Através da comunicação digital, os ativistas têm mais ferramentas para reunir informações, avaliar cenários e desenhar táticas e estratégias. O planejamento se tornou mais instrumentalizável, isto é, com maiores ferramentas e insumos a seu dispor a um custo menor, que pode repercutir na qualidade da ação coletiva: cyberplanning, coleta de informações estratégicas e capacitação online são as principais inovações neste campo.
O cyberplanning envolve a criação de estratégias e diretrizes que guiam as ações da causa/grupo. A coleta de informações é parte desse processo. A Internet possibilita maior acesso a publicações e relatórios, e também permite o acompanhamento e monitoramento da evolução de uma dada situação. Miard (2012) explica que o monitoramento se tornou mais barato e mais efetivo com as tecnologias digitais. Nesse sentido, ferramentas e plataformas como Google Alerts, Technorati, Digg, StumbleUpon, Del.icio.us são grandes aliadas (KAVADA, 2010).
Ferramentas online ajudam na colaboração, coordenação e divisão de tarefas dentre os ativistas para organizar uma campanha, protesto ou outras ações (sejam estas executadas no ambiente online, seja no ambiente físico-espacial). Isso pode envolver criar lista de afazeres numa Wikipage e trocar mensagens de mobilização, usar calendários online para reuniões, aplicativos de interação, seja e-mail, Facebook ou Skype, para tomadas de decisão, e outras ferramentas para organizar votação online ou agregar ideias dando forma às preferências
(KAVADA, 2010). No caso do ativismo transnacional, a Internet desempenha um papel fundamental na coordenação além das fronteiras:
The strategic use of information, in particular, seems to be central in transnational activism. The development of new communication and information technology has reshaped 'the repertoire of contention', adding activities like 'e-mobilization' and cyber-activism' [...] (PIPER; UHLIN, p. 7, 2004).
Alguns grupos criam suas próprias plataformas e personalizam suas necessidades através dos mecanismos online (KAVADA, 2010). Outros conseguem mapear o terreno político ao identificar nas diversas plataformas sociais quais são os lados do debate, seus apoiadores e os mais influentes, muitas vezes com o auxílio de softwares (HWANG, 2010).
A mobilidade e a ubiquidade midiática possibilitada pela comunicação digital é uma outra dimensão que desempenha um papel importante no planejamento estratégico. Ainda que instrumentos como celulares, tablets e outros microdispositivos digitais possam ser utilizados para captar imagens, produzir narrativas, aumentar a visibilidade, também são bastante usados para produzir comunicação tática e coletar informação estratégica em tempo real. Os aparelhos celulares permitem uma conexão instantânea na rede de apoiadores de modo a aperfeiçoar e expandir campanhas, melhorar atividades coordenadas e protestos, e aumentar a consciência sobre assuntos sociais (CULLUM, 2010). As mensagens de texto e ligações de voz são as funções mais básicas do aparelho. Já aliado à Internet, permite uma mobilização política taticamente orquestrada com base no monitoramento e na mobilidade que o aparelho permite, despontando sua característica multimodal (MIARD, 2012). Cullum (2010) observa que ativistas nem sempre abandonam métodos tradicionais, mas incorporam tecnologias avançadas de celulares para suas táticas.
Além da coleta de informação estratégica, monitoramento e cyberplanning, a comunicação digital também instrumentaliza o ativismo através da capacitação ou instrução de seus militantes. O treinamento prévio, como forma de antever situações e preparar para ação, ganha um importante impulso no ambiente digital pois tende a qualificar o ativistas em sua capacidade de ação, minimizando riscos e erros. Por isso, cada vez mais ativistas usam os aplicativos e plataformas online para esse fim:
The effectiveness of nongovernmental organizations and the abilities of citizens to run and participate in advocacy campaigns and activism can be
improved if activists and others get training to develop their skills and knowledge of various applications, platforms, and devices. Activists should strive to stay at the front of the learning curve by experimenting with the latest mobile security and privacy tools (CULLUM, 2010, p. 68).
Importante lembrar que o planejamento ativista através da comunicação digital deve ser visto com algumas ressalvas. Primeiro, em realidade, o planejamento de ações não é algo necessariamente novo no ativismo, pois antes já existia a possibilidade de identificar o melhor momento para publicar informação e rastrear atores influentes. O que a comunicação digital traz de novo é justamente um melhor aparato de ferramentas que significam, em última instância, instrumentalização que pode resultar em empoderamento. Ou seja, há uma maior quantidade de volume de informação coletada e melhor qualidade em seu processamento (HWANG, 2010). Segundo, o planejamento através do ambiente digital também tem seus riscos. Aumenta-se a possibilidade de monitoramento (por governos, corporações, organismos multilaterais, outros grupos adversários) nas trocas de informações do grupo que, se vazadas ou utilizadas de forma descontextualizada, podem ter efeito negativo:
Although digital messages can easily be transmitted, this may result in the loss of context or a level of distortion, and therefore the generation of an opportunity for subversive voices. In fact, in this case, two or more social networks that were meant to be separate collided. Government sympathizers could enter from a point (i.e an open group) and access the information generated by opposing groups, then reproduce them, distort them and disseminate them from scratch. Evidence of this can be traced through many English-language blogs, where each of them have provided a different version of one specific story that was supposedly initially from Social network sites SNS (GHEIDARY, 2012, p. 218).
Terceiro, os usos das ferramentas digitais para o planejamento estratégico não é automático e totalmente isento de custos: Também dependem de cultura política, habilidades, know how e alguma infraestrutura mínima disponível (computadores, servidores, conexão etc.). Quarto, o planejamento também serve para todas as táticas ativistas, inclusive violentas. Aos grupos terroristas estão disponíveis as ferramentas virtuais, assim como para quaisquer outros grupos. Quinto, o planejamento colaborativo intensifica a interatividade e isso tende a aumentar as rotas atrito, embates ou disputas internas. No bojo desta intensificação, pesquisas demonstram que algumas formas de interações online (como listas de discussão, por exemplo) tendem a ser mais conflituosas que as interações face-a-face (KAVADA, 2010; WILHELM,
1999). Isso ocorreria devido a questões como a perda de linguagem gestual (no caso de fóruns online baseados em texto, que gera ruídos de comunicação e incompreensões); ao anonimato ou ao próprio design65 da ferramenta que pode favorecer animosidades. Sexto, o ambiente
digital também é composto por um turbilhão de informações falsas ou de baixo valor estratégico. O excesso de informação pode gerar má-interpretação e ações equivocadas, ou até mesmo uma apatia dentre os integrantes do grupo diante de grande quantidade de dados circulantes. Esses excessos podem dificultar a comunicação interna do grupo, camuflando a discussão mais importante e desviando o foco daquilo que de fato seria relevante (HWANG, 2010; NIELSEN, 2010). Para Nielsen (2010) isso ocorre geralmente quando organizações se preocuparam mais em adotar as tecnologias digitais do que necessariamente se adaptar a elas.