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The structure of the book

In document Past, present, and future (sider 24-39)

Patrícia e Raquel são duas mulheres transgêneros que viveram processos de entendimento e aceitação muito parecidos e, por isso, aparecem juntas neste subtópico. Ambas entenderam que seus processos de construção identitária de gênero e sexualidade começaram ainda na infância quando foram negociando, aos poucos, tudo que estava ligado culturalmente ao universo masculino e se sentindo mais próximas do que estava ligado culturalmente ao feminino. Naquela época, suas negociações de gênero aconteciam no nível dos brinquedos e brincadeiras que realizavam e criavam, como, por exemplo, quando Raquel pegava seus bonecos de ação, brinquedos que lhe eram permitidos enquanto menino, e criava adereços com restos de tecidos para que parecessem com bonecas. Ainda sobre os brinquedos, Patrícia conta:

Não é que eu não gostava de brincar com os meninos, sabe? É claro que eu brincava. Assim, eu brincava de carrinho, essas coisas. Mas eu também brincava de boneca. Eu sempre gostei dessas coisas de florzinha, sabe? Mas minha mãe sempre comprava umas coisas uó, tipo Ben 10. Aí eu não gostava, mas eu não reclamava, sabe? (PATRÍCIA, Notas de Campo, 2017)

Durante o crescimento, as negociações de aceitação com as normas do mundo físico foram se intensificando conforme suas identidades de gênero foram extrapolando as representações masculinas criadas e esperadas para seu sexo biológico. Diferentemente de Pedro e Henrique, que desviavam da norma em questões menos aparentes como a sexualidade, para Patrícia e Raquel a experimentação de gênero foi mais difícil de ser escondida. Assim, seus processos de transição se deram de forma lenta e gradual, em experimentações de seus limites e da aceitação familiar, mudando uma roupa aqui outra ali, o corte de cabelo e etc, assumindo, muitas vezes, uma expressão de gênero mais andrógina.

Sem o conhecimento da diferença entre gênero e sexualidade, ambas disseram que cresceram se considerando apenas como “gays normais”, porém, ao se olharem no espelho, os aspectos ligados a fisionomia masculina não as agradava e elas sentiam que precisavam ir além de mudanças na aparência, ou seja, precisavam desconstruir aquilo que haviam construído enquanto meninos e começar a se construir enquanto menina. Raquel contou que nessa época não tinha o entendimento do que era ser transgênero, o que mais se aproximava da visão que tinha de si eram as construções marginalizadas que tinha sobre as travestis, as quais refutava.

Tanto Patrícia como Raquel afirmaram que durante seus processos de mudança não encontraram grandes dificuldades na aceitação da família, “eles meio que foram aceitando”, mesmo que esses também não compreendessem ainda o que era ser transgênero. Patrícia ainda encontra certa resistência por parte dos avôs e diz que quando vai visitá-los opta por utilizar roupas “mais masculinas”.

Na escola, elas relembraram as dificuldades enfrentadas não só com o bullying realizado pelos colegas, como também os interditos colocados pelo corpo docente.

Na outra escola eu já tive um constrangimento lá porque eu ainda não era tão feminina, aí eu tava começando minha transição bem no começo, meu cabelo era curto ainda, e eu sempre entrava no banheiro feminino, não era nem pra fazer nada não, era só pra me olhar no espelho, lavar minha mão, essas coisas. Aí eu fui chamada na direção. O coordenador não gostou. Falou que devia usar o dos funcionários ou dos professores. Eu ficava tão assim, né? Mas eu nunca deixei de ir. Eu enfrentava, viu? Foi até eles aceitarem. (PATRÍCIA, Entrevistas, 2018)

Na escola eu sofria bullying, me chamavam de gay e tal. Eu me sentia mal, pra mim essas coisas pesavam, mas nunca sofri muito por isso, porque pra mim não era isso. Naquela época, pra mim, gay era quem gostava de homem e eu nem pensava em homem, eu pensava em mim, na minha mudança, no que eu não gostava. (RAQUEL, Entrevistas, 2018)

Além disso, relembraram que suas escolas não trouxeram informações que as ajudassem a se entender. Nas aulas de ciências se falava sobre os hormônios masculinos e femininos, mas nunca sob o ponto de vista trans. Essa falta de informações nos ambientes físicos somada à ausência de referências de pessoas transgêneros em suas vidas lhes aproximaram, cada vez mais, da internet. Essa, por sua vez, permitiu-lhes o acesso a uma nova ordem de informações que lhes permitiram não só entender os motivos pelos quais seus psicológicos não correspondiam aos seus físicos, como também a iniciarem ações mais substanciais em seus corpos físicos.

