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No Rio Grande do Sul, o entusiasmo pelo rádio refletiu-se no investimento em tecnologia, com o intuito de captar as emissões oriundas do centro do país e da região do Prata. Os receptores de rádio, além de ocuparem muito espaço, eram também muito caros. De acordo com Ferraretto (2002), a montagem desses aparelhos era complexa e necessitava de conhecimento amplo para possibilitar a instalação. Uma das estações mais conhecidas, pertenceu a Pedro Cezar Oliveira, em 1927 (FERRARETTO, 2002, p. 40). Conforme conta Marialva Carlos Barbosa (2013), os rádios de galena, aparelhos menores e que podiam ser montados com custo baixo, aos poucos fizeram com que o rádio fosse deixando de ser um aparelho destinado apenas às elites.

Em 7 de setembro de 1924, surgia a Rádio Sociedade Rio-Grandense, pioneira no estado, apesar de que, segundo Ferraretto (2002), creditou-se o surgimento da radiodifusão gaúcha em Pelotas, através da Rádio Pelotense, em 1925. Porém, Ferraretto21 (2009) amplia a questão:

Está ali, publicado no dia 8 de setembro de 1924, na página 5 do jornal A Federação, órgão máximo do Partido Republicano Rio-Grandense, para que ninguém discorde no futuro. É, 85 anos depois, um fato histórico. E, infelizmente, pouco lembrado. Mas, no papel amarelado pelo tempo com letras de tipografia, impressão apagada pelo descaso na preservação dos documentos e da história, está ali uma quase certidão de nascimento do rádio no Rio Grande do Sul. Sob a guarda do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Na véspera, às nove horas da noite, informa Ferraretto (2009), “num dos salões da Vila Diamela, gentilmente cedido pelo senhor coronel Juan Ganzo Fernandez, a Rádio Sociedade Rio-Grandense foi fundada por amadores residentes nesta capital”. Em nome da pioneira associação de radiófilos, semfilistas ou amantes da radiofonia, como se chamavam na época estes entusiastas do novo veículo de comunicação, o então diretor da Biblioteca Pública, o poeta Eduardo Guimaraens, seria o primeiro a falar em uma emissora de rádio no estado.

Embora algumas discordâncias sobre as datas que marcam o pioneirismo do rádio no Rio Grande do Sul, o que importa é que a nova tecnologia logo foi implantada no estado, após as primeiras experiências em outros centros brasileiros, como São

Paulo e Rio de Janeiro. O citado coronel Ganzo Fernandez teve fundamental importância na história do desenvolvimento tecnológico do rádio gaúcho, pois foi o responsável por trazer, da Argentina, com Evaristo Bicca, o primeiro transmissor, que foi utilizado de 1924 até o ano seguinte. Além disso, Ganzo também foi um dos responsáveis pela criação da Rádio Sociedade Gaúcha. Como conta Ferraretto22 (2006), um dos principais legados da família Ganzo ao rádio gaúcho foi o estabelecimento de um sistema de telefonia automática:

Graças à Companhia Telefônica Rio-Grandense, Porto Alegre inaugura, em 19 de abril de 1922, o seu sistema de telefonia automática, um avanço tecnológico, na época, inédito em toda a América do Sul, compartilhado apenas com Rio Grande, também por obra da empresa. Antes disto, todas as ligações dependiam sempre de uma intermediação da telefonista. Fora isto, a família participa de empreendimentos como a Companhia Rio-Grandense de Usinas Elétricas, com centrais em várias cidades do estado (FERRARETTO, 2006).

