3 Geological setting
3.1 Structure and evolution of the Bristol Channel Basin
Barros (2002, p. 76) afirma que “é provável que a expressão mais acabada das distorções e consequências concretas do modelo biomédico, reducionista, de abordagem da saúde e da doença na vida dos indivíduos resida no que se convencionou designar como medicalização”. Medicalização essa que veio à tona em diversas falas dos participantes das oficinas, principalmente de Raquel e Teodoro, nas oficinas 1 e 5, por conta da diminuição do prazer sexual, da vontade de ter relações sexuais, de ereção, entre outros.
Na literatura é possível encontrar que a atenção, principalmente médica, às questões de sexualidade às pessoas usuárias de serviços de saúde mental é falha (Dallon & Abraham, 2009; Rele & Wylie, 2007; Voermans et al., 2012), além de destacar que as informações repassadas às pessoas sobre os efeitos adversos da medicação são escassas (Rele & Wylie, 2007).
Haefliger e Bansack (2006) e Higgins et al. (2010) propõem a redução de doses dos medicamentos ou até mesmo a mudança para substâncias alternativas, porém, afirmam que as pessoas da área psiquiátrica ficam receosos com esta possibilidade pelo medo de novas substâncias exacerbarem os sintomas psiquiátricos.
Há de se considerar também a lucrativa indústria farmacêutica e a alta taxa de uso de medicação antipsicótica na prescrição de terapêuticas para tratamento na área de saúde mental. Não só isso, mas cabe citar aqui o trabalho de Moncrieff et al. (2013), que alertam
para a necessidade de reavaliar a forma de como os efeitos dos medicamentos interagem com os sintomas em diferentes circunstâncias e do ponto de vista de vários observadores. Assim, o aumento do conhecimento e entendimento sobre esses efeitos e os transtornos