Buscando informações em sites, vídeos do YouTube e participando de grupos fechados no Facebook sobre a temática transgênero, essas jovens foram tendo os primeiros contatos com os processos de transição baseados em terapias hormonais (TH).

Eu não tinha nenhuma experiência com outras pessoas trans. Então, fui conhecendo pesquisando pela internet. Na época eu já tinha computador aí eu olhava assim. Mas nem era sobre gênero e sexualidade, era só sobre hormônios mesmo. Eu pesquisava pra mim entender o que eu era. (...) Tem vários grupos no Facebook que a gente participa. Quando eu entrei no grupo, eu comecei a ir fundo nesse universo. Tinha umas meninas trans que compartilhavam suas terapias. Elas diziam “Estou tomando isso, estou há 5 meses de TH”, aí eu ficava “gente, o que é TH?”. Eu comecei a pesquisar. Eu fui aprendendo que TH era Terapia Hormonal. (RAQUEL, Entrevistas, 2018)

Em 2016 ainda eu fui pesquisar os tratamentos a fundo no Facebook e aí eu entrei num grupo chamado “Transgêneros e os Hormônios”. Na época tinha dois grupos, o “Terapia para Transgêneros” e o “Transgêneros e os Hormônios”. São grupos fechados e pra entrar você tem que solicitar. As administradoras vão analisar o seu perfil pra saber se você realmente trans ou se é só uma cdzinha67. Quando elas constatarem que

você é trans, elas adicionam. Aí lá a gente troca informações sobre cirurgias, medicamentos, experiências com remédios (PATRÍCIA, Notas de Campo, 2017)

As duas jovens começaram seus processos baseadas na automedicação, pois acreditavam que o acompanhamento médico seria muito caro e elas não queriam “dar mais essa despesa para os pais”. Raquel contou que, após recolher informações de suas pesquisas e interações com outras pessoas trans, decidiu contar para os pais que gostaria de iniciar o processo de transição hormonal e, para convencê-los, foi explicando, através dos argumentos que construiu a partir de suas vivências, que quanto mais demorasse a começar o tratamento, mais seria complicada a transição.

Raquel convidou sua mãe para ir até o centro da cidade para comprar algumas “roupas de menina”, como chamou. No caminho, passaram na farmácia cujos preços dos hormônios eram mais baixos, segundo pesquisa realizada pela jovem.

Eu comprei 4 ampolas e as seringas. Aí eu falei pra mãe que eu ia tomar na farmácia. Só que eu tava com vergonha de ir na farmácia, porque no dia que eu fui na farmácia era só homem. Aí eu fiquei com vergonha, perguntei só alguma coisa e fui embora. Eu fui louco de aplicar sozinha os hormônios, porque depois que eu apliquei a segunda eu passei mal. Fomos no médico e aí ele mandou parar, né? Eu parei por causa disso que tinha acontecido. Depois disso eu comecei a ficar triste porque sabia que não ia mais tomar. (RAQUEL, Notas de Campo, 2017)

Mesmo consciente dos riscos, ela relembrou que o dia em que iniciou as aplicações foi um dos mais felizes de sua vida: “Quando eu tomei o primeiro eu já fiquei me sentindo a mulher”. Sua cabeça começa a mudar. Não a mudar pelo fato do remédio já está agindo, mas você pensa que sim” (Raquel, Notas de Campo, 2017). Por esse motivo, insistiu novamente até que seus pais aceitassem que ela retornasse ao tratamento, dessa vez mudando a medicação e melhorando a alimentação.

Durante seus processos, as jovens não deixaram de compartilhar experiências nos grupos que participavam no Facebook. Patrícia comenta que, no começo de sua transição, tinha vergonha de comentar as postagens e apenas acompanhava o que acontecia. Apenas depois de 5 ou 6 meses de tratamento hormonal decidiu fazer sua primeira postagem de

resultados. Ela conta que ficou surpresa com a quantidade de outras garotas transgênero que a adicionaram na rede social e enviavam mensagens para tirar dúvidas.

