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Struktur, ideologi og forhold til omgivelsene

Todas as culturas acharam substâncias para estimular e a manipular o prazer do homem, mas o que funciona mesmo é o que atende a sua enorme necessidade de ilusão (CYRULNIK, 1997: 62).

O que poderia promover a redução das perdas corporativas e humanas para o homem seria a “retomada de si mesmo” com o retorno ao senso. Uma saída útil para os corpos submetidos a esse sistema carregado de crenças e rituais de poder no qual estão inseridos pode se através do desejo consciente e/ou inconsciente (FREUD, 1912) por necessidade - Ananke - (HILMAN, 1997:17) ou através da ilusão CYRULNIK (1997:228). A retomada de si pressupõe um retorno ao movimento de escape já utilizados pelos homens. Tal estratégia foi usada por eles quando se afastaram de seus valores adotando a acomodação alienada com o objetivo de incorporar a organização para cumprir as suas metas.

O homo sedere, nesta condição de acomodação coercitiva, pode desestruturar-se contrariando a sua natureza nômade. Isto acontece porque nem todos os detentores dos corpos mitológicos, marcados pelas raízes arcaicas nas suas histórias, encontram alívio para seus conflitos quando se submetem ao poder coercitivo. Muitos dos que se entregam aos comportamentos esperados socialmente, que são os de submissão à organização, não conseguem reescrever para si uma nova história. Cientes ou não alguns se tornam indivíduos impossibilitados de criar para si outros significados que não os incorporados e, muito menos, explorar os seus opostos, ou seja, entrar neles e extrapolá-los. Então, assim submersos numa totalidade fabulada tornam-se prisioneiros de um mecanismo que rejeita a compreensão dos significados corporativos e entram em estado delirante estado em que muitos permanecem.

Esse processo que se configura como rejeição das normas é uma falha da reconstrução da representação dos papéis corporativos e tem sido objeto de investigação e reflexão de estudiosos. Cada um, à sua maneira, estabeleceu conceitos ou desenvolveu

classificações para esses animais humanos delirantes. Incapazes de se adaptarem à corporação, alguns se confundem com o seu próprio delírio.

O homo demens desenvolveu a capacidade de dissimular o comportamento e o faz por dois motivos. O primeiro, para atender às suas necessidades básicas de sobrevivência e, o segundo, as necessidades de realização evitando o sofrimento ou a punição. Para que atenda a suas expectativas ele precisa ressignificar os códigos normativos e permitir que esses se sobreponham aos seus. Esse processo, porém, não funciona com todas as pessoas que sinceramente desejam atender as suas necessidades através do atendimento dos objetivos da empresa. Em algumas dessas pessoas um mecanismo de rejeição impede que a força coercitiva da comunicação corporativa comprometa-os com a empresa e ainda mantenha a sua integridade mental. No momento em que esse mecanismo atua, alguns homens perdem o seu senso e deliram. Nesse estado desestruturado há duas categorias; aqueles que se entregam à loucura real, e outros, à possível, conforme explicitado abaixo:

[...] o intelecto humano precisa do símbolo. [...] O conhecimento humano é por sua própria natureza um conhecimento simbólico. É esse traço que caracteriza tanto a sua força como as suas limitações. E, para o pensamento simbólico, é indispensável fazer uma distinção clara entre real e possível, entre coisas reais e ideais (Cassirer, 1994:97).

As coisas reais e ideais apontadas por Cassirer podem se aproximar da primeira e segunda realidade de BYSTRINA (1995:23). De acordo com o autor, “o mundo da cultura se acessa por meio dos símbolos dos quais cada homem se instrumenta”. Eles possuem códigos pessoais e intransferíveis que são necessários para decodificar esse mundo que é particular para cada um. “Esses símbolos são compostos por um sistema de regras e vinculações” e esses na opinião de BYSTRINA:

São plenos de objetos, sendo que cada objeto conhecido contém em si mesmo uma informação latente que é percebida pelos sentidos humanos. Essa informação latente permanentemente, modifica-se e transforma-se em informação atualizada. Esses objetos são especiais porque não contêm apenas informações sobre si mesmos, eles contêm informações sobre aquilo que está imanente dentro deles. Eles possibilitam a orientação de vínculos e permitem a construção das relações do cotidiano. [...] Eles orientam a lógica, as ciências exatas, naturais, sociais, a criatividade e a imaginação e são identificados com os mitos, rituais, utopias, ideologias e ficções (BYSTRINA, 1995:4,17).