Conforme Vampré (1979), os anos 1920 significaram uma proliferação geográfica de emissoras de rádio por todo o Brasil. Em 1924, contabilizavam-se emissoras na Bahia (Rádio Sociedade da Bahia), Ceará (Ceará Rádio Clube), Maranhão (Rádio Sociedade do Maranhão), Rio de Janeiro (Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e Rádio Clube do Brasil), Rio Grande do Sul (Rádio Sociedade Gaúcha e Rádio Sociedade Rio-Grandense), Minas Gerais (Rádio Sociedade Mineira), Paraná (Rádio Clube Paranaense), São Paulo (Rádio Clube São Paulo e Rádio Clube Ribeirão Preto). Na medida que a década de 1920 avançou, houve melhorias nas condições técnicas das emissoras de rádio. Vampré (1979) afirma que, a partir de 1927, a comercialização, apesar de ainda “medrosamente”, estava atingindo sua maioridade e expandindo-se. Era a “fase de ouro” do rádio brasileiro, principalmente aplicada à realidade dos grandes centros da época, São Paulo e Rio de Janeiro. Em 30 de setembro de 1928, falecia, em Porto Alegre, o Padre Roberto Landell de Moura, aos 67 anos, que, além de seu legado ao rádio, buscou compreender diferentes outras áreas e possibilidades em campos científicos ligados à medicina, botânica e psicologia. Em 1929, por sua vez, a jovem Rádio Sociedade Gaúcha apresentava uma importante evolução técnica, com a acoplagem de um toca-discos ao seu transmissor de 250W. Isso significou, conforme afirma Vampré (1979), a inauguração da primeira mesa de som da história do rádio gaúcho.

Sandra Jatahy Pesavento (1980) destaca que o final da década de 20 traria modificações profundas também na conjuntura política e sócio econômica do Rio Grande do Sul. A política gaúcha também teria papel principal na reconfiguração que o Brasil iria passar no início da década seguinte, com a revolução armada de 1930, comandada por Getúlio Vargas, que acarretaria a sucessão de Washington Luís na presidência da República. Em 1928, Getúlio Vargas, republicano, tomou lugar no governo do estado, justamente após o fim do ciclo de Borges de Medeiros. A reformulação política interna do Rio Grande do Sul provocou, conforme descreve Pesavento (1980), um desenvolvimento do poder associativo. A produção do estado buscava superar as crises econômicas, de forma a competir com outros centros como São Paulo. Vargas apoiou sindicatos e produtores e buscou fortalecer setores como a pecuária, agricultura e setor têxtil, com a clara intenção de estabelecer laços de apoio, que foi fundamental para que, dois anos depois, Getúlio Vargas tivesse força suficiente para decretar uma nova era política no país. O caso é que Vargas conseguiu formar a Frente Única Rio-Grandense, reunindo PRR e o Partido Libertador, que se juntaram na criação da Aliança Liberal. (PESAVENTO, 1980, p. 68).

A economia do Brasil, em 1929, segundo Pesavento (1980), sofria com a “falência do capitalismo”, e Vargas, de imediato, procurou colocar em prática medidas que pudessem atenuar a situação e atender diferentes setores de produção. Porém, o processo de mudanças foi lento, pois havia um posicionamento contrário ainda quanto a política de Vargas, principalmente pelo setor cafeeiro, que, durante a República Velha, possuía forte concentração de poder no país. O novo governo buscou renovar o processo de desenvolvimento capitalista no Brasil.

As dificuldades econômicas afetaram variados setores, durante a década de 1920. E, apesar de jovem, o rádio também sofreu algumas consequências negativas em relação ao panorama de incertezas da época. Recém fundada, a Rádio Sociedade Rio-Grandense existiu apenas até o ano de 1924, segundo explicam Vampré (1979) e Ferraretto (2002). “Cada um de seus trezentos sócios deveria contribuir com uma mensalidade de cinco mil réis. Nem sempre pontuais nas contribuições, os sócios deixaram a empresa com sérios problemas econômicos” (VAMPRÉ, 1979, p. 37). O problema é que a Rádio Sociedade seguia, de acordo com Vampré (1979), o mesmo estilo da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, onde o sustento era provido, essencialmente, por associados. Buscou-se auxílio do comércio, à época, atitude que poderia ter mantido a rádio em funcionamento. Porém, a medida não foi acordada em

