Com a desintegração do sistema feudal, no final da idade média, surge um novo sistema econômico, social e político: o Capitalismo que cresce com o desenvolvimento comercial, se formando aos poucos para dominar toda a Europa ocidental. Com a revolução burguesa na Inglaterra e França as instituições foram se
adaptando a essa nova organização e um conjunto de ideias foi produzido para justificar essa nova ordem.
Com a implantação do sistema fabril, deslocou-se a centralização do setor primário (agricultura) para o setor secundário (indústria). Porém, é com o advento da sociedade pós-industrial, que se caracteriza pela ampliação do setor terciário (serviços) que o cotidiano passa a ser marcado pelo consumo. De acordo com Aranha (2003) a mudança de enfoque descentraliza a atenção, “antes voltada para a
produção (capitalista versus operário), e orientando-a agora para a informação e o consumo (p.40)”.
Segundo pesquisa desenvolvida por Baima (2011), apoiada em autores contemporâneos (BERMAN, MARCUSE, SAFLATE, ADORNO, BAUMAN, RAMOS entre outros) caracterizam a atual fase do capitalismo como fase modernizada, o que se opera é um sistema de produção de bens de consumo em alta escala passando o capitalismo a depender desse consumo para se sustentar economicamente, não significando com isso um sistema mais humanitário e flexível. O sistema que hoje convivemos favorece a acumulação de bens em que os processos de ampliação de consumo contam com a publicidade, o marketing, as mídias em geral e a indústria cultural como elementos fundamentais para mantê-lo. Propagam-se dessa forma um espírito de consumismo impondo padrões de comportamento reforçando a dependência e a servidão. Um tipo de dominação que aparece disfarçada de liberdade, limitando-se a necessidades materiais e intelectuais. Ou seja, “necessidades concebidas como próprias do indivíduo, mas que são determinadas por forças externas sobre as quais o sujeito não tem controle, e que proliferam a dominação, a miséria e a injustiça (BAIMA, 2011, p. 12)”.
Embora se propague certa ilusão de liberdade, o que determina e orienta as necessidades e escolhas devem estar a favor do capital, criando sensações de atendimentos individualizados, mas no fundo o que ocorre são achatamentos das singularidades em categorias pré-determinadas.
Baima (2011) destaca ainda que o sucesso desse sistema deve-se a busca contínua de satisfação de novos desejos que se harmonizam com o imperativo social de satisfação no consumo de mercadorias. Apesar de prometer a satisfação plena, o que se perpetua é a insatisfação.
Esse discurso presente em nossa sociedade ecoa nos ambientes escolares: competitividade, produtividade, eficiência, otimização do tempo, ou seja, valores que são perseguidos para se alcançar o sucesso individual. O sistema educacional ao responder a essas marcas cumpre sua função reproduzindo as relações sociais de produção da sociedade capitalista. Os estudos de Bourdieu e Passeron, através da obra “A Reprodução” nos possibilitam fazer uma análise no âmbito escolar e suas relações sociais e identificar sua função ideológica e política que acaba legitimando uma ordem arbitrária que funda todo um sistema de dominação vigente nessas instituições, gerando o fenômeno da segregação em lugar do direito universal à educação.
Enquanto força formadora de hábitos, a escola propicia aos que se encontram direta ou indiretamente submetidos à sua influência, não tanto esquemas de pensamento particulares e particularizados, mas uma disposição geral geradora de esquemas particulares capazes de serem aplicados em campos diferentes do pensamento e da ação aos quais se pode dar o nome de habitus cultivado (BOURDIEU, 2002, p. 211).
Ao relacionarmos estrutura capitalista e educação, também identificamos a lógica apontada por Althusser (1987) que caracteriza a escola como “aparelho ideológico do estado”, reproduzindo as relações materiais e sociais da produção. Além de trabalhar a serviço do mercado, transforma-se em fábrica de mão de obra atuando em nível de ideologia. É pela transmissão do conhecimento que a escola ocupa esse lugar, não cria a divisão de classe, mas contribui para sua reprodução. Uma escola que se propõe a formar cidadãos produtivos para o mercado de trabalho, que investe naqueles que ela considera os mais aptos e competentes de acordo com os valores pré-estabelecidos para uma educação de qualidade.