Esses sistemas estão situados no centro da cultura humana, alicerçam a sobrevivência psíquica do ser humano nas relações de trabalho e estruturam a comunicação humana carrregada de normas que transitam nas organizações. Essa cultura é entendida como um todo, um conjunto de atividades que ultrapassa o necessário para a sobrevivência material porque é constituída de coisas aparentemente supérfluas e inúteis, mas importantes para compor os papéis representados dos autores. “Essa cultura existe para si mesma, e no seu cerne pulsante marcam presença tanto a razão quanto a sua sombra - a loucura”, diz Kamper.

Como se pode observar, as raízes da loucura remonta a tempos arcaicos e não despreza o mundo mágico dos mitos que compõe o manancial arquetípico dos homens. Esse segundo CASSIRER (1994:97), compactua com o “mundo simbólico que não tem existência real como parte do mundo físico; tem um sentido”. E desse, explica HILLMAN (1997:16), uma das faces é a loucura, que está ligada à dualidade dos mitos70 saúde/patologia, Deus/diabo, bem/mau. Sobre essa dupla face, a mitologia grega é rica em detalhes explicativos71. O pathos, carregado de antagonismos se manifesta na relação do

homem com o mundo e nas corporações se faz especialmente presente.

Tal relação tem suas raízes arcaicas e permeia o pensamento selvagem na mitologia, na religião, no meio social, e conseqüentemente no universo simbólico da representação de papéis. Essas representações que envolvem o trabalho, as patologias do excesso e a religiosidade massificada, são versões contemporâneas do papel mediador da imagem nas relações do homem com o sagrado e o mundano. Desde Adão e Eva “a espécie humana nunca se libertou do poder das imagens, mas este poder tem se exercido por imagens diferentes, de maneiras diferentes e em tempos distintos” (CASSIRER 1994:16). Assim, a percepção da imagem passa a ser um fragmento da percepção da coisa em si jamais alcançável, uma ilusão semiótica que sempre acompanhou o homem, na construção da

70 Hilman (1997:16) aborda a dualidade saúde/patologia, amor/ódio, poder/submissão, entre outras. Essas dualidades são também

apontadas por Bystrina (1995).

71 Sobre essa dualidade que se encontra presente tanto nos mitos quanto nos homens, a mitologia grega diz que: da união de Zeus e

Perséfone nasceu Dionísio. Zeus por medo do ciúme da sua esposa Hera, o escondeu na floresta. Quando ela o descobriu, enviou os titãs disfarçados que o capturaram, mataram, esquartejaram, cozinharam e devoraram. Zeus então fulminou os titãs e de suas cinzas nasceram os homens dotados da dualidade bem e o mal. O mal é composto pelos titãs e o bem é o próprio Dionísio que eles haviam devorado e que renasce como ou no coração dos homens (BRANDÃO, 1991: 287).

consciência separada do mundo natural. Na organização essa construção pode ocorrer através de modelos que ofereçam possibilidades de as pessoas em suas funções cujo foco é o de cumprirem as determinações organizacionais ou delas obterem elementos com os quais possam se identificar e perpetuar-se na ilusão que sempre apareceu na relação com o trabalho desde que as sociedades se complexificaram historicamente.

Quando os homens incorporam esse universo que não é originariamente o deles reconstroem vínculos simbólicos através da releitura e da reescritura e nesse domínio encontram Ananke72, deusa mitológica que os oprime pela obrigações. Considerando o pensamento mítico grego, o homem não vai “voluntariamente” para a empresa, mas porque é impulsionado pela necessidade e atraído por Ananke, Cronos, Eros e Zeus (HILLMAN, 1998:17). Para lá eles se encaminham no afã de atendê-las. Eles seguem torpes, seduzidos pelos benefícios que lhes acenam como o canto das sereias aos marinheiros. O caminhar nessa direção não é governado pela liberdade da escolha, ele expressa que a necessidade dessa vivência é coercitiva e patológica. Nele Ananke, que é o modelo mítico das normas corpo(r)ativas amarra as relações do homem na corpo(r)ação, e sela o seu compromisso utilizando-se da comunicação persuasiva. É aqui que ele se aproxima do domínio de Hermes73, que a todos convence. E nesse espaço em que a necessidade oprime as pessoas com normas, a patologia se manifesta e Ananke se consagra. Sfez critica essa norma corporativa opressiva dizendo que:

“[...] a administração moderna inventa uma humanidade antes da queda[...], um paraíso de harmonia sorridente que uma literatura hipócrita dissemina em escala planetária. [...] descreve a retidão da ciência, da justiça, da eficácia gerencial que acarreta a loucura, por ignorar todo o sistema deficiente, mentiroso, intermediário, entre o absoluto e o “nós” da transmissão (SFEZ, 1994:122).