Os instrumentos de coleta de dados escolhidos para essa pesquisa foram as narrativas autobiográficas e a técnica da observação participante.
A escolha pelo método Autobiográfico se justifica pelo fato do mesmo ser estruturado pelas narrativas, organizadas por meio dos relatos e registros, que ofereceram dados para a identificação dos saberes construído pelos sujeitos, tomando-os como significativos no curso da vida profissional.
O conceito de narrativa remete-nos também para uma diversidade de processos usados, neste caso pelos professores, para contarem e recontarem histórias de vida pessoal e profissional que lhes redimensionam o passado e criam novas perspectivas para o futuro, tendo sempre esses processos como pano de fundo a distanciação das pressões da vida diária, para que se possam situar na corrente de acontecimentos e situações que representam, de fato, a realidade educativa (ALARCÃO, 1996, p. 136).
As narrativas são formas de relatar eventos, acontecimentos, períodos determinados da vida dos sujeitos, tendo como essencial a articulação entre a dimensão pessoal e profissional que pode se apresentar de forma oral ou escrita. São narrativas elaboradas pelos professores que,neste caso,poderão possibilitar a eles próprios e a outros a melhora da capacidade de ver, pensar e compreender o que se faz e o que se constrói. Temos aqui uma estratégia elucidativa, que no sentido retroativo poderá ordenar o passado e reorganizar as ações e decisões futuras.
Neste estudo, cuja coleta de dados se deu em forma de narrativas, buscou-se analisar e compreender a percepção que os professores têm dos seus percursos e processos; e ainda,como eles significam tais experiências,trazendo tona conceitos, realidades, experiências, saberes, que incluem contexto e tempo de trabalho. Esperava-se que a materialização das experiências contidas nas narrativas pudesse ser cuidadosamente estudada, e que expusesse dados passíveis de ser interpretados à luz da teoria, ajudando-nos a compreender os processos de desenvolvimento profissional e a contribuição dos saberes docentes adequados à prática pedagógica da EJA.
Quando estudamos sobre narrativas autobiográficas, verificamos não existirem regras rígidas relativas à produção; na verdade, os procedimentos e modos de organização é que devem vir ao encontro aos objetivos. Entretanto, considerando a característica pessoal, que não se pode excluir do texto autobiográfico, precedemos uma cuidadosa seleção do material das narrativas,anteriormente explicitadas aos sujeitos em um roteiro norteador para os sujeitos participantes da pesquisa. (Apêndice A)
Em nosso estudo, as narrativas foram organizadas pelos próprios sujeitos, segundo o roteiro citado acima, em cadernos individuais adotados na forma de diários reflexivos padronizados e fornecidos pela pesquisadora, com indicação de itens que nortearam os escritos dos sujeitos, incluindo aspectos pessoais e profissionais. Esta forma de elaboração do instrumento foi pensada para atingir organização, uniformidade e clareza na coleta dos dados, de forma que as narrativas dos professores trouxessem os saberes construídos ao longo da trajetória profissional de cada um.
Optou-se também por utilizar a técnica intitulada Observação Participante, por acreditar que ela poderia fornecer importantes contribuições na complementação da construção dos conhecimentos pretendidos com a pesquisa, na medida em que, de fato, possibilitaria o levantamento de dados sobre o contexto de trabalho dos professores pesquisados.
Segundo Vianna (2003):
A observação participante deve ser entendida como um processo: o pesquisador deve ser cada vez mais um participante e obter acesso ao campo de atuação e às pessoas. A observação deve, aos poucos, se tornar cada vez mais concreta e centrada em aspectos que são essenciais para responder às questões da pesquisa (VIANNA, 2003,p.52).
Para que a situação descrita acima se efetivasse, foi necessário adotar uma atitude de respeito, interatividade e empatia e insistir na maior inserção possível do pesquisador junto ao grupo pesquisado. Foi fundamental uma abertura para o grupo, considerando que a interação fez parte da condição de pesquisa.
Vianna (2003, p.41) ressalta que “[...] uma das principais questões da metodologia da observação está em definir, de uma forma bastante clara, o papel do observador”. A integração do observador com o conhecimento do campo a ser observado foi fundamental, porém tomamos o cuidado para não comprometer o processo de observação. É importante destacar que a observação sempre acontece em contextos formados por pessoas que se relacionam, agem se comunicam e também observam o pesquisador. É uma situação em que visão e audição devem estar em alerta, a fim de captar informações indispensáveis para a coleta de dados, pois de acordo com Vianna (2003):
Há situações que impedem o registro imediato, por quebrar a naturalidade da ocorrência ou perturbar as pessoas envolvidas no ato da observação. Além disso, é preciso considerar que o constante registro pode, em muitos casos, contribuir para comprometer a qualidade da observação, pois o observador, sem dúvida, dividirá as suas atenções entre o ato de observar e o de registrar as suas percepções, perdendo, dessa forma, elementos que poderiam ser significativos para os objetivos do seu trabalho (VIANNA, 2003, p.59). A observação participante traz em si vantagens sobre outros tipos de observação, uma vez que permite ao pesquisador a compreensão não só de comportamentos, mas de atitudes, opiniões e sentimentos, o que pode enriquecer a análise de determinada situação.
É preciso entender a observação participante como um processo em que o pesquisador cada vez mais vai tendo acesso ao contexto pesquisado e às pessoas, tornando sua observação mais concreta e mais atenta às questões de sua pesquisa.
A observaçãoparticipante pode ser considerada aberta quando o observador é reconhecido pelo sujeito, e sabe os momentos em que está sendo observado; pode ser considerada oculta quando o observador tem sua identidade em sigilo (VIANNA, 2003).Este estudo sobre os saberes docentes dos professores da EJA valeu-seda observação participante aberta, pois os sujeitos pesquisados reconheciam o pesquisador e os momentos em que estavam sendo observados, aceitavam e interagiam na situação real.
Considerando que a Observação Participante é um trabalho intenso e necessita de um período longo para se efetivar, a coleta de dados desta pesquisa aconteceu concomitantemente ao relato autobiográfico,entre os meses de abril e maio de 2012, em visitas realizadas duas vezes por semana, nas quais a pesquisadora acompanhou o trabalho dos professores na unidade escolar em foco. Também foram alvo de observação as reuniões de formação (Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo), que acontecem semanalmente. Ao todo foram realizados dois momentos de observação por semana, num período de duas horas a quatro horas cada, no decorrer desses dois meses.Os itens observados no contexto de trabalho se referiram às relações e trocas entre os pares, às estratégias de ensino usadas no atendimento aos alunos, e à participação nas reuniões de formação. (Apêndice B)