A Palavra plena de Deus é a Palavra que “foi” Cristo e que ardeu e se deixou consumir por este fogo, que ainda hoje persiste e ainda hoje é Cristo e que se chama ‘a Escritura’. Mas, desde a existência carnal de Deus, a palavra de Deus se faz palavra autenticamente humana e fala aos homens com a infinita superioridade que a caracteriza desde a antiga aliança, mas a partir de Cristo fala dentro de uma situação humana. Autenticamente humana. Na Revelação cristã, é o amor absoluto de Deus que em Cristo se faz palavra, que se encontra com o homem, não apenas “como uma espécie de cumprimento superior do princípio cósmico e antropológico”106, que Balthasar considera como interpretações redutivas. Ambas as vias são consideradas pelo autor como simples interpretações redutivas, pois assumem o cosmos e a existência humana como critérios de justificação do cristianismo, o qual, no entanto tem em Si e exibe de per si sua própria justificação.107
Não existe outro texto que dê a chave ao texto divino, que o faça legível e compreensível ou, digamos, mais legível e mais compreensível. Este texto divino deve e quer explicar-se por si. Se o fizer, uma coisa é certa desde o começo: nele não se encontrará nada de quanto o homem tem sabido por si - a priori ou a posteriori, com a facilidade ou com dificuldade, desde sempre ou através de uma evolução histórica - descobrir do mundo, de si mesmo e de Deus108.
Mas a Revelação de Deus ao se fazer Palavra, como ensinamento de uma doutrina, se mostra antes de tudo como ato de Revelação de amor absoluto do Pai como vida de paixão e de morte, também se enfrenta dentro de uma situação autenticamente humana e com isso se
106 BALTHASAR, H.U. Somente o amor é acreditável. Caxias do Sul: Edições Paulinas, 1969, p.65. 107 Ib. p.57.
encara ante outra palavra humana. Se enfrenta ante a disputa, a discussão, aos questionamentos a favor e contra, as frases ardilosas e astutas dos doutores da lei, a incompreensão inquiridora dos discípulos, o titubeio dos medrosos ”que vem homens como árvores que andam” (Mc 8,24). A Palavra se oferece à réplica, ao silogismo, à dedução teológica. Como uma humilhação condescendente da palavra desde o início: “Condescendência não somente de Deus para com sua criatura, mas condescendência do Espírito soberano ao submeter-se a escravidão da letra, desde o ato da criação e inclusive dentro da Igreja”109. Balthasar frisa que esta concessão ao entendimento humano ocorre apenas para afastar seu próprio plano imanente e conduzir o homem ao plano da fé e da decisão de fé. No evangelho de João esta intenção aparece completamente clara na disputa com a samaritana, com a adúltera, com o cego de nascimento, com as irmãs de Lazaro, tudo é sempre uma palavra de redenção que “tende a suscitar uma adoração total no interlocutor”110. Por outro lado, a disputa com os judeu é vista como uma interrupção desse encontro, causada pela obstinação dos interlocutores. Balthasar denomina essas disputas de “paixão da Palavra”111 , da escuridão do não querer entender, perdendo-se a Luz que é oferecida.
Para Balthasar em sua série de ensaios teológicos112 (que ele chamava de “mais esboços do que teologia desenvolvida”), “A Escritura é a palavra de Deus que testemunha a Palavra de Deus”113. A Palavra de Deus apresenta-se dividida em Palavra testemunhada e palavra testemunhante. A própria colocação da inicial em maiúscula (Palavra testemunhada) já índica o caminho que ele pretende seguir.
A Palavra testemunhada é Jesus Cristo, palavra eterna do Pai que ao irromper na história como carne, testemunha a verdade e a vida de Deus. Toda a Revelação de salvação está referida a esta manifestação central da Palavra na história da humanidade. A partir dessa manifestação, ou seja, de Jesus Cristo em diante, a Revelação prossegue pela ação dos Apóstolos e da tradição da Igreja. De Jesus Cristo para trás, através de revelações verbais e históricas de Deus na antiga aliança, através da Lei e dos profetas, chegando até a própria Criação. Ao abordar este aspecto, Balthasar cita Paulo em seu hino cristológico: “Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos,
109 BALTHASAR, H.U. Ensayos Teologicos I: Verbum Caro. Madrid: Ediciones cristiandad, 1964, p.198. 110 Ib. p.198.
111 Ib. p.199.
112 Ao todo são cinco os ensaios teológicos de Balthasar: Verbum Caro (1960), Sponsa Verbi (1960), Spiritus Creator (1967), Pneuma und Institution (1974), Homo Creatus Est (1986).
dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele. Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nele”. (Cl 1,16-17)
A palavra testemunhante é a “série das Escrituras que, desde o Gênesis até o
Apocalipse, acompanha e capta como num espelho a Revelação da Palavra na carne”114. Para Balthasar é justamente isto que diferencia a Escritura da Revelação. A Sagrada Escritura não se identifica com a Revelação; embora a própria Sagrada Escritura seja palavra de Deus, ela o é em forma de testemunho da própria Revelação da Palavra. Além disso a “Sagrada Escritura é a forma de autotestemunho da Palavra na letra, ao lado da qual se dão outras formas de auto testemunho da Palavra”115.
