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No contato inicial com a entrevistadora, Carvalho se mostra desconfiado – e precisa de medidas de reasseguramento a cada novo encontro; mas, depois consegue se envolver e dar continuidade ao processo, sem que o clima fique persecutório.

Em algumas ocasiões, fala na terceira pessoa, “você”, quando quer se referir a si mesmo. Isto aconteceu principalmente, no início dos encontros, em momentos em que ainda não podia estar muito envolvido, como se fosse uma tentativa de tirar o foco de si.

Até a adolescência, seguia rigidamente os preceitos de duas instituições – família e igreja, em que o objetivo que se destacava era a expectativa de agradar à sua mãe (e a “grande mãe” que a igreja representava). Assim, seu primeiro casamento refletiu uma submissão ao

desejo do outro. Ele ainda carrega em seu modo relacional a expectativa de agradar às pessoas, na tentativa de se sentir querido. O que é exemplificado em suas relações, quando não se permite estar diante da endocrinologista sem apresentar perda de peso.

Carvalho conservou a valorização da instituição familiar. Ela é uma referência, onde apoia seus princípios e valores, apesar de que, em certa medida, ainda aparece idealizada: “Minha família é muito ‘dez’!” [sic]. Ele vivencia uma sensação de união e segurança familiar. Internalizou pais presentes em sua vida e sente que eles foram companheiros – o que facilita sua própria vivência enquanto pai. Na vida adulta, mesmo depois de separado, ele procura se manter presente na vida dos três filhos. Tenta transmitir seus valores e colaborar para que se tornem cidadãos éticos.

Carvalho tinha apenas 18 anos quando se casou. E deixa claro que foi influenciado pelas crenças e desejos de sua mãe – ele não percebe que suas emoções e necessidades é que o mobilizam. Durante a infância, a atenção primária era divida com quatro irmãos, mas ao se casar a esposa vivia em função dele, pois Carvalho tinha uma mulher que se devotava inteiramente a ele.

Assim, a hipótese é que a esposa ocupava o papel materno e que o momento da ruptura da relação ocorreu, quando vislumbrou que não encontraria mais nessa relação a satisfação que ainda precisava. Três aspectos reforçam esse entendimento: 1) Com a presença da sogra e das cunhadas em sua casa, a atenção passou a ser dividida; 2) A escolha da jovem esposa em ficar ao lado da própria mãe, e não dele, o fez sentir-se desvalorizado e abandonado; 3) O rompimento da relação se concretizou, quando a esposa estava grávida de seu primeiro filho e, mesmo que desejasse que o filho tivesse uma boa maternagem, o fato também marcava que definitivamente não teria mais exclusividade na atenção da “esposa- mãe”.

Por outro lado, sair da casa dos pais e desfazer a situação do casamento mostrou uma ruptura de alianças que não o impulsionavam para se autoconhecer: “O casamento não foi o que imaginei. [...] Saí de casa e comecei a ver o mundo de outra forma” [sic]. A realidade o frustrou. Os conceitos herdados puderam ser questionados. Houve a possibilidade de rever seus valores e constituir valores próprios. E, apesar da dor, este se mostrou um movimento fundamental para que seu modo de compreender o mundo pudesse se ampliar. Agora, mostra- se crítico e possuiu ideias construídas por meio de reflexões próprias.

Em sua vida, faltam investimentos em relações de amizade. Em seu relato, Carvalho procura não se aprofundar na dinâmica de suas relações. Contudo, foi possível perceber que as dores das separações que vivenciou ainda estão intensas. Ele faz um recorte empobrecido das relações conjugais que constituiu. Para ele, é como se seus casamentos tivessem sido experiências somente ruins. Mas, além da dor da separação, as relações tiveram bons momentos – sem perceber, ele próprio considera que seu primeiro ano de casado foi bom; e, quanto ao segundo casamento, que durou treze anos, mesmo que Carvalho diga apenas que se separaram porque o amor acabou; para isso, é preciso que tenham tido uma boa relação, ainda que breve.

Mesmo com o passar do tempo, ele não conseguiu retomar o diálogo com as ex- esposas, uma questão que, por meio de mudanças de assunto, ele não permitiu ser explorada. Essa condição, ainda o faz sofrer pela dor da separação e, também, afeta seu narcisismo. Afinal, por que as pessoas abandonariam a pessoa “forte” e valorosa que ele construiu com tanto esforço?

O fim do primeiro casamento é o que mais se destaca. Apesar disso, foi possível acompanhar que a dor da separação está presente há muito tempo. A ruptura brusca dessa relação e a dor do abandono reviveram um estado de insegurança e desamparo, que o conduzem ao ponto de se sentir depressivo. Essa situação se configura como uma repetição de

uma situação primária. Depois que nasceu, Carvalho também vivenciou cerca de um ano de relação mãe-bebê, simbiótica e paradisíaca, em seguida, provavelmente, passou por um desmame não elaborado, uma vez que sua mãe engravidou – o irmão que o segue é apenas um ano e alguns meses mais novo.

Diante de situações de separação, o recurso que Carvalho mais utiliza é o afastamento. Para tentar evitar os conflitos internos, ele se centra no fazer – na tentativa de não pensar nem entrar em contato com seus sentimentos. Assim, atua, mas não elabora.

Um exemplo é que, quando começou a estudar, ele também sofreu: “Era um medo, uma insegurança” [sic]. E esta dor não se dissipou. Quando chegou à 3ª série do Ensino Fundamental, parou de estudar e foi trabalhar. Ele fazia “bicos” [sic] e auxiliava na renda familiar, mas não sabe se a família precisava desse complemento econômico.

