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Alternativ 1: Skarbo + Årø med ny skole på Helle

8. AKTUELLE ENDRINGER I SKOLESTRUKTUREN I KRAGERØ

8.3 ØKONOMISKE KONSEKVENSER VED DE ULIKE ALTERNATIV

8.3.1 Alternativ 1: Skarbo + Årø med ny skole på Helle

Consideramos que observar o ambiente e o cotidiano dos sujeitos no Lar Antônio de Pádua inclui lidar com aspectos subjetivos e objetivos, em um mesmo construto, que é o relato, sempre na vertente da epistemologia qualitativa. Ao iniciar este capítulo, fazemos uma reflexão sobre os novos olhares da Ciência na pesquisa qualitativa, que admite a multirreferencialidade, a subjetividade, a observação participante, a implicação do pesquisador, da orientadora e dos espíritos, a escuta das questões subjetivas e a percepção (autoria) dos sujeitos, implicados no que veem.

Achamos viável esta perspectiva em face desta pesquisa envolver tais cenários discursivos que avultam aprofundar um olhar sobre os novos rumos da Ciência que levam a novos paradigmas, como o paradigma do Espírito.

O tema da adoção, ao situar-se no Lar Antônio de Pádua, chama-nos a olhar a perspectiva Espírita em um contexto concreto. É ao mesmo tempo delicado esse olhar, por tratar de transições de vínculos parentais e singularidade de sentimentos que se tornam complexos na abordagem espírita, envolvendo a dimensão transcendente.

Em face desta dialogia, trata-se de uma pesquisa complexa, com uma pluralidade de referências – espiritual, educacional e psicológica – nos termos da pesquisa qualitativa que, como vimos de dizer, possibilita o diálogo com as dimensões subjetivas e leva-nos a

considerar a implicação do pesquisador no que estuda. Devemos assinalar, também, que tanto a perspectiva Espírita como a nossa eleição metodológica nos conduzem a perceber o ser humano como uma totalidade: “[...] uma totalidade dinâmica, biológica, psicológica, social, cultural, cósmica, indissociável.” (BARBIER, 2004, p. 87).

Tentamos galgar a racionalidade emancipatória, que considera a subjetividade em tudo o que o termo implica, asseverando que todo conhecimento é uma forma de autoconhecimento (SANTOS, 2005); subjetividade que se articula com os contextos concretos que a constroem; é emoção, individualização, contradição, enfim, é expressão íntegra do fluxo da vida humana, que se realiza por meio de sujeitos individuais, nos quais sua experiência se concretiza na forma individualizada de sua produção (REY, 2005).

Não há um fenômeno com apenas uma verdade em si, mas há um fenômeno que se constrói com base em um lugar, que pode evocar muitos prismas. Pode-se dizer que o sujeito se situa de um determinado lugar para fazer a pesquisa, percorrendo sempre um caminho que nos leva a considerar que o objeto das Ciências é um objeto construído.

Desse modo é que, ao centrar nossa visão no Lar Antônio de Pádua, focalizando os diversos âmbitos da esfera educacional que ele desenvolve, trazemos a reflexão de Vasconcelos (2002) para dialogar com as escolhas que mostram aspectos epistemológicos de nossa perspectiva em pesquisa. Também Vasconcelos (2002) nos auxilia a refletir sobre o aspecto construtivo da pesquisa e nossa inserção nela.

Rey (2005) já nos alertava para adentrar algumas compreensões sobre a epistemologia na pesquisa qualitativa em saúde, em especial, na Psicologia Social, área com a qual dialogamos.

Os fenômenos de pesquisa passam por alterações através dos tempos. As relações destes com a Ciência, a Religião, a História, a Política e outras perspectivas traziam posturas onde dominavam a objetividade e a busca de neutralidade, aspectos da epistemologia tradicional que, de início, foram hegemônicos no panorama das pesquisas científicas. Aos poucos, essa busca de neutralidade e de uma objetividade, onde o sujeito pesquisador desaparecia, foram dando lugar à compreensão das implicações do sujeito observador no que vê dos fenômenos e recobrindo a observação da subjetividade com uma negação da neutralidade, em Ciências.

A subjetividade, primordial neste processo de conhecimento e autoconhecimento e o dialogismo pesquisador-pesquisado possibilita-nos um caráter transformador e construtor da pesquisa; lugar novo da pesquisa na Pós-Modernidade, que rompe com o pensamento

hegemônico científico quando baseado em uma objetividade que exclui dimensões (inter)subjetivas, bases do fazer da Psicologia e da Educação.