maioria e a rádio acabou encerrando seu curto ciclo. Mas, se por um lado a Rádio Sociedade Rio-Grandense não conseguiu manter-se, por outro, teve um importante papel durante sua rápida existência. A emissora ajudou a difundir e despertar cada vez mais a curiosidade sobre o rádio, inclusive, como conta Ferraretto (2002, p. 53), “incrementando o comércio com receptores e impulsionando a criação de oficinas construção de equipamentos”. Em Porto Alegre, a situação era a seguinte, conforme conta Vampré (1979, p. 37):

[...] quanto aos receptores da época, 1924, em Porto Alegre, além do número razoável de “galenas” já existiam receptores a válvulas, importados pela firma “Barreto Viana” ou comprados no estrangeiro, principalmente em Buenos Aires, por eventuais viajantes. A tais aparelhos eram acopladas cornetas metálicas, alto-falantes, sem condições ideais de sonoridade. Os receptores usavam energia de “pilhas”, mais propriamente “baterias”, bastante volumosas.

Segundo Vampré (1979) e Clemente (1997), o rádio gaúcho acompanhou de perto o surgimento e a implantação do novo meio de comunicação em todo o Brasil, principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. No caso da transmissão de futebol pelo rádio, a situação não foi diferente. Ainda nos anos 1920, mais precisamente em 7 de fevereiro de 1927, foi criada a Rádio Sociedade Gaúcha, que seria inaugurada de forma oficial em 19 de novembro do mesmo ano (CLEMENTE, 1997, p. 21).

A Rádio Sociedade Gaúcha teve um papel fundamental e embrionário em relação às transmissões de futebol no Rio Grande do Sul, pois, foi a pioneira na irradiação de um match, termo inglês utilizado à época, em referência ao futebol. De acordo com Ferraretto (2002), é possível ter uma ideia das condições tecnológicas existentes durante o período. Segundo o autor, embora raramente, eram utilizados gravadores com fio magnético. Eram equipamentos de grandes proporções. As rádios, durante os anos 1930, preocupavam-se muito mais com uma programação voltada ao entretenimento musical do que com a cobertura de fatos. Acontece que, justamente nos anos 1930, como descreve Ferraretto (2002), a reportagem estava em fase de desenvolvimento, no que se refere à forma de cobertura jornalística. Um fato para ser irradiado deveria ser fundamentalmente importante para ser veiculado. Não existiam, conforme Ferraretto (2002, p. 215) “condições técnicas necessárias para a atual mobilidade e capacidade de transmissão do repórter”. As irradiações eram quase que isoladas e praticamente raras. Segundo Vampré (1979, p. 43), a Rádio Sociedade

Gaúcha, em 1927, possuía um “transmissor de 50 watts e que funcionava na mesma sala-estúdio, ao lado de uma mesa para locuções e de outra em que se encontrava uma vitrola manual, dessas de manivela”. Dois anos depois, as melhorias técnicas, conforme Vampré (1979), no caso da Rádio Sociedade Gaúcha, evoluíam de forma “provinciana”. Porém, um novo transmissor foi instalado, com uma potência de 250W, algo que, de certa forma, já indicava um passo à frente na tentativa de melhoria das condições de transmissão.

Em 1931, ano da primeira transmissão de futebol no Brasil, o governo federal baixou o decreto n° 20.047, em 27 de maio. Vampré (1979, p. 48), explica que “foram estabelecidas novas normas em substituição ao regulamento dos Serviços de Radiotelegrafia e Radiotelefonia, aprovada em 1924”. Isso significou que o Brasil adotou o sistema de radiodifusão dos Estados Unidos, no qual legalizava a publicidade comercial e a concessão de canais particulares (VAMPRÉ, 1979, p. 48). Além disso, o Departamento de Correios e Telégrafos, que coordenava as comunicações no Brasil, passou a cobrar tributos para quem possuísse aparelhos de rádio. A medida encontrou muitas dificuldades, pois era quase impossível controlar quem adquiria aparelhos, sem contar que era possível construir rádios amadores de forma caseira.