Na época, a justificativa foi o desejo de parar com os estudos, mas ele não se recorda de ter refletido sobre o que o motivou a se afastar da escola ou a ir trabalhar: “já que não queria mais estudar, eu fui trabalhar... era assim que funcionava” [sic]. Esse motivo se mostrou mais uma versão racionalizada. Aliás, Carvalho não apresentava dificuldades cognitivas que o desestimulassem.

Após amadurecer um pouco, pôde retomar seus estudos. Depois, cursou pós- graduação e se tornou um professor de cursos profissionalizantes – o que também é, ao mesmo tempo, um exemplo de como ele lida com suas dores. Dependendo dos recursos internos que dispõe, leva um tempo maior, ou menor, mas, em geral, utiliza o que o machuca como um impulsor para sua superação.

Ele enxerga a si como um batalhador: “Eu sou uma pessoa vitoriosa pelo que eu consegui conquistar. Já batalhei, perdi o que tive, mas foi mais motivação, não deixei a peteca cair e consegui me refazer” [sic]. Em seu discurso, pretendia falar de sua perda econômica, depois das rupturas dos casamentos – as conquistas materiais ficavam com as

esposas – mas, a perda significativa se mostra mais abrangente. Foi das perdas emocionais que ele ainda não se refez. Por outro lado, o gosto da conquista torna-se um disparador para uma nova busca, o que acaba criando um ciclo que já o deixou cansado.

O fazer não se mostra mais suficiente para sufocar as pressões de seu mundo interno. Carvalho começa a perceber o desejo de reconstruir mais que sua vida financeira. Ele começou dizendo: “O que eu queria ter, já tenho!” [sic] – Não havia espaço para falta. E caminhou para: “O que está faltando para mim agora é achar alguém legal. Uma pessoa ideal. Será que vou achar?” [sic] – Aqui, Carvalho se utilizou da idealização. Porém, continuou: “Mas será que doer por tanto tempo é normal? [...] Eu conheci uma pessoa bem legal há pouco tempo. [...] Briguei por bobeira. [...] Comecei a perceber que toda vez que começa a ficar sério eu me afasto. [...] Como posso me libertar disso?” [sic] Isso mostra um movimento significativo, em um curto espaço de tempo.

Ao mesmo tempo, usa conscientemente a bebida como uma “válvula de escape” [sic], uma tentativa de atenuar suas angústias. É um refúgio, usado nos momentos de lazer, para longe das tensões diárias (este uso não é compulsivo) – esse é um dos comportamentos que escrevem as entrelinhas do caminho que trilhou na constituição de sua masculinidade. É uma tentativa de sufocar a angústia e ocultar suas dores.

Carvalho não tem receio de realizar atividades domésticas ou se mostrar emocionado pela admiração que seus filhos e o irmão casula sentem por ele. Para ele, é importante se disponibilizar como um alicerce para todos – não é à toa que acredita que tem que se mostrar “forte”, “durão” e usar seu sofrimento como motivação para ser um batalhador, e por que não dizer um “guerreiro”. Percebe-se que tal contexto, associado à sua dinâmica centrada no fazer e seu modo de lidar com suas emoções, na verdade, o distanciam de suas próprias fragilidades.

Ele aprendeu a dar apoio, mas ainda não sabe como receber – se perceber fragilizado por suas dores, e se dar o direito a também buscar apoio no outro, ainda é difícil. Por enquanto, tenta lidar sozinho com suas dores. Assim, torna-se difícil buscar auxílio em amigos, parentes e mesmo especialistas. Entretanto, encontra-se diante de um ponto que não consegue transpor sozinho.

Na história de Carvalho, o aumento de peso aparece associado ao sofrimento da separação. Para Carvalho, a sensação de separação está presente, seja por meio da ruptura da relação ou mesmo pela divisão da atenção recebida. Dessa segunda situação, ele não consegue se dar conta; mas, quando a mulher amada traz um outro significativo para a relação, na sua percepção, é um momento de sofrimento – que em sua trajetória contribuiu para o ganho de peso.

É interessante notar que há uma similaridade no espaço de tempo que algumas dessas situações levaram para se instalar. Um pouco depois de um ano de seu nascimento, sua mãe engravidou de outro irmão. Após um ano de casamento, sua sogra e, em seguida, seu primeiro filho entraram em sua vida conjugal e houve a ruptura da relação. O processo tornou a se repetir quando a segunda esposa também engravidou depois de um ano de casamento – e foi nesse momento que seu processo de elevação de peso iniciou-se.

Carvalho atingiu o estado de obesidade após a segunda separação e reduziu seu peso por meio de um tratamento. Seu pensamento em relação à obesidade é racionalizado e, em, alguns momentos, contraditório e onipotente, ele diz que: “Não sou obeso. Estou acima de meu limite de peso, mas minha condição de saúde está normal e é isso que é importante. [...] Posso melhorar, mas ainda não senti necessidade de colocar um freio” [sic]. No entanto, essa última frase foi dita depois que já havia comentado sobre a busca de auxílio de uma endocrinologista e os motivos para a interrupção do tratamento. E, também, após dizer que gostaria de mudar alguns hábitos em seu cotidiano, mas encontra dificuldades.

Carvalho diz que o incômodo com a barriga está ligado à estética, que o importante é não ter canseira. Ele tenta convencer a si mesmo que pode colocar um “freio” quando quiser. O que, também, é conflitivo com seus valores pessoais e com sua crítica aos padrões estéticos. E destaca, ainda, que ele e os irmãos (os do sexo masculino) eram magros e engordaram após seus casamentos – como se o casamento em si fosse um motivo para o ganho de peso. No entanto, depois relaciona o aumento de peso a períodos em que o estado emocional interferiu nos hábitos alimentares de todos.