Esta pesquisa é, portanto, uma abordagem qualitativa que, além de tratar de aspectos subjetivos pressupõe a não neutralidade do pesquisador e considera, até mesmo, a intuição e o sentimento dos sujeitos, pesquisador, pesquisado, orientadora e espíritos (material psicográfico), em sua abordagem, o que nos faz redigir esta pesquisa na primeira pessoa do plural. Devemos ressaltar, então, que nossa busca da perspectiva dos adotados no Lar Antônio de Pádua, nessa abordagem multirreferenciada, no contexto da perspectiva qualitativa, também é uma epistemologia – um modo de produção de conhecimento. Estas referências são formas de pensar o conhecimento humano que possibilitam sustentar a pesquisa em novas bases.

Ante a evolução epistemológica e, nela, perante o posicionamento do sujeito nas pesquisas, percebemos, no trajeto das Ciências Humanas e Sociais, o trânsito de um paradigma cientificista ou interpretativo para um paradigma ético-estético, onde o respeito às múltiplas formas de subjetivação se alia aos novos confrontos e ao tratamento da alteridade em pesquisa. É que, como diz Vasconcelos (2002, p. 66), os sujeitos visam a “[...] assumirem o sentido de sua práxis e se instaurarem como indivíduos e grupos sujeitos, e não grupos sujeitados.”

Portanto, citando Rey (2005), a produção de conhecimento capaz de sustentar mudanças no âmbito das Ciências sociais requer novas “zonas e sentido”.

A elaboração de novas epistemologias, capazes de sustentar mudanças profundas no desenvolvimento de formas alternativas de produzir conhecimento nas Ciências Sociais, requer a construção de representações teóricas que permitam aos pesquisadores ter acesso a novas “zonas de sentido” sobre o assunto estudado, impossíveis de serem construídas pelas vias tradicionais. (REY, 2005, p. 7).

Nesse sentido, dispomos do caráter interpretativo para as expressões do sujeito estudado.

O conhecimento é uma produção construtivo-interpretativa, isto é, o conhecimento não é uma soma de fatos definidos por constatações imediatas do momento empírico. Seu caráter interpretativo é gerado pela necessidade de dar sentido a expressões do sujeito estudado, cuja significação para o problema objeto de estudo é só indireta e implícita. (REY, 2005, p. 31).

A interpretação, por sua vez, é um processo em que o pesquisador integra, reconstrói e apresenta, em construções interpretativas, pois, diversos indicadores obtidos durante a pesquisa, não teriam nenhum sentido se fossem tomados de forma isolada, como constatações empíricas (REY, 2005).

Em virtude da evolução epistemológica que assistimos, vemos que a postura do sujeito nas pesquisas segue o trajeto das Ciências Humanas, no sentido de sair de um paradigma cientificista de racionalidade positivista, para um paradigma ético-estético, com operadores existenciais, onde a pesquisa evidencia seu caráter construtivo. Para tal Guattari (1992, p. 33 apud VASCONCELOS, 2002, p. 66):

[...] propõe que as ciências humanas transitem de um paradigma cientificista ou interpretativo para paradigmas ético-estéticos, pelos quais se buscam operadores existenciais que, da mesma forma que as diversas discursividades de escritura, de voz, musicais ou plásticas, podem promover rupturas e emergências, acontecimentos e focos mutantes de subjetivação.

O termo qualitativo, como alternativa de conhecer, compreender e interpretar o significado das narrativas dos sujeitos, no nosso caso, os adotados ou criados, de algum modo, no Lar Antônio de Pádua “[...] trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes.” (MINAYO, 2004, p. 21-22).

Para Rey (2005), o termo qualitativo é trabalhado e desenvolvido nas Ciências Antropossociais, por possibilitarem acesso às dimensões subjetivas, como se vê, e aos contextos onde são produzidas.

Aborda Rey (2005), desse modo, a pesquisa qualitativa como uma epistemologia, processo de produção de conhecimento que se faz no contexto concreto da pesquisa. Assevera Rey (2005), que a epistemologia qualitativa é apoiada em princípios de importantes consequências metodológicas, que pedem escolhas claras, ao tratar do conhecimento como uma produção construtivo-interpretativa. Ressalta o autor o caráter interativo da produção de conhecimentos e a significação da singularidade dos estudos e dos casos como nível legítimo da produção de conhecimento.

A pesquisa qualitativa é um processo permanente de produção de conhecimento, em que os resultados são momentos parciais que se integram constantemente com novas perguntas e abrem novos caminhos à produção de conhecimento. Cada resultado está imerso em um campo infinito de relações e processos que o afetam, nos quais o problema inicial se multiplica em infinitos eixos de continuidade da pesquisa. (REY, 2005, p. 72).

