág. 376).

O arquétipo da mulher fatal renasce na personagem Delia representando a sua continua rememoração e sua universalidade. A utilização do arquétipo na figura de Delia faz que ela carregue um pouco de cada uma das mulheres fatais que se encaixam nesse arquétipo. Isso as torna semelhantes e as aproxima, embora sejam de épocas diferentes. Independentemente do tempo, da tradição, da época, é uma manifestação da existência de um tipo de mulher que utiliza sua sedução e feminilidade como instrumento para a dominação do homem, ultrapassando até mesmo os limites da literatura para a ‘nossa realidade’.

A repetição está presente tanto no enredo como na construção da narrativa: Delia repete seu ritual de dominação e destruição com todos os homens utilizando como isca a sua sedução: os atrai, os engana, e exceto o Mario, ao se verem vítimas de um jogo fatal, morrem. Da mesma forma, o conto retoma (ou repete) um arquétipo que traz intrínseco a ele outras mulheres fatais de diversas tradições literárias: todas diferentes, mas que conservam traços semelhantes entre si. Estabelece-se uma relação de metonímia para o leitor, pois, ao se deparar com uma das personagens – Delia – ele está, na realidade, perante a representação de várias outras figuras inseridas no arquétipo.

No conto “Las Ménades”, o arquétipo do ritual dionisíaco dá vida ao fantástico ao tornar explícita eterna a luta de forças internas e opostas do ser humano: adotar a racionalidade ou entregar-se aos instintos. Os opostos característicos do fantástico coexistem no mesmo espaço: ordem-caos, Apolo-Dioniso, selvagem-civilizado a fim de questionar a ‘normalidade’. Os participantes do ritual no Teatro transitam entre os dois opostos com tanta naturalidade que causa estranheza no leitor.

Cortázar apresenta o arquétipo do ritual com o objetivo de representar o fenômeno social e cultural vivido na Argentina durante o peronismo. Com exceção do narrador, culto e crítico, que representa uma minoria da época, as massas eram ‘levadas’ ou possuídas por uma cultura imposta, a qual elas devoravam sem nenhum tipo de critério. Dessa maneira, o autor argentino também questiona a influência que o grupo exerce sobre o individuo, visto que até o narrador, que é o único que conserva um distanciamento crítico e assiste perplexo à multidão enlouquecida, se vê tentado a transgredir e participar do ritual provavelmente pelo calor do momento, a necessidade de identificação e aceitação de um grupo ou da sociedade.

A retomada do arquétipo do ritual também suscita no leitor a reflexão em relação à essência humana desde as origens, expõe o lado selvagem do ser humano, animalizado, a influência do grupo, da sociedade e a necessidade de aceitação e identificação do sujeito com o outro que o ser humano possui.

Por causa de seu valor universal, sua atemporalidade, e sua recorrência ao longo do tempo os arquétipos trazem consigo um percurso de significados, adquirindo novas faces a cada contexto social e histórico em que se rearticulam. Contudo, ainda que sofram variações, o arquétipo conserva referências à essência do ser humano, aos seus desejos mais profundos e comportamentos paradoxais. Por sua vez, o fantástico se constrói explorando a essência ambígua inerente a todos os seres humanos, expõe seu caráter paradoxal, e revela os seus conflitos internos. A ruptura com a ideia de realidade acontece nos textos fantásticos justamente quando a própria ambiguidade humana se potencializa, revelando as faces que deveriam permanecer adormecidas, escondidas, intactas.

Fica claro, portanto, que na construção dos contos analisados Julio Cortázar utiliza os arquétipos e com eles toda a significação que adquirem cada vez que são retomados, para causar uma ruptura que origina o fantástico, dando lugar a questionamentos de cunho existencial.

A obra de Julio Cortázar explora muito bem a riqueza das relações entre a amplitude significativa do mito e a literatura. A retomada e transformação dos arquétipos literários em seus contos fantásticos constitui uma forma de provocar um questionamento existencial e revelar a busca perene do ser humano por respostas.