Apesar das investidas da imprensa e da oposição, o presidente Lula cumpria o terceiro ano do seu primeiro mandato sem grandes sobressaltos. O caso Waldomiro Diniz e as dezenas de outros pequenos escândalos que atingiram o governo desde o início de 2004 não haviam aberto nenhuma crise de grande monta. As pesquisas de
opinião apontavam que a popularidade do presidente Lula continuava em alta e davam sua reeleição como certa.
A história começou a mudar em meados de maio de 2005. Uma matéria veiculada por Veja na edição do dia 18 seria o estopim da pior crise política enfrentada por Lula em seu primeiro mandato.
Popularizado pela imprensa como "o escândalo do mensalão", o caso da suposta "mesada" paga pelo governo a deputados para votarem a favor de projetos de interesse do Executivo quase levou o presidente Lula a um impeachment.
Embora a crise tenha sido explorada negativamente por praticamente todos os órgãos da chamada grande imprensa, a revista Veja foi certamente um dos veículos que mais carregou nas tintas e praticamente desencadeou uma campanha para apear Lula e o PT do governo federal.
A matéria que deu início ao escândalo do "mensalão" (18 de maio de 2005) foi publicada por Veja com exclusividade. A revista teve acesso a uma gravação, feita por dois empresários, em que Maurício Marinho, funcionário dos Correios, recebia três mil reais de propina para que eles entrassem no rol de fornecedores da estatal. Marinho afirmava agir em nome do presidente do PTB, o deputado e ex-líder da “tropa de choque” de Fernando Collor, Roberto Jefferson. Embora a legenda fosse da base aliada do Planalto, a primeira reportagem de Veja poupou o presidente Lula e o governo das críticas.
Durante a semana, a imprensa publicou outras acusações de corrupção e atos ilícitos envolvendo Jefferson. Na edição seguinte, de 25 de maio, o caso da propina nos Correios já era o principal assunto da capa de Veja, com um rato de terno e anel de ouro simbolizando os políticos e a chamada em letras garrafais: “Corruptos”. Numa única palavra, o enunciador consegue exprimir toda a realidade que enxerga em torno do governo. Sim, do governo. Ao contrário da primeira edição, desta vez a revista coloca os petistas no centro do escândalo. Parece que o enunciador trabalhou muito durante a semana e descobriu nas entranhas do poder que o caso pode ser muito maior do que se imaginava. Por isso, "corruptos" foi a melhor palavra que a revista encontrou para resumir o que ocorria em Brasília. Ainda na capa, em letras menores, Veja assegura que
o governo tem “pavor" de uma CPI. Falando na condicional, o enunciador diz que Delúbio Soares e Sílvio Pereira (tesoureiro e secretário-geral do PT) “não escapariam da investigação”. Nesta edição, a matéria principal abre com uma foto de Lula ao lado do deputado Roberto Jefferson. O título da matéria é “Diga-me com quem anda...”. O enunciador praticamente pede para o leitor completar e dizer “quem és” Lula, que anda com o “ladrão” da vez. Numa das retrancas da matéria principal, o semanário diz no título que esta já é “a maior crise de Lula”. A linha fina diz que “atingido por um estado de espírito que varia entre o irritado e o assustado, o governo do PT – quanta ironia! – faz tudo contra a CPI”. A matéria começa dizendo que “em seus quase trinta meses de vida, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva nunca esteve tão acuado. A crise que se seguiu à divulgação por Veja do vídeo da corrupção nos Correios espalhou o receio de que o caso acabasse se multiplicando em outros escândalos”.
A edição da última semana de maio foi o início da principal campanha de Veja contra o governo Lula em seu primeiro mandato. A partir daí, o caso transformou-se na principal pauta da revista e foi assunto da capa e do editorial em todas as edições até o dia 21 de setembro, quando o "escândalo do mensalão" começou a esfriar. Neste período, foram dezoito capas seqüenciais, todas noticiando os piores aspectos do governo e do PT. Em 8 de junho, a
revista iniciou sua cobertura da crise em forma de cadernos, com séries de reportagens. Eram, em média, oito matérias por edição, com vinte páginas. Os cadernos acabaram em 24 de agosto.
Maurício Marinho recebendo propina no escândalo que deu origem ao “mensalão”. A foto foi publicada por Veja sete vezes em sete meses: (18 e 25/5, 15/6,
Mesmo antes do escândalo dos Correios configurar-se no caso do "mensalão", em meados de junho, Veja trabalhava para que os petistas permanecessem no olho do furacão que tragava a carreira política de Roberto Jefferson. Aquela altura, o governo assistia a crise de longe. Lula defendia o petebista em público e, no privado, trabalhava para barrar a abertura de uma CPI no Congresso para apurar o escândalo nos Correios.
Menos de duas semanas após a publicação do caso em Veja, o governo mostra o seu primeiro sinal de fraqueza, quando, em 25 de maio, apesar de todo esforço do Planalto, foi aprovado o requerimento para a instalação da CPI. O enunciador apóia as investigações e apela para a emoção do leitor ao destacar que “cada real tragado pelo ralo da corrupção é um dinheiro que deixa de ser gasto na merenda escolar, na compra de remédios para os pobres, na melhoria das estradas, enfim, no desenvolvimento social e físico do país”.