Em 1927, a Rádio Sociedade Gaúcha, já conhecida como “a voz dos Pampas”, conforme Mércio (2008), ainda transmitia de forma precária, a partir de sua base, no Grande Hotel, no centro de Porto Alegre. Somente em 1934, “a emissora passou a operar com um transmissor de mil watts de potência e a ser identificada pelo prefixo PRC2”, (MÉRCIO, 2008, p. 150). O autor destaca que a emissora abriu espaço para algumas novidades que, atualmente, são comuns no rádio. No início da década de 1930, além de uma variada programação musical, a Rádio Sociedade Gaúcha passou a transmitir informativos noticiosos, econômicos e climáticos. A previsão do tempo no rádio foi uma novidade. Conforme Ferraretto (2002) e Mércio (2008), o emprego de novas atrações no rádio deveu-se ao fato de que a publicidade também passou a procurar espaço, através de anúncios radiofônicos. Aos poucos, programas e atrações começaram a ser vistos como potenciais produtos lucrativos.

Segundo Dalpiaz (2002), as rádios de Porto Alegre já realizavam algumas coberturas esportivas durante o início dos anos 1930. Existiam outras modalidades de interesse popular, tais como as corridas de turfe. Porém, o fato que realmente marcou o início das transmissões de futebol no rádio aconteceu em 1931. Foi numa quinta-

feira, 19 de novembro de 1931, que o locutor Ernani Ruschel, “abriu” o microfone da Rádio Sociedade Gaúcha para transmitir o duelo entre Grêmio e Seleção do Paraná, numa tarde de primavera, no Estádio da Baixada, bairro Moinhos de Ventos. Foi uma transmissão pioneira no Rio Grande do Sul que, conforme Ferraretto (2002), aconteceu poucos meses depois após a primeira experiência em caráter nacional, protagonizada por Nicolau Tuma, em 19 de julho de 1931, pela Rádio Educadora Paulista. Segundo Ferraretto (2002), decretou-se, naquela oportunidade, ponto facultativo em Porto Alegre, tal a importância do evento. Os jornais, como o Correio do Povo, já divulgavam e possuíam editorias especializadas em esportes, antes mesmo do rádio. Em 1931, os estúdios da Rádio Sociedade Gaúcha se localizam na Praça José Montaury, em frente à Hidráulica do Moinhos de Vento, fato que, conforme explica Ferraretto (2002), possibilitou que a Gaúcha pudesse instalar seu microfone e transmitir o jogo. Apesar da inexperiência e falta de conhecimento do narrador, principalmente para descrever os nomes dos atletas durante a transmissão, o principal fato foi, justamente, a irradiação de uma modalidade esportiva que estava popularizando-se, cada vez, mais em todo o Brasil. Ferraretto (2002) destaca, de acordo com as palavras de Flávio Alcaraz Gomes, que para a transmissão do jogo entre Grêmio e Seleção do Paraná, foram instalados alto-falantes na Casa Victor, um estabelecimento comercial bastante conhecido na época, no centro de Porto Alegre, onde aglomerou-se um considerável contingente de curiosos. De certa forma “assustados” com a repercussão, os clubes de futebol proibiram a irradiação, pois haviam ficado com receio de que as transmissões pudessem afastar os torcedores dos campos. Porém, desde a primeira transmissão esportiva em 1931, o rádio nunca mais abandonou a ideia. E como será descrito adiante, o futebol no rádio teve um papel fundamental no desenvolvimento tecnológico deste meio de comunicação que, assim como o futebol, popularizou-se com o passar dos anos.