Laval (2004, apud COSTA, 2010) aponta que a educação desempenha um papel utilitarista e mercantilista sujeitando-se à razão econômica. A qualificação e o conhecimento são os meios para a venda de bens e serviços e os sujeitos, denominados escolares, tornam-se reféns da competição que movimenta os mercados, “[...] a educação é considerada uma atividade subjugada a custos e rendimentos. Seu produto, o aluno, é assimilado, então, a uma mercadoria (2010, p.69)”.
Há um sujeito determinado pelas condições desse discurso. Discurso esse que foi se formando sobre a criança e suas dificuldades gerando processos de exclusão dentro do universo escolar.
O modelo de escola que hoje convivemos é aquele em que se valorizam as competências individuais que pressupõe o individualismo e a competitividade. Numa sociedade liberal em que já está pré-determinado de que todos não conseguirão “vencer” resta impregnar na cultura a ideologia da competição e dessa forma valorizar os poucos que conseguem se adaptar a essa lógica excludente. Como afirma Gorz (1973, apud SANTOS e ANDRIOLI, 2005, p. 113):
[...] para a reprodução da hierarquia nas relações sociais a “produção de perdedores” é tão importante como a promoção dos diplomados. Trata-se de convencer uma significativa parcela dos jovens de que eles são incapazes de ser algo mais do que um trabalhador desqualificado. Seu fracasso passa a ser assimilado não como o resultado de um sistema de ensino, mas de sua própria incapacidade pessoal e social. Por outro lado, trata-se de convencer os “vencedores” de que constituem uma elite, cujo sucesso seria fruto de muito esforço, dedicação e vontade de “vencer”. A elite passa a se justificar a si mesma como camada privilegiada e superior à classe trabalhadora. “As escolas são obrigadas a produzir um
percentual de fracassados, para fornecer trabalhadores
desqualificados dos quais a economia necessita.
Nesse sentido, a educação como braço do Estado dentro do espectro social, comprometida com as estruturas vigentes e respondendo aos interesses desse Estado, sustenta um papel de reprodutora. No bojo da sociedade capitalista, a
educação também pode ser considerada mercadoria, a partir do momento que sua estrutura ideológica se sustente para reproduzir esse sistema pautado em princípios que respondam aos interesses do capital.
Entretanto, acreditar que essa posição é a única possível seria desconsiderar o que se tem realizado nos programas de pesquisa dentro dessa área. Não é objetivo de o nosso trabalho transitar nessa esfera, porém não poderíamos deixar de considerar, e porque não dizer apostar, que o processo educacional como produto do ato humano possa operar como transformador, ou seja, transformar e transformar-se.
Um dos efeitos ao qual a educação não pode dimensionar é o quanto ela é capaz de provocar reflexões críticas, nesse sentido Silva e Neto (2012) considerando um modelo de educação que legitime os indivíduos nela envolvidos, incentivando-os a participar de discussões instaurando certo lócus para o debate, afirmam que:
O recobro a ser conquistado, passa por essa valorização da ação dos indivíduos e do seu discurso, da sua fala; transita pelo retorno à constituição de um espaço público que possa ser mais interessante e fundamental do que aquilo que é da ordem do particular. (2012, p. 29).
Ainda transitando pela polifonia que há em torno desse assunto, encontramos em Fazenda (2012) a possibilidade de uma educação que se valorize do diálogo interdisciplinar para almejar uma escola “cuidadora”. Arriscando sair das grades curriculares do saber-fazer para um currículo que valorize o saber-ser e o saber- conviver; que ao desenvolver metodologias que resgatem o aspecto do humano com suas identidades e histórias de vida, possam liberar seus alunos dos dados estatísticos e das avaliações quantitativas; que autorizem os professores especialistas em suas disciplinas a se reposicionar numa conexão para a pesquisa com o mundo e com a vida; que ao se liberarem do tempo fatiado da hora-aula possam se conectar com o tempo de aprendizado ao longo da vida; que ao romper
com o cartesianismo que marca o espaço da sala de aula possam facilitar o diálogo pela flexibilidade da interação e, finalmente, negando-se ao drive-thru das certificações os “professores possam entender que o aprendizado acontece diferentemente em cada indivíduo e que a Escola é apenas uma ponte entre seu sonho e sua realidade (FAZENDA, 2012, p.117)”.