Do ponto de vista de Balthasar, a Sagrada Escritura, enquanto palavra de Deus que se atesta a Sí própria, é identificada e apresentada por ele logo na introdução do seu ensaio teológico “verbum caro”, três aspectos que julga necessários para sua correta interpretação: palavra sobre Deus, palavra de Deus sobre o mundo e palavra de Deus ao homem.
1.1 Escritura: Palavra de Deus sobre Deus.
Enquanto palavra sobre Deus, esta resulta compreensível para os homens por que Deus é expressável ao ter, em si mesmo, a Palavra eterna que O expressa. Sendo assim, essa mesma palavra toma, em determinado momento da história, a figura de um homem, expressando desta forma com atos e palavras humanas, o que há em Deus. “A inteira natureza humana de Cristo é meio de expressão (principium quo) de sua pessoa divina (principium
quod), a qual é a sua vez, expressão do Pai”116. Cada palavra da Escritura é palavra humana autêntica, mas, enquanto tal, meio de expressão de um conteúdo divino. A pessoa de Cristo, em suas duas naturezas como Deus e como homem, garante que a tradução da verdade celestial a formas humanas é possível e exata. “Em verdade, em verdade te digo: dizemos o que sabemos e damos testemunho do que vimos... Aquele que vem do céu é superior a todos; Ele testemunha as coisas que viu e ouviu.” (Jo 3,11.32).
114 BALTHASAR, H.U. Ensayos Teologicos I: Verbum Caro. Madrid: Ediciones cristiandad, 1964, p.19. 115 Ib. p.19.
A este tema, Balthasar vê dois perigos: o de impor limites humanos ao sentido da palavra de Deus, aceitando-a como verdadeira apenas enquanto se adequam as formas humanas de pensamento e aos costumes humanos de vida. “Tentar fazer aquilo que justamente Maria Madalena não devia fazer: “Não me toques, por que ainda não subi ao Pai” (Jo 20,17). Ou ainda, e talvez mais presunçoso, seria aceitar que compreendeu-se de maneira definitiva, esgotando toda a amplitude do que Deus pretendia revelar com o texto. Isto, segundo Balthasar, seria negar que a Escritura é palavra de Deus e que é inspirada.
1.2. Escritura: Palavra de Deus sobre o mundo.
Sendo a escritura a Palavra da Revelação do Filho feito homem, onde Nele Deus marcou o sentido do mundo, a Escritura é também palavra de Deus sobre o mundo. No Filho foi criado o mundo e todas as coisas, as dos céus e as da terra foram projetadas, escolhidas, criadas e recapituladas no Filho (Ef 1,10), para o Filho como sentido e como meta. Na compreensão de Balthasar, Deus, prevendo o pecado, designou a redenção do mundo pela encarnação futura de seu filho unigênito. A redenção, portanto, não é um pensamento de Deus após a criação do mundo. Ao contrário, o mundo foi criado para a Palavra que se faria carne habitando no meio da carne. Ou seja, o mundo foi criado para o cristianismo e para Cristo117.
Portanto, Cristo como Palavra feito carne é a lei suprema do mundo. Sob este prima se pode entender, olhando para trás, a palavra de Deus enquanto Lei e enquanto promessa, ou seja, a forma de palavra sob cuja lei submeteu Deus a sua história com a humanidade. Assim, a lei da história, a lei da natureza e a lei dos homens devem medir-se em última análise pela lei de Cristo, Logos definitivo da criação total118.
1.3 Escritura: Palavra de Deus ao homem.
A Escritura não dá testemunho de uma palavra passada, mas de uma palavra presente, por ser eterna. “Ela não dá testemunho de uma palavra dirigida a outros, mas de uma palavra que se dirige a mim”119. Da mesma forma que a Eucaristia não é uma lembrança de algo passado, mas eternização e presença do corpo e do sacrifício irrepetível, atuais em cada
117 BALTHASAR, H.U. Ensayos Teologicos I: Verbum Caro. Madrid: Ediciones cristiandad, 1964, p.33. 118 Ib. p.35.
momento, a escritura não é relato histórico, “mas forma e veículo da palavra de Deus que nos interpela agora, neste momento120”.
Balthasar vê a existência humana, no mais fundo de si mesma, como um eterno diálogo com Deus. Mas um diálogo onde a palavra de Deus ao homem é infinitamente mais importante que a palavra do homem a Deus. Neste ponto, nosso autor interpõe que a resposta humana só pode ser exata se brota de uma audição permanente da Palavra e nesse ponto surge um desenvolvimento lógico inequívoco: a contemplação, portanto, deve ser entendida também como audição, como um eterno ouvir a Palavra de Deus.
Em Cristo, Deus disse de uma vez por todas e definitivamente tudo o que tinha que dizer a um homem (Hebreus 1,1). A verdade de Deus se comunica aos homens através de Cristo nas Escrituras. Num mundo moderno, ávido por novas experiências tornam-se atuais as palavras de Balthasar: “Nenhuma intimidade de diálogo entre Deus e o homem, mesmo que pudesse ser chamada de mística, pode levar mais adiante que a Escritura ou desenvolver-se à margem dela”121. Se, portanto, a testemunha divina de Cristo é a Sagrada Escritura e a tradição, obtemos que a leitura e o estudo da Escritura no Espírito e sob a direção da Igreja é necessariamente o meio mais seguro para conhecer a vontade concreta de Deus sobre minha vida e sobre meu destino, pois a palavra da escritura abre acesso a Deus constantemente.