Aqui apresento os resultados de uma pesquisa quantitativa, produzida com um formulário que chamei de questionário, aplicado a 500 pessoas de diferentes localidades do Brasil que participaram da caminhada oficial dos “Passos de Anchieta” no ano de 2008.
Embora a realização deste trabalho como um todo esteja imbuído na tônica da “natureza” do fenômeno estudado, o que correspondeu a uma construção do objeto através de conceituações teóricas, bem como a partir de relatos e experiências dos andarilhos nos “Passos de Anchieta” (o que consta na descrição e interpretação no item dos grupos focais, no capítulo 5), entendi ser também necessário e interessante a utilização de um estudo de “extensão” ou de uma
92 abordagem quantitativa do mesmo fenômeno. As freqüências simples aqui apresentadas e alguns cruzamentos realizados nos fornecem material para hipóteses interessantes, que não serão tratadas ou testadas, senão apenas sugeridas aqui. Os dados nos permitiram também pensar em algumas relações e interfaces entre religião e outras dimensões da vida social, também medidas na pesquisa, aqui apenas sugeridas através de alguns cruzamentos.
O objetivo aqui foi o de refletir mais acuradamente sobre as impressões e opiniões dessa categoria chamada de “andarilhos” que estiveram presentes e participaram da experiência de fazer o caminho de Anchieta na 11ª edição do evento em 2008. Assim, para melhor compreender os “sentidos” atribuídos a este que é hoje um dos mais importantes eventos do calendário religioso do Estado do Espírito Santo, por seus participantes, foi aplicado um instrumento junto aos andarilhos durante o evento em três dias distintos.
Utilizamos a aplicação estratégica do questionário nos dias 22, 23 e 25 de maio de 2008 aos participantes que chegavam aos “locais de parada” em cada um destes dias ao fim de uma jornada do caminho, exceto, no dia 24, que foi num sábado. No primeiro dia da caminhada oficial13, a largada ou o ponto de saída, como já disse anteriormente, aconteceu na Praça da Catedral Metropolitana de Vitória, que fica na chamada cidade alta, no centro da capital capixaba. Já o local de chegada deste primeiro dia foi a Praça Central da Barra do Jucu, no município de Vila Velha. Lá, obtivemos um total de 234 indivíduos entrevistados, o que corresponde ao maior percentual (47,0%) de informantes contabilizados nos três dias de aplicação do questionário em campo. No segundo dia, a parada ou o lugar de chegada dos andarilhos foi a Praia de Setiba, no município de Guarapari; lá obtivemos um percentual de 23,5% dos entrevistados que correspondeu a um número intermediário de informantes. Seguimos, enfim, para o último dia da aplicação do questionário que correspondeu ao último dia de caminhada, no domingo; o local de chegada ou o fim do caminho e encerramento da caminhada oficial da peregrinação dos “Passos de Anchieta” acontece na Praça da Matriz, em Anchieta. Lá, foram entrevistados 147 andarilhos, o que correspondeu a 29,5% dos informantes, como demonstra a tabela 07.
Tabela 08 - Local de preenchimento do roteiro
Local Freqüência Percentual
Barra do Jucu 234 47,0 Anchieta 147 29,5 Setiba 117 23,5 Total 498 100,0 Gráfico 6
Embora essa população de informantes não constitua uma “população amostral” dos participantes do evento em 2008, estes resultados tratam-se de um referencial importante no contexto do fenômeno estudado e nos permite responder questões a partir de dados coletados entre indivíduos que se dispuseram responder ao roteiro de pesquisa.
Na execução e aplicação do questionário contei com uma equipe de pesquisadores informais recrutados entre familiares e amigos que já acompanhavam o processo de pesquisa e foram orientados sobre a abordagem aos informantes. Durante a coleta de dados os andarilhos foram entrevistados individualmente e também em grupos; assim, entre os dias 22 a 25 de maio foram entrevistados 500 andarilhos. Entretanto, foram aproveitados 498 questionários preenchidos pelos pesquisadores e pelos próprios informantes.
A fim de obter um perfil geral dos indivíduos entrevistados elaborei um formulário com 14 (quatorze) perguntas abertas e fechadas que me permitiram construir um perfil socioeconômico de cada informante e localizá-los geograficamente. O questionário está dividido em duas partes. A primeira corresponde ao perfil geral e perguntamos sobre sexo,
Local de preenchimento do roteiro
29,5 23,5 47 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50
Barra do Jucu Anchieta Setiba
Local P e rc e n tu a l
94 origem do andarilho e qual a sua religião; sendo que, relativo à pergunta sobre “religião”, além da resposta aberta foi fornecida também a opção de se marcar um item que identificaria o informante como sendo um indivíduo “sem religião”. Queríamos, desse modo, dar oportunidade aos entrevistados de indicar sua orientação religiosa com liberdade e sem censura, mais do que cobrar-lhes uma definição de “religião”. A possibilidade de não professar nenhuma religião foi garantida pelo item objetivo “não tem religião”. Como se verá tal estratégia produziu um conjunto de dados que, se de um lado, se conformam às suposições teóricas da pesquisa, de outro, revelam uma dimensão ou quadro de “indefinição” religiosa pertinente à configuração atual da vida religiosa dos capixabas.
Na segunda parte do questionário, concentramos questões pontuais sobre o evento “Passos de Anchieta”; a forma de concebê-lo pelo andarilho, bem como, sobre fatores que poderiam tê-lo motivado e influenciado a participar desta peregrinação. O questionário embora tenha sido curto, enxuto e objetivo, os resultados dele obtidos me possibilitaram identificar e discutir vários aspectos da percepção e opinião dos andarilhos entrevistados e de sua atitude e concepção frente ao evento em questão. Esse instrumento aplicado me permitiu chegar a um desenho mais elaborado desta população entrevistada que me ajudou a melhor compreender o objeto estudado. Então, vamos aos dados...