A imagem especular é para o psicanalista Jacques Lacan (1901-1981) a função formadora do Eu, um elemento crucial para o entendimento da subjetividade humana. Apesar de ser um dos psicanalistas mais conhecidos por suas obras a respeito da imagem especular, não seria o primeiro a formalizar a relevância da aparência do corpo como formadora da psique. Em 1923, Sigmund Freud publicava Das Ich und das Es / O Eu e o Isso (2011), mostrando que o Eu e a estruturação da psique é acima de tudo um fenômeno corporal, uma projeção mental de uma superfície, que causa uma reação no outro. Nasio (2009, p.55), adotando igualmente a relevância da imagem na constituição psíquica, defende que o ser humano é composto por duas imagens: a imagem mental, das sensações físicas e a imagem visível do espelho, em que a imagem do corpo seria
179 constitutiva do Eu. Mas voltemos a Lacan e à teoria do Estádio do Espelho, que aprofunda os meandros desta condição exposta por Freud anteriormente aos postulados lacanianos.
O Estádio do Espelho foi escrito em sua primeira versão em 1936, para um Congresso internacional de Psicanálise em Marienbad (Alemanha), porém não existem documentos sobre esta comunicação oral. O primeiro material a que temos acesso é a segunda versão escrita para a conferência/comunicação do XVI Congresso de Psicanálise em Zurique, sob o título"O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica" (1949- publicado no Brasil em 1998). Esta última foi reformatada na publicação dos Écrits (1966) e instaura como elemento primordial o Outro, ou o simbólico.
Em linhas gerais, O Estádio do Espelho apresenta o fenômeno ocorrido com a criança na idade de seis a dezoito meses, período em que mesma mostra fascinação e júbilo pela sua imagem refletida no espelho. A constatação do descobrimento de si pelo reflexo da figura humana foi influenciada por uma série de pesquisas realizadas no início do século XX, tanto na área da Etologia quanto na psicologia desenvolvimentista, destacando como autores precursores Charlotte Bühler, Wolfgang Köhler e Henry Wallon.
Evidentemente influenciado por estes escritos, Lacan postula que a descoberta da imagem no espelho é o momento em que a criança se reconhece como um ser integrado e, por isso, fascina-se com a percepção de uma imagem de si. Na imagem refletida, constitui-se o eu que, até então, não passave de um conglomerado fragmentado pelos estímulos localizados (troca de fralda, amamentação etc). Agora, pela visualização externa, os fragmentos encontram-se unificados, em uma forma completa (Gestalt) que produz efeitos permanentes no entendimento da subjetividade. O infante regozija-se, mas ali, neste primeiro momento do autodescobrimento, do "Aha" a criança não se dá conta do que lhe espera: o "logro por trás do júbilo" (SANTAELLA, 2004, p.145). E quais seriam os efeitos nefastos produzidos pela descoberta do Eu por meio do reflexo? Por ser uma apreensão visual que, por este motivo, é exterior ao corpo que sente, o Eu se pauta originalmente no Outro, numa profundeza ilusória, está alienado de si, enxerga-se no que lhe exclui, do lado de fora. Conhece-se, desconhecendo-se, na sua separação. A fixação do olhar no espelho é a fixação pelo rival. É uma
180 imagem de si teórica, fora da pessoa que a possui (JULIEN, 1993, p.167).
Ao ficar fixado na silhueta humana completa, na visão-massa que se lhe apresenta, a criança fascina-se pela projeção. É impossível ficar indiferente à imagem que se apresenta e que docilmente se modifica a cada pequeno movimento empreendido, pois esta é a descoberta da vida eespetacular. Julien (idem, p. 134) reforça que, nesse momento, é instaurada a pulsão escópica, mais especificamente na relação do desejo de ver e ser visto, no gosto de sermos olhados, examinados, abandonados, des-cobertos, ex-postos.