Nesta pesquisa, concordamos com a intenção de Rey (2005), quando assinala que a abordagem qualitativa migra de uma epistemologia da resposta para uma epistemologia de construção. Portanto, o qualitativo na pesquisa epistemológica permite a lógica indutiva sobre as questões verificadas, em contextos naturalísticos, considerando, interpretando e contextualizando onde os fenômenos ocorrem.

A definição de nosso objeto de estudo, logo, em termos qualitativos, está associada à sua natureza ontológica, que, ao se definir em termos de sentidos subjetivos e processos de significação, conduz-nos à definição de unidades complexas para seu estudo. É nessa medida a abordagem qualitativa, neste estudo, pois, se volta para a elucidação e o conhecimento dos complexos processos que constituem a subjetividade (REY, 2005, p. 48).

Nossa pesquisa, de cunho qualitativo, acontece, portanto, em uma configuração multirreferencial, reiteramos, capaz de focalizar o diálogo entre Educação, Psicologia e a perspectiva Espírita, que envolve Ciência, Filosofia e Religião, o caráter multirreferenciado sendo inerente à perspectiva espiritista e aqui ampliado pela perspectiva das outras ciências. Ancoramo-nos, pois, na perspectiva qualitativa, ao capturar narrações, ideias, sentimentos, inscritos nas formas de convivência que marcaram o tema da adoção, vivido pelos que fazem a obra do Lar Antônio de Pádua, alvo deste estudo, aprofundando categorias como direitos sociais e busca do amor como construção espiritual, bem como educação espírita e laços de família.

O caráter qualitativo, é certo, remete a um compartilhar profundo e empático com sujeitos, experiências e situações que compõem o objeto da pesquisa – e foi assim que nos sentimos desde que adentramos este estudo, feito sobre o Lar Antônio de Pádua. Já afirmamos que a pesquisa qualitativa explora em muito a espontaneidade e a flexibilidade da pesquisa e do pesquisador, já que abrange a (inter)subjetividade dos sujeitos, sua não neutralidade e imbricação no trajeto; e foi assim que nos vimos desde o início da pesquisa.

A eleição da abordagem qualitativa e multirreferencial ia permitindo a nós, então, que pudéssemos ver-nos implicada no processo. A atenção à complexidade dos fenômenos e dos sujeitos ia possibilitando um olhar de dentro mediante o ponto de vista do próprio sujeito, na busca das significações ou produção de sentidos sobre os fenômenos observados. Dessa maneira buscávamos, ao pesquisar o Lar Antônio de Pádua, os sujeitos que ali viviam, sua perspectiva de vida, sua subjetividade. Nessa construção, ao reconhecer as múltiplas dimensões dos sujeitos e sua relação com a complexidade, vislumbrávamos a multirreferencialidade, que para Ardoino (1998), significa muitos pontos de vista simultâneos. A análise multirrefencial pode utilizar-se, pois, de várias linguagens e ângulos diversos para a compreensão dos fenômenos estudados, sendo, antes de tudo, o reconhecimento do valor do plural, das interfaces dos fenômenos em diálogo (ARDOINO, 1998, p. 2). Perceber os fenômenos desse modo requer uma leitura plural do que se estuda.

A análise multirreferencial das situações das práticas dos fenômenos e dos fatos educativos se propõe explicitamente uma leitura plural de tais objetos, sob diferentes

ângulos e em função de sistemas de referências distintos, os quais não podem reduzir-se uns aos outros. Muito mais que uma posição metodológica, trata-se de uma decisão epistemológica. (ARDOINO, 1995b, p. 7).

Refere-se Ardoino às óticas de leitura de linguagens diferentes, que envolvem diversas teorias ou disciplinas que se deve saber articular. Salienta, assim, o caráter heterogêneo da multirreferencialidade, alcançada mediante óticas de leitura e de linguagens diferentes (psicológica, psicossociológica, sociológica, econômica etc.), que em sua heterogeneidade é necessário saber combinar e articular (ARDOINO, 1990).

Portanto, a atitude da multirreferencialidade eleita neste estudo é a de uma práxis reflexiva que considera a característica plural dos fenômenos sociais: “[...] as ciências humanas necessitam de explicações, ou de olhares, ou de óticas, de perspectivas plurais para dar conta um pouco melhor, ou um pouco menos mal, da complexidade dos objetos.” (ARDOINO, 1998, p. 4). Analisar os dados pesquisados portanto, nesse contexto, inclui a “compreensão” e o “acompanhamento” dos fenômenos vivos e dinâmicos (ARDOINO, 1995a).