Enquanto isso, Jefferson, acuado e sentindo-se atacado por membros do próprio governo, prometia contra-atacar. “O que será que ele sabe (contra o governo)?”, questionava o enunciador de Veja, em 1º de junho. A revista já explorava o caso por três edições e até agora não tinha nada de concreto que abalasse as estruturas do governo. Deixando a pretensa objetividade jornalística de lado, o enunciador sugere que se Jefferson se sentar no banco dos réus, “três petistas sentarão junto: José Dirceu, Delúbio Soares e Silvio Pereira”.
Até então, o PT e o governo não tinham qualquer envolvimento com a história. O caso de corrupção flagrado e gravado envolvia um funcionário de carreira de uma estatal, que cobrava propina em nome do presidente de um partido da base aliada. Mesmo assim, Veja retoma a estratégia discursiva de associar Lula a Collor. Em 1º de junho, devido às reclamações dos petistas sobre a cobertura de Veja, o editorial lembra que Collor se portava de maneira parecida. O semanário diz que reações desse teor são “previsíveis” nesses casos. “Com certeza, não são inéditas. Fernando Collor, apeado da Presidência em 1992 por um processo de impeachment colocado a andar no princípio por denúncias feitas apenas por Veja, definia-se como ‘alvo das elites paulistas’".
No editorial, Veja tenta mostrar sua imparcialidade, ao dizer que “os tucanos também enxergavam razões subalternas em muitas das reportagens incômodas publicadas pela revista durante os oito anos do governo FHC”. Veja reafirma aqui que não escolhe suas “reportagens investigativas com base em preferências partidárias ou ideológicas – e as publica porque a hipótese oposta, a de engavetá-las, seria eticamente intolerável. A revista não tem a intenção ou a vontade de que suas reportagens causem crises políticas ou desestabilizem governos democráticos. Como sempre fez em seus 37 anos de história, Veja toma a decisão de publicar denúncias tendo como único objetivo servir a seus leitores e ao interesse público”.
Mas, mesmo antes de Jefferson fazer a denúncia do "mensalão", em 8 de junho, Veja já incitava os políticos da oposição, que "pelo menos até agora, não chegaram nem perto do extremo de lançar um slogan pedindo a renúncia de Lula, como fez o PT ao se apegar à bandeira do 'Fora FHC'”. A revista diz que o escândalo dos Correios deverá ser investigado por uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), “apesar dos esforços do governo na direção contrária. Mas também será esmiuçado em investigação criminal já em curso na PF. E, nesse caso, tudo indica que cupins graúdos, graudíssimos mesmo, sairão do buraco".
Apesar dos textos editorializados das matérias de Veja, com fortes ataques ao PT, até então não havia nenhuma ligação entre o partido e o governo com o caso de corrupção dos Correios. Mesmo assim, o enunciador de Veja assume um suposto saber sobre os bastidores do poder para mostrar aos leitores que o PT não escaparia de uma investigação mais profunda. Sem qualquer prova, o enunciador não se arrisca a dizer nada que não seja na condicional. Esse não é o papel do jornalismo, que, em tese, deveria trabalhar com fatos.
Francisco José Karam (1997), no livro Jornalismo Ética e Liberdade, comenta os aspectos dos principais códigos de ética jornalística. Ao analisar os Princípios Internacionais da Ética Profissional dos Jornalistas, o autor cita alguns trechos sobre a responsabilidade social do jornalista:
“O dever supremo do jornalista é servir (...) a uma informação verídica e autêntica através de uma dedicação honesta à realidade objetiva, de uma exposição responsável dos fatos no devido contexto (...) e sem causar distorções.” (apud Karam, 1997, p.109).
Nesse sentido, também corrobora o Código de Ética do Jornalista Brasileiro: “Art. 7 – O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação.” (apud Karam, 1997, p.110).
O Código Latino-Americano de Ética Jornalística e a Constituição Federal Brasileira também abordam esta questão e dizem, respectivamente: “São ações violatórias da ética profissional: (...) - a omissão de informação de interesse coletivo; - a difamação e a injúria.” (p.76) “(...) V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem” (p.77).
Nesse espaço apresentado como plural, o jornalista ocuparia o papel do mediador, responsável por assegurar a representatividade dos mais diferentes grupos sociais. “A dimensão pública do jornalismo exige que, na informação, esteja presente a pluralidade de versões e a maior transparência possível da realidade, mediada pelo profissional”, Karam (1997, p.103).
Mas não é isso que ocorre nas páginas de Veja. Com fontes especialmente selecionadas para fundamentar a tese que a matéria defende, o semanário não ouve todos os lados envolvidos. Para Karam (1997), é preciso que o jornalismo avance, “para que tenhamos, cada vez mais, profissionais inteiros, tecnicamente competentes, politicamente conscientes e eticamente comprometidos com a realização da universalidade humana que mediam todos os dias.” (p.12)