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"É preciso falar do fantasma, até mesmo ao fantasma e com ele, uma vez que nenhuma ética, nenhuma política, revolucionária ou não, parece possível, pensável e justa, sem reconhecer em seu princípio o respeito por esses outros que não estão mais ou por esses outros que ainda estão aí, presentemente vivos, quer já estejam mortos, quer ainda não tenham nascido"

Jacques Derrida460

Na mesma obra em que critica Fukuyama, Derrida, inusitadamente, percebe nos espectros de Marx uma via ainda viva para impulsionar a desconstrução deste tecnocapitalismo que convive e se alimenta da democracia-liberal-tolerante. Derrida permaneceu por muito tempo silente em relação à Marx e ao marxismo, sendo diversas vezes criticado por não ter se aliado de forma mais explícita aos intelectuais que compunham a esquerda francesa dos anos 60 e 70. Havia algo de incômodo ao filósofo da desconstrução naquilo que remetia a um certo mecanicismo dogmático (e ainda entregue à metafísica da presença) por onde perfilavam as ideias de Marx e de seus herdeiros461, circunstância pela qual o autor de "De la grammatologie" nunca se sujeitou.

El mismo deber dicta criticar ("en-la-teoria-y-en-la-práctica", incansavelmente) un dogmatismo totalitario que, con el pretexto de poner fin al capital, ha destruido la democracia y la herencia europea, pero asimismo dicta criticar una religion del capital que instala su dogmatismo bajo nuevos rostros que también debemos aprender a identificar - y éstes es el porvenir mismo, de otro modo no lo habrá462. Em "Spectres de Marx" Derrida nos acena, a partir da leitura fantasmagórica do Hamlet de Shakespeare - time is out of joint - que o desencaixe do tempo é a condição indefectível da própria cursividade do tempo. Derrida percebe aí uma aproximação com a temporalidade heideggeriana, mas imediatamente a afasta, fazendo notar que para o filósofo alemão esse "tempo", quando relacionado ao "outro", só pode ser lido como uma espécie de condição de restituição da Diké, portanto, pensado ainda na esfera da presença, isto é, como um "outro-tempo-presente"463

460 Idem. Espectros de Marx. O Estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Rio de Janeiro:

Relume, 1994, p. 11.

461 Inclusive o herdeiro mais chegado seu que foi o filósofo e amigo Louis Althusser, muito embora as ideias

desse pensador tenham evidentemente influenciado Derrida, dado a sua proximidade e respeito recíprocos.

462 Idem. Aporías. Morir - esperarse (en) "los limites de la verdad". Barcelona: Paidós, 1998, p. 39.

463 DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx. O Estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Rio

146 Embora declarando-se não marxista, quando menos se esperava, Derrida pôs-se a escrever sobre Marx, ou o que a espectralidade do seu pensamento favorece à vigilância crítica permanente. Retornar a Marx - sob o peso de Marx, apesar de Marx, sob mais de um Marx - seria de acordo com o filósofo, um gesto político464 e uma porta para pensarmos o autor como um filósofo materialista, ainda que guiado por um materialismo reinventado ou rasurado465. Derrida sustentou que aquilo que fora denunciado por Marx e que hoje seu fantasma assombra não pertence ao comunismo ou ao que se identifica como marxismo466, mas permanece sendo uma crítica válida e sempre posta a ser relida (e não a partir da "exegese tranquila de uma obra classificada"467), sendo o "Manifesto Comunista" dentre outras de seus grandes escritos talvez a lição mais urgente dos nossos dias atuais468, principalmente após a queda do muro de Berlim e a fragilização dos discursos de esquerda com capacidade de confrontar as articulações que sustentam que o liberalismo político como "o fim da história" e a democracia constitucional-procedimental-parlamentar são as únicas estruturas confiáveis para se pensar a política, gerando com isso, um novo dogmatismo. Negar Marx ou dimensionar suas obras como uma amostragem de um horizonte entregue à falência, segundo Derrida, seria, além de um erro, "uma falta de responsabilidade teórica, filosófica e política"469. O que deve repercutir das assinaturas de Marx, permanecer reverberando sob o estado da arte da conjuntura social e econômica mundial, é a sua capacidade de convocar e de saber delimitar um compromisso ou uma promessa que suspeite de todas as convenções que visem a legitimar soberanamente a atuação de uma violência, em suas mais variadas nuances, até mesmo a força silenciosa de certa tolerância em tom respeitoso à obra de Marx, que no fundo desejam despolitizar ao máximo toda e qualquer referência marxista. Uma convocação, portanto, politizante, muito embora se deva conter cuidadosamente a tendência a pender para um "messianismo" que esse mesmo marxismo criticou, pois Marx foi um grande crítico da religião. Logo, a relação responsável com a

464 Idem. Entrevista concedida a Juremir Machado da Silva. SILVA, Juremir Machado da. Visões de uma certa Europa. Porto Alegre: Edipucrs, 1998.

465 "Ao criticar em bloco a totalidade da filosofia ocidental, considera que tanto o idealismo quanto o

materialismo seriam exemplos de metafísica da presença. A ideia de "matéria", obviamente, remete à substância e, como tal, à presença. A impossibilidade de pensar a temporalidade real seria o problema fundamental do materialismo, que poderia ser associado a uma noção teleológica da história, uma história no sentido "fraco", isto é, não submetido a uma contingência radical, uma história ainda sujeita ao sentido da história". Cf: PINTO NETO, Moysés. A escritura da natureza: Derrida e o materialismo experimental. (texto cedido pelo autor), p. 38 - 43.

466 DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx. O Estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Rio

de Janeiro: Relume, 1994, p. 52.

467 Ibidem, p. 51. 468 Ibidem, p. 29. 469 Ibidem, p. 29.

147 herança marxista não a tem nem como uma revelação messiânica nem como um legado sepultado em um sarcófago no tempo. Só há herança marxista, se há, se conduzida pela indecidibilidade.

Se a análise de tipo marxista continua sendo indispensável, portanto, ela parece radicalmente insuficiente aí, onde a ontologia marxista que funda o projeto de ciência ou de crítica marxista comporta também ela mesma, e deve comportar, é

preciso, apesar de tantas denegações modernas ou pós-modernas, uma escatologia

messiânica470.

Sendo de algum modo fiel aos espectros do marxismo - desse marxismo sob rasura - o pensamento da democracia permaneceria, assim, em aberto, reivindicando um espaço de herança para ser pensado de forma aberta à temporalidade e à pulsão diferancial. Uma herança que reposiciona a pergunta sobre qual é o efetivo papel do herdeiro.