A perspectiva em que se inscreve o pensamento Espírita, também alicerçado em visão multirreferenciada, por envolver diferentes áreas do saber que interagem, na prática, entre si e na subjetividade dos sujeitos, junto à multidimensionalidade do pesquisador e do contexto da realidade estudada. É que o Espiritismo é doutrina filosófica de bases científicas, filosóficas e religiosas e nessa medida uma perspectiva multirreferenciada, daí que nossa eleição traz dimensões que ampliam os caminhos desta pesquisa e da racionalidade no fazer ciência.

Lidar com múltiplas referências, como orienta Borba (2001), atende às necessidades de fazer as visões das problemáticas humanas comportarem diversas abordagens em Ciências, e, mesmo outras perspectivas, oportunizando o diálogo entre elas, ultrapassando a unidimensionalidade na captura do movimento dos fenômenos. Essa abordagem em Ciência nos parece ajustada a este estudo, uma vez que lidamos com a multiplicidade das formas de conhecer, considerando o sujeito como produtor legítimo de conhecimentos e de sentidos, na sua forma singular e inteira de ser humano. Sobre essa inteireza do ser humano, Joanna de Ângelis (1990, p.151) em psicografia de Divaldo Franco, assim se pronuncia:

O homem é, deste modo, um conjunto de elementos que se ajustam e interpenetram, a fim de condensar-se em uma estrutura biológica, assim formado pelo espírito – ser eterno, preexistente e sobrevivente ao corpo somático -, o períspirito - também chamado modelo organizador biológico, que é “o princípio intermediário, substância semi-material que serve de primeiro envoltório ao espírito e liga a alma ao corpo. Tais, num fruto, o germe, perisperma e a casca” (*) – e o corpo (*) – que é o

envoltório material. Estes elementos mantêm um inter-relacionamento profundo com os respectivos planos do universo.

Conforme Warschauer (2001), que traz o conceito de autoria, falar de si e de suas relações com o real, em propostas de formação, é combater uma tradição científica que tem privilegiado as análises da exterioridade dos fenômenos e reintroduzir, mediante essa crítica, o autor sujeito e pessoa no processo, explicando sua representação do mundo e seus instrumentos de compreensão, antecipação e ação. Com suas palavras:

Falar de si e das próprias relações com o real em propostas de formação é enfrentar uma tradição científica que tem privilegiado análises da exterioridade dos fenômenos, tratando-os com a objetividade que caracteriza a ciência moderna, a ciência cartesiana, que fragmenta os fenômenos para observá-los “de fora”, partindo do pressuposto de que o cientista, enquanto observador, dispõe de objetividade e neutralidade perante o observado. Trata-se, portanto, de reintroduzir o autor, enquanto sujeito e pessoa, explicitando sua representação do mundo e seus instrumentos de compreensão, antecipação e ação. (WASRSCHAUER, 2001, p. 16).

A autoria, no conceito de Warschauer é, portanto, constituída por meio de uma relação de sujeito com o que se estuda; calça-se nas oportunidades de partilha e na percepção do que o outro tem de quem lhe é semelhante, podendo amadurecer e aprender com ele outras formas de reagir às situações, onde a experiência é formativa por ser reflexiva, pelo fato de rememorar o percurso do vivido e a história do grupo. Veja-se como nós, desde nossa entrada em campo, flagramo-nos vivendo esse assemelhar-se ao outro com o qual vamos partilhar o caminho da pesquisa.

Quando entrei no Lar Antônio de Pádua, senti que as pessoas pareciam ter um mundo organizado e equilibrado, harmonizado mesmo em meio a conflitos, onde não viam o que seria o novo como acidente. Do lado de dentro, senti como se um mundo enorme tivesse sido aberto aos meus olhos. Eu tinha a impressão de que estava em uma colônia espiritual. As flores tinham seu colorido suave, os amarelinhos se sobressaindo. Vi pessoas saindo do que me parecia ser um escritório; outras pessoas do que parecia ser uma cozinha; outros apanhavam folhas secas das flores que se via desde a entrada; outros cantavam com crianças. Dona Anália me recebeu com naturalidade e simplicidade (eu havia marcado um encontro com ela e falado da finalidade da minha vinda, dizendo da pesquisa). Senti-me, então, uma pessoa igual a todos dali. (DIÁRIO DE PESQUISA)9.

