Del 2 (Kappe)
5.3 Studiens begrensning
Sabemos que o trabalho ocupa um lugar central na vida humana. Ele é parâmetro para a organização da vida como um todo, influenciando na organização da rotina diária, compromissos e planos futuros e, até mesmo, nos relacionamentos. Uma categoria fundamental, porque é pelo trabalho que o homem interage no seu meio social, constrói sua história, criando desde suas condições de sobrevivência até as de realização profissional e pessoal. Não é por acaso que as situações de desemprego são tão dolorosas para as pessoas que as vivem, provocando danos à saúde física e psicológica, sem falar nas consequências para os relacionamentos afetivos mais diretos, como o familiar.
Dessa forma, entendemos que o ato de trabalhar é referência central para o indivíduo, influenciando na construção de sua identidade individual e no modo como se insere em seu contexto social. É, principalmente, na relação com seu labor diário que o homem estabelece uma rede de percepções e crenças, que terminam por influir nas suas escolhas, decisões e ações nas mais diversas áreas de sua vida.
Consideramos importante que a dimensão subjetiva do trabalhador seja integrada em nossa análise, pois ela é permeada por experiências, seja dentro ou fora do trabalho, objetivando- as. Aspectos relacionados ao conteúdo simbólico do trabalho e como o trabalhador se relaciona subjetivamente com este labor são constituintes desta dimensão.
É preciso considerar a dimensão subjetiva dos indivíduos, pois essa, ao mesmo tempo expressa e integra a dimensão objetiva da realidade (p.24).
Salientamos, pois, nossa escolha aqui, em abordar os significados do trabalho atribuídos pelas costureiras de facção, ocorreu por acreditarmos que o indivíduo busca compreender e explicar a realidade na qual vive, a partir da criação de significados, signos, símbolos e conceitos sobre essa realidade. Produz também valores, desejos e fantasias, que permeiam suas experiências e expectativas de vida.
Podemos identificar essa perspectiva no relato das costureiras, tanto no que diz respeito à necessidade de sustento, como quanto à afirmação da centralidade do trabalho na vida delas.
Quando abordamos as costureiras sobre o que seria o trabalho para elas, os relatos da costureira líder da Facção 01, Marta, e de sua colega, Ilda, apareceram-nos como marca deste significado do trabalho como modo de sobrevivência, meio de ‘garantir’ a vida, o que não deixa de estar profundamente permeado pela centralidade laboral em suas vidas:
Trabalhar pra mim é desafios, é, é, me superar. Saber que não tô morta! Sou capaz! Trabalhar pra mim é uma benção. Você não fazer nada, não ter uma meta. Eu hein! Trabalhar pra mim é viver. A necessidade me faz trabalhar. Tem pai que diz: vá estudar que eu te garanto. Mas eu fui, pois não tinha o que comer. Fui trabalhar com 12 anos pra viver e sobreviver no mundo. Pra minha mãe, bastava ler e escrever. Tive que parar de estudar e trabalhar. Quem estuda pra ser costureira, ninguém! A gente faz isso pra sobreviver! Ou então trabalha em casa de família, que é pior de que... Tive que aprender uma profissão. Eu odiava estudar. O que fiz? Fui aprender uma profissão. Além de profissão tem o dom. É Deus que dá! (Marta)
Se resume em duas palavras: responsabilidade e sobrevivência. Porque quem tem responsabilidade, tem objetivo de vencer. A sobrevivência vem do meu trabalho. Então pra fazer uma coisa para meu filho, pagar conta, preciso do meu trabalho. Às vezes, a gente tá tão cansada, mas quando lembra do que tem que resolver e fazer, segue em frente... Por isso, resumo nestas duas palavras. (Ilda)
São relatos contundentes de mulheres que parecem ‘agarrar-se’ ao trabalho como quem se agarra à possibilidade de viver, de manter-se viva. Estes relatos trazem, também, a noção de trabalho como o ponto de partida para se possibilitar a realização em outras esferas da vida. Traduzem a realidade e ‘luta’ diária de muitos dos nossos trabalhadores que são inseridos no mundo laboral muito cedo, por não ter o que comer, como no caso de Marta e Ilda, irmãs, que ingressaram aos 12 e 14 anos, respectivamente, e das demais participantes desta pesquisa, como discutimos no capítulo anterior.
E mesmo quando a escolha pessoal é outra, como Marta que queria concluir os estudos e não encontrou apoio familiar, pois, além dos desafios de sua realidade material limitada, a mãe acreditava que ler e escrever bastava, ela precisava era de uma profissão que lhe desse o sustento. Pudemos presenciar como a indignação de Marta dava o tom de seu relato sobre o significado do trabalho. Com essa qualidade de expressão, ela foi capaz de explicitar sua realidade, como veremos no decorrer deste capítulo.