A partir do "Aha" é dada, segundo Lacan, a constituição humana pelo advento da alteridade, uma configuração insuperável a partir do outro. Considerando isto, Ogilvie (1988, p.112) sugere que a palavra Estádio no "Estádio do Espelho" seria uma denominação mal colocada, pois o que se apresenta, na proposição de Lacan, não se limita a um contexto transitório, de uma fase a ser superada (assim, não é um estágio), porém um aspecto permanente. Pela técnica de visualização refletiva, seríamos formados, identificados pela forma exterior, reversa e mesmo trapaceira.
Agora atentemos para a variação determinante no Estádio do Espelho da figura do Outro (o simbólico), que não apareceu na primeira versão da teoria (1936/1949), mas que é imprescindível para o entendimento das relações subjetivas do ser humano.
Na escrita depois dos anos 1950, Lacan desenvolve o que viria a ser chamado de três registros: O imaginário, o real e o simbólico (Santaella, 1999) e, desde essa época, vemos a complexificação da teoria do Estádio do Espelho, que ganha influência determinante do Outro constituído por meio do simbólico. No primeiro momento (1936, 1949) o Estádio do Espelho apresentava a preponderância da Imagem Especular como o Registro do Imaginário, pela visualidade pura, sem significação. Um narcisismo primário, pautado pela imagem do Eu Ideal, puro e supostamente pleno. Porém, no decorrer dos anos, Lacan percebe que seria impossível permanecer apenas neste registro visual, necessitando da dimensão simbólica pautada pelo ideal de eu, fazendo com que o simbólico tenha primazia sobre o imaginário (JULIEN, idem, p.33). A prevalência do símbolo sobre o imaginário é a mesma do ideal do eu sobre o eu ideal.
181 O ideal de Eu, o registro simbólico, no exemplo da criança, é o terceiro que se encontra no momento da descoberta da imagem refletida no espelho, o significante, o adulto que sanciona ou aprova a imagem refletida, é o que determina o imaginário, superpondo-o como o modelo a que a pessoa busca conformar-se pelas mediações. Sinal de amor que demanda resposta de um terceiro. Para além do Imaginário e do Simbólico encontra-se o corpo Real, sustentado na pulsação e na organicidade indelével da vida, sofrendo as vicissitudes da existência.
A imagem do corpo, especialmente a simbólica e a imaginária, constitui um caminho privilegiado para o acesso ao inconsciente, flutuando no interstício de uma relação de amor, de ódio, de desejo e de angústia, como cita Nasio (2009). A imagem imaginária, quando perpassada pelo simbólico do Estádio do Espelho, já se constitui como um duplo virtual, uma réplica em seu aspecto alienante (de uma representação que está fora do real bruto), desta forma se caracteriza como um SIGNO, investido de libido.
O corpo imageado nas fotografias e no espelho é necessariamente signo, como afirma Santaella (1996, p.38), reflete e refrata a realidade e, ao refletir, já se transforma, se apresenta sob um novo prisma significante escolhido, de energia investida libidinalmente, convencionado pela condição na qual se apresenta. A Imago formalizada é erigida por similaridade, um corpo gerando outro corpo. Aceito ou rejeito o signo do reflexo, na comunicação entre o corpo real e o corpo imaginário, bem como o simbólico devolvido pelo espelho, sob o qual se decide o que deve ser disciplinarizado, recalcado.
Trazendo a questão para o nosso tema, no momento em que o indivíduo escolhe recalcar elementos de seu corpo ou disciplinar aquilo que é considerado "defeito" a fim de autorizar a imagem que o representará nas redes, ele efetua ações negativizantes e violentas porque, conforme Nasio (idem), todos têm de si uma imagem deformada, exageradamente negativizada, falsa, constituída pela miragem, seja por excesso, seja por falta, ou ainda por uma ideia falsa das sensações internas. Por estarmos mediante a condição do Espelho de forma afetiva (que advém da fascinação), percebemos o corpo como fantasia, “mergulhado nas brumas de nossos sentimentos, submetido ao julgamento do Outro interiorizado” (p. 63).
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