Ao trabalhar com vínculos familiares e transicionais, do ponto de vista presencial e laborando aspectos transcendentes, vemos que estamos priorizando o outro e a formação do ser também com o outro, semelhante ou diverso. Ainda, para Warschauer (2001), a construção da autoria está ligada também à qualidade da autorização que recebemos dos outros -

9 O diário ou jornal da pesquisa é um diário de campo pessoal em que são registradas nossas anotações,

observações e impressões durante a pesquisa; é um material com registros e reflexões de campo com autoria marcada pela reflexão no curso da pesquisa.

professores, pais, irmãos, colegas e pessoas com quem convivemos – e está ligada ao modo como vivemos e nos construímos com, pelo e através do outro.

Rotina de encontros. Rodas de partilhas, onde a relação com os conhecimentos pode ganhar outro sentido: o do cuidado com o Outro e com o Ambiente, enfrentando as contradições, os antagonismos e a complexidade do real, o que só pode ser feito coletivamente, através de múltiplos pontos de vista, do diálogo e do aprender a conviver com o diverso. (WARSCHAUER, 2001, p. 16).

O desenvolvimento da criatividade e inovação, na esfera (inter)subjetiva, se sustenta fundamentalmente na capacidade de os pesquisadores, como pessoas ou grupos particulares de pesquisa, assumirem o seu processo de singularidade e individuação (VASCONCELOS, 2002, p. 97).

Mesmo olhando as semelhanças, quando fui vendo a vida dos filhos do Lar Antônio de Pádua de mais perto, comecei a pensar em minha própria vida de adotada. Minha mãe já tinha desencarnado, e eu percebia como nós nos amávamos. Como eu acreditava que ela estava viva, em outro plano da vida, como todos ali pensavam. Enfim, comecei a ver mais minhas próprias singularidades. E fui lembrar minha própria história de um novo jeito. Quis parar, ao me deparar com tanta emoção; muitas vezes sofri, mas achei que eu estudara para cuidar dos outros, como psicóloga. Poderia dar conta de mim; o amor de minha mãe e minha filha, como o de outras pessoas que me amavam, ajudava. (DIÁRIO DE PESQUISA).

Neste universo educativo, ao situar nosso campo de pesquisa, o Lar Antônio de Pádua, e buscar compreender como se dá a educabilidade do sujeito em situações de adoção, deparamos uma convivência permeada de uma rotina de encontros e rodas de partilhas.

É como se o tempo não tivesse passado; eu vou lá, a gente vai lá, cada um tem sua vida, mas a nossa vida também está aqui.

[...] A gente faz a pomada, a gente vem conversar com mãe Anália, a gente assume a direção do Lar, o encaminhamento da creche, minha mulher e filhos vêm também... Pode ter desafio, pode ter alegria... A gente vive a vida aqui também, no Lar. É como se o tempo não tivesse passado. Ficou o amor. Continua o amor até hoje. (SÍRIUS).

Na perspectiva de Warschauer (2001), nas ações do cotidiano, a relação com os conhecimentos pode ganhar outro sentido: o do cuidado com o Outro e com o ambiente, enfrentando as contradições, os antagonismos e a complexidade do real, o que só pode ser feito coletivamente, por via de múltiplos pontos de vista, onde medram o diálogo e o aprender a conviver com o diverso.

Para Warschauer (2001), em seu estudo intitulado Rodas em rede: oportunidades

formativas na escola e fora dela; a complexidade, na prática, é parte do mundo e de nossa

relação com ele; perpassa nossas contradições e ambivalências, instabilidades e limites pessoais, divergências e conflitos entre pessoas e suas visões de mundo. “Analisar oportunidades formativas presentes no cotidiano [...] para favorecer esses aprendizados, pode

cooperar com a construção dessa perspectiva de educação, em sintonia com o paradigma científico emergente.” (WARSCHAUER, 2001, p. 17).

Estamos a ver que nos situamos pensando formação fora da escola, com base nos aspectos dos paradigmas emergentes como norteadores de nossa visão. Portanto, são estas as características desta pesquisa, que situa o sujeito dos fenômenos em estudo como ativo, crítico e autônomo, produtor de saberes sobre seu processo de educação e sobre a realidade em que se insere.

Rey já observara que, quando se trabalha com narrativas em pesquisa qualitativa, focaliza-se esta modalidade de investigação em Ciências como a que se desenvolve em ambiência onde trata-se sempre de observar e de descrever qualidades ou propriedades de fenômeno. O fato de lidar, nesta pesquisa, com a Ciência da Psicologia, em um quadro dialógico, interdisciplinar, ainda, traz necessidades epistemológicas específicas, que mostram