Humanismo. O soldado português é tendencialmente humanista, realizando continuamente uma
acção social, sem para tal necessitar de ordens superiores, como atestam os êxitos nas relações com as populações quer em África quer na Bósnia, e até em Timor (recorde-se o constante apelo timorense para o regresso de tropas portuguesas).
No caso de Goa, a União Indiana desencadeou uma guerra subversiva, de carácter revolucionário. Essa acção provocou a morte de largas dezenas de europeus. Os indianos levaram a cabo atentados, atacaram postos militares, sabotaram caminhos de ferro, a despeito da apregoada política pacifista de Nehru. No entanto, viram-se obrigados a desencadear uma invasão armada, com 40 mil homens, apoiados por carros de combate, aviação e marinha de guerra. A invasão deve-se ao facto de as operações de guerra subversiva não terem permitido atingir os objectivos
A experiência de Goa mostra que a União Indiana não conseguiu aliciar para a sua causa as populações, a despeito da hostilidade internacional face à presença portuguesa no território
Nos campos de prisioneiros, os goeses faziam fila, sob um sol escaldante, para visitar prisioneiros portugueses, revela o Coronel Alexandre Morais, no livro “A Queda da Índia Portuguesa”.
Relevam daqui as características do homem português, onde se salientam a sua superior capacidade de adaptação ao meio, espirito de sacrifício, coragem e humanismo.
Organização. A Secção de Acção Psicológica do Estado Maior do Exército, quando foi criada na
primeira metade da década de 60, era composta por apenas dois elementos, um major do Estado Maior e um oficial miliciano.
A 5ª Repartição, em Moçambique, dispunha apenas de quatro oficiais do Quadro Permanente e três oficiais milicianos com a especialidade de Acção Psicológica.
Imagina-se então a surpresa do general francês de visita ao Comando-Chefe moçambicano quando perguntou se a Repartição de Acção Psicológica dispunha de 150 elementos. A resposta deixou-o boquiaberto!!!102
Os meios foram sempre escassos, tanto no aspecto operacional como no aspecto da acção psicológica. A acção psicológica, embora complexa e especializada, não exige largos recursos. No entanto, nem sempre foi bem compreendida pelos próprios quadros das Forças Armadas. Porque a acção psicológica era confundida com a propaganda, no sentido de manipulação das mentes.
Embora confrontados com sinais da eclosão de conflitos, as autoridades portuguesas continuaram desatentas e só muito tarde, em 1970, foram criados órgãos especializados e doutrina específica. Perante o envolvimento de grande número de famílias portuguesas nos conflitos africanos teria sido necessária a criação de um Serviço de Acção Psicológica, a nível nacional. Infelizmente, ele nunca chegou a existir.
No entanto, não se pode deixar de fazer notar que as condições socio-económicas e políticas vividas pela população portuguesa (baixos salários, ausências de liberdades políticas e cívicas, etc.) não facilitariam, de modo algum, a tarefa dos especialistas da acção psicológica.
Nos conflitos africanos, o empenhamento da quase totalidade dos efectivos nas missões de quadrícula permitiu uma acção de presença eficaz, facilitando um contacto efectivo com as populações, o seu conhecimento e auscultação.
A missão das Repartições de Acção Psicológica era estudar e conhecer a situação moral e psicológica não só das tropas como também das populações, detectando qual o estado de espirito, as sua motivações e as ideias a que eram mais sensíveis.
Conquistar as populações. A acção social nos vários Teatros de Operações provocou grandes
dificuldades aos movimentos subversivos. O aliciamento das populações para as nossas teses fragilizou o binómio subversão/população.
A política de reordenamento da população respeitava o desejo das populações, proporcionando-lhes a melhoria das condições de vida, subtraindo-as da influência inimiga. Com ela obteve-se um efeito psicológico positivo.
Também a realização na Guiné dos Congressos do Povo, onde as populações eram chamadas a discutir e a interessar-se pelos próprios problemas, foi uma das soluções mais interessantes em África.
A africanização dos contigentes foi outra medida eficaz que permitiu mostrar à comunidade internacional a legitimidade da posição portuguesa, ao mesmo tempo que criava clivagens e antagonismos no inimigo.
Como exemplos de acção social aponta-se a construção de estradas e picadas, pontes, viadutos e pistas de aviação, captação e distribuição de água, construção de centrais, redes eléctricas e edifícios, que funcionou como apoio dos governos provinciais na melhoria das condições de vida dos militares e populações103.
A subversão ganha-se indo de encontro à satisfação das necessidades básicas da população, eliminando-lhes a fome, a sede e a doença. A população é um elemento fundamental nesta guerra.
Ganha quem tiver consigo as populações.
Unidade de Comando. Nos casos em que os comandos militar e político-administrativo não estavam
unificados, existiram conflitos104 muitas vezes decorrentes de conflitos inter-pessoais. A experiência
do Guiné que a unidade de comando favorece as operações de acção psicossocial.
Análise do meio humano e do inimigo. A experiência, designadamente em Moçambique e na Guiné, mostrou a importância da elaboração antecipada dos estudos de situação do inimigo e população.
Moral das nossas tropas. Manter o moral elevado moral é fundamental numa guerra que procurava
conduzir o adversário ao desânimo.
Tanto na Metrópole como nas Províncias Ultramarinas diversas publicações foram elaboradas105 que
procuravam retratar com fiabilidade a situação completa, nos aspectos político, psicológico e militar.
103 Ministério do Exército, Actividades do Exército, Separata do Boletim de informação nº 52, SPEME, 1969.
104 As autoridades militares pretendiam atrair populações através de aldeamentos, por exemplo. Como fazer isto se elas
estavam sujeitas a uma autoridade administrativa e não à militar. Existia conflito de autoridade.
Nos Cursos de Estado Maior faziam-se constantes publicações de esclarecimento, mentalização e doutrinação.
A falta de informação pública origina o boato e o rumor, minando o moral das instituições e das populações.