Foi bem uma troca de conhecimento. Hoje eu tenho algumas amigas que a gente troca experiências e cada um vai se ajudando.(...) Eu fui de uma pessoa tão inexperiente a uma pessoa que podia explicar o que eu tomava e o que agia no meu corpo. Eu ainda tava mudando, mas eu acho que aquela pessoa que me perguntou tava passando pelo mesmo que eu passei porque ela tava no começo e eu fiquei feliz porque ajudei ela. (PATRÍCIA, Entrevistas, 2018)

Patrícia e Raquel consideram que hoje estão bem mais seguras e entendidas de sua identidade e expressão de gênero e, por isso, não costumam mais pesquisar sobre os assuntos hormonais. Elas consideram estar “em um novo nível” onde suas curiosidades apontam para outras temáticas dentro do universo transgênero, como as cirurgias de redesignação sexual. Nesse novo momento de suas vidas, surgem também novos conflitos em seu contexto, como o reconhecimento do nome social na chamada da escola, novas formas de bullying, a constante hipersexualização e outros.

Em síntese, a (des)construção de Patrícia e Raquel em redes híbridas envolveu os processos pelos quais ampliaram suas redes de interação e referência com outras mulheres e homens transgêneros a partir dos recursos virtuais. Nessas vivências puderam se reconhecer enquanto transgêneros e buscar, de forma autônoma, informações sobre os processos de readequação de gênero. Nos grupos virtuais, as participantes formaram redes de apoio onde puderam compartilhar vivências, construir conhecimentos, estabelecer elos de solidariedade e ajudar outras pessoas trans em suas transições. Essas vivências virtuais possibilitaram a construção de outras identidades e outras vivências no mundo físico agora como Patrícia e Raquel e não mais com seus nomes de batismo.

Na escola, suas identidades de gênero foram se construindo em meio à falta de informações e às tensões e conflitos com os demais alunos, professores e gestão. No CCB, as discussões de gêneros e sexualidades realizadas, bem como a presença de outros indivíduos LGBT+ lhes permitiram se sentir “mais acolhidas” naquele espaço e as permitiu ampliar suas visões sobre as pautas e sua comunidade além da causa trans. Essa aproximação será melhor abordada nos subtópicos a seguir.

Os processos descritos de Pedro, Henrique, Patrícia e Raquel permitiram compreender como alguns participantes se relacionaram com a percepção de si enquanto sujeitos diferentes da hetero-cis-normatividade. Nesse percurso, vimos como suas identidades

sexuais e de gênero foram se (des)construindo a partir das interações, negociações e estratégias que elaboraram entre suas vivências físicas e suas vivências virtuais.

Destaca-se como os recursos digitais possibilitaram, particularmente no que se refere aos seus aspectos móvel e ubíquo, outras formas de interação, de acesso à informação e de aproximação com seus semelhantes. Por meio deles esses jovens puderam acessar, produzir e compartilhar discursos, práticas culturais e experiências que, naquele momento, estavam distante dos seus círculos sociais físicos ou mesmo estando próximos, eram interditados pelo preconceito de origens diversas. O sujeito que emergiu dessas vivências pode ser entendido como um sujeito ciborgue (HARAWAY, 2009), cujas identidades vão se formando na intersecção de suas vivências em redes que se formam em mundos orgânicos e virtuais.

Green e Bigun (2013, p.220) discutem como as identidades modernas podem ser construídas “a partir de relações sociais e práticas tecnologicamente mediadas”, por meio das quais se tornam “tanto um recurso para nossa própria autoprodução quanto instrumental nessa autoprodução e, portanto, de forma mais geral, para nossa produção de sujeito”. Springer (1991) considera que a construção das identidades humanas, mediada por instâncias orgânicas e cibernéticas, é uma das principais expressões do sujeito ciborgue. Essa construção vai além do imaginário popular do ciborgue, que envolve próteses robóticas acopladas ao corpo, e “envolve transformar o eu em algo inteiramente novo, combinando a identidade tecnológica com a humana. Embora a subjetividade humana não fique perdida no processo, ela é significativamente alterada” (tradução eletrônica)68 (id.ibid. p.306).

O diálogo com esses autores permite compreender como as identidades modernas podem se construir a partir da combinação das experiências em contextos físicos e virtuais dos indivíduos. No subtópico a seguir busca-se reconstruir como as identidades sexuais e de gênero desses participantes foram se construindo a partir de suas vivências híbridas (escola e internet) salientando como as mudanças ocorridas em seus contextos físicos, representadas pelo ingresso dos participantes como alunos regulares do Colégio Castelo Branco, suscitaram outras vivências tanto nos ambientes orgânicos quanto virtuais e, por conseguinte, outros processos de construção de si.

68 It involves transforming the self into something entirely new, combining technological with human identity. Although human subjectivity is not lost in the process, it is significantly altered. (SPRINGER, 1991, p.360)

5.1.4. As vivências híbridas (na escola e na internet) na construção das identidades sexuais

In document Past, present, and future (sider 24-39)