Pudemos identificar como esta noção da centralidade da categoria trabalho atravessa o relato das costureiras acerca do trabalho como um todo, o que fica evidenciado também nestas falas de algumas costureiras:
O trabalho pra mim é muito importante pra mim. Não consigo me ver sem trabalho não. Porque assim se eu deixar de trabalhar é como se tirassem minha liberdade. É porque trabalho realmente eu amo trabalhar. Eu me sinto livre, feliz, eu não preciso pedir nada a ninguém. Então se eu sair, eu me sinto presa. (Glória)
Trabalho pra mim é uma… uma segurança, é uma sobrevivência, né, que a gente vive disso, né. É, a facção é bom pra mim, é… e, tudo, né, a gente… eu vivo de facção e isso aí pra mim é tudo, né? Eu pago energia, eu pago alimentação, colégio, tudo isso aí. (Maria)
O trabalho pra mim é tudo, porque sem o trabalho ninguém vive. Mas assim, é bom o trabalho de facção, né, porque você tem liberdade. No momento que você tem filho né, que você tem mais liberdadade de cuidar do filho, e ao mesmo tempo trabalhar, né? (Mariana)
Apesar do modelo de organização industrial não ser o único modelo de referência laboral, como vimos, Aquino (2007) defende que o trabalho assume um lugar central na estruturação de nossas vidas. Em suas palavras:
Historicamente é preciso considerar o papel assumido pelo modelo de organização industrial do trabalho. O lugar ocupado pelo trabalho ao longo de toda a modernidade levou a uma construção de referência de centralidade dentre as atividades sociais. O trabalho passou a ser o eixo central de articulação da estrutura social, mas o modelo de organização industrial não pode ser concebido como o único modelo de referência laboral, mesmo durante a chamada “sociedade industrial” (p. 21) (grifos nossos).
Entendemos, pois, que foi no transcurso da modernidade, sob a influência do modelo industrial, que esta centralidade se consolidou, mas outros modelos laborais conviviam e eram identificados como trabalho, como a agricultura, o comércio e os serviços, com atividades ainda iniciais. A centralidade do trabalho permeia, então, os mais diversos formatos e modos de
inserção laboral, onde a facção de costura a domicílio é uma deles. Ratificado nas falas das costureiras, fundadas em suas experiências, onde falar em trabalho é praticamente falar de sua condição humana.
As costureiras trazem em suas falas outra faceta da realidade de trabalho vivida, em especial, pelas mulheres, que é a conciliação entre trabalhar e cuidar dos filhos, acompanhá-los. O fato do formato de trabalho em facção a domicílio permitir uma melhor conciliação destas necessidades produz a sensação de ‘estar mais livre’, trazendo claramente o argumento de uma maior liberdade, como um dos benefícios daquele tipo de labor. Este aspecto será retomado mais adiante, quando abordaremos diretamente o trabalho em facção do ponto de vista das experiências apresentadas por elas.
Como vimos antes, apesar de muito discutida e das opiniões diversas a respeito, a centralidade do trabalho na vida das pessoas é defendida por autores de referência, nos estudos sobre a psicologia social do trabalho (Aquino, 2008; 2007) e da sociologia do trabalho, como Overjero (2010). Ao afirmar a centralidade, este autor explicita também a relação estreita entre o trabalho e o capitalismo industrial:
Certamente, para sobrevirem no passado, tanto as pessoas, como os grupos e as sociedades tiveram que exercer algum tipo de atividade, mas o trabalho, tal como o conhecemos (s.d.), é um produto do capitalismo industrial, por isso não tem mais de dois séculos de existência. O trabalho, que nunca teve as funções que tem hoje, cada vez está mais no centro de nossas vidas, tendo convertido-se (s.d.), inclusive, em nossa vida. (p.15).
Sabemos que o trabalho tanto é visto como meio para se alcançar objetivos e finalidades determinadas, como também é espaço de realização individual. Surgiram em alguns relatos a questão de conquistar objetivos, ter uma profissão e fazer o que dá prazer como condições para uma satisfação pessoal. As experiências de Flávia, Diva e Laura expressam estes aspectos, como registramos a seguir:
Trabalhar é construir, atingir meta, objetivo conquistado pelo meu próprio esforço, né? Fui eu que fiz, é muito bom! (Flávia)
Trabalho é necessidade, mas mesmo sendo isso, é também prazeroso. Como a vida sedentária não faz bem. Não é bom a pessoa viver sem fazer nada. (Diva)
O trabalho, eu acho assim, que independente de trabalhar fora (de casa), ou não, ele preenche nossa vida. Apesar de ele ser algo necessário, ele deve dá prazer, a gente tem
que trabalhar no que gosta. Não adianta trabalhar só pra garantir seu sustento, um pouco de conforto na sua vida e não gostar... Eu sou religiosa e acho que o trabalho tem que tá associado à responsabilidade na vida com o que você gosta. Se não gosta, não produz. Se não produz, nunca vai ser reconhecido. Porque já é difícil se esforçar e adquirir o reconhecimento do patrão, se você não gosta, aí fica difícil, imagine como é! A maioria de trabalhadores trabalha assim, só pelo sustento. Como fica? (Laura)
Passamos agora a apresentar as trajetórias laborais destas costureiras, conforme registrado em nossas entrevistas, coletivas e individuais, de modo a nos situar quanto à realidade laboral de cada uma delas, apontando como suas inserções ocorreram e foram vividas por elas, neste caminho até os dias de hoje, quando trabalham em facção de costura a domicílio.