4 DISKUSJON
4.2 Studieoppsett
Conforme ponderado anteriormente, a relação entre celebridades e seus respectivos públicos opera segundo a lógica da identificação. Além dos aspectos considerados por Morin no início do capítulo, acreditamos que seja fundamental aprofundar a discussão com aporte nas considerações de Freud sobre os conceitos de narcisismo e identificação, que dizem respeito a nossa segunda hipótese, em que levantamos a possibilidade da nãoefetivação da crítica em função de um ajuste cínico na maneira como os sujeitos respondem às interpelações a que são submetidos.
Buscamos em Freud as bases conceituais necessárias para explicar esse processo identificatório entre os sujeitos convertidos em massa e as celebridades postas em papel de líderes. Entendemos que um público nada mais é do que uma massa que projeta seus desejos e aspirações sobre um ou mais indivíduos. Para tanto, recorremos a aspectos da psicologia das massas. O estudo de Mônica do Amaral sobre o narcisismo em Freud e também em Adorno (1997) nos foi de grande valia. A partir desse estudo recuperamos a seguinte definição de narcisismo: “o narcisismo refere-se (...) a uma configuração psíquica na qual os indivíduos se encontram impelidos a uma utilização instrumental do mundo em função de interesses particulares” (AMARAL, 1997, p.48). Para além dessa concepção devemos levar em consideração também o mito do narciso, ligado ao próprio corpo, o que sugere um investimento pulsional em si próprio. De acordo com Freud, numa primeira fase da infância não há separação entre o eu e o objeto externo (FREUD, 2011, p. 10). Essa separação ocorreria de maneira gradual, respondendo a diversos estímulos, segundo o que ele denominou princípio do prazer. Segundo a lógica do princípio do prazer, haveria a tendência em separar o que seria um Eu-de-prazer (interno) de tudo que poderia vir a ser causa de sofrimento (Idem). Além disso, Freud ainda propôs que, devido às coerções a que foram submetidos os indivíduos durante o curso do desenvolvimento civilizatório, a energia libidinal
do sujeito seria transferida para outras atividades. Dentre elas a que nos interessa certamente é a do investimento libidinal em objetos de prazer pela via da identificação. Conforme assinalou Adorno, a tendência narcísica da subjetividade contemporânea está intrinsecamente ligada ao declínio da figura do pai, sendo este substituído por outros objetos (AMARAL, 1997, p.67). Adorno certamente referia-se a identificação entre a massa e o líder fascista. Em tempos de capitalismo neoliberal, o que propomos é a manutenção dessa estrutura aplicada ao binômio “público – celebridade”. Os sujeitos, impedidos de encontrar uma voz própria, procuram entreter-se com as realizações de outros, o que, segundo Adorno, indica uma “regressão a estágios sociais nãoconciliados com o presente” (Idem, p. 51). Seria, portanto, o investimento
identificatório um investimento no amor de si próprio, a celebridade seria a projeção de um “ego-ideal”.
Posto isso, recuperamos a concepção pós-moderna de sujeito fragmentado, incapaz de sustentar uma identificação de longo termo, trocando constantemente de modelos identificatórios. Assim, o caráter descartável que a celebridade assume na atualidade poderia ser explicado a partir de uma perspectiva lacaniana: o imperativo do gozo impossível de ser satisfeito resultará numa falta que lhe será constitutiva. Dessa forma, a substituição incessante de modelos num mercado que os oferece em profusão torna-se a tônica das relações de identificação contemporânea. O avesso disso seriam os rompantes de violência, manifestações do denominado “ódio narcísico”, ou seja, o ódio por aquele(s) que lembra(m) a diferença: o estrangeiro, o torcedor do time oposto, o vilão da novela etc. Já foi dito anteriormente que a imersão dos indivíduos na massa propicia terreno fértil para a regressão do espírito objetivo e o surgimento de comportamentos irracionais e intolerantes. Talvez o exemplo mais claro disso seja o comportamento das torcidas uniformizadas. O objeto em que investem libidinalmente é o clube que serve como laço que os une, tendo como contraidentificação os clubes adversários. Outro tipo de confronto comum se dava entre headbangers e punks112 nas décadas de 1970 e 1980113. Os exemplos acima expostos deixam claro que mesmo ideias
completamente abstratas podem tornar-se objetos que sustentam a identificação entre os
112Headbanger (metaleiro). Heavy metal e punk são duas vertentes do rock’n’roll. Apesar disso, possuem
universo simbólico totalmente distinto. No Heavy Metal busca-se, grosso modo, a fantasia, mitologia e o virtuosismo instrumental e vocal. O punk é um movimento proletário que busca exprimir de maneira bastante virulenta a realidade social das camadas mais periféricas, as letras criticam o poder político e o sistema capitalista, geralmente em favor de uma reforma social e tem na simplicidade harmônica e precariedade instrumental sua característica sonora mais marcante.
113Referimos às décadas de 1970 e 1980, pois foram momentos de gênese de ambos os movimentos. Hoje,
tanto o heavy metal quanto o punk rock foram absorvidos pelo mercado e encontram-se diluídos e catalogados segundo os interesses da indústria fonográfica.
participantes de determinados grupos. No caso do punk rock e do heavy metal não há fronteira geográfica ou endereço físico. Trata-se de abstrações do psiquismo humano, gêneros musicais abstratos que foram investidos de conteúdos ideológicos e partilhados por um grande número de pessoas. Conforme assinala Freud (2011, p. 60), esse narcisismo das pequenas diferenças consiste num obstáculo à civilização, à medida que ele enxerga no homem um pendor “natural” para a violência. Esse pendor se manifesta contra o estrangeiro, elemento considerado “de fora” e, portanto, uma ameaça segundo o princípio do prazer e também muitas vezes contra aquele objeto que se viu anteriormente investido de amor.
Em suma, com a colonização do mundo da cultura pelo capital, a atividade artística tornou-se cada vez mais atrelada aos interesses econômicos e o bombardeamento maciço de modelos de conduta por parte das mídias tornou nossa condição humana ainda mais miserável. É cada vez mais difícil acompanhar a moda e a tecnologia e, consequentemente, os sujeitos encontram-se cada vez mais aquém do ego-ideal. Essa defasagem a que os sujeitos se encontram submetidos torna-se objeto de frustração e o potencial de desintegração social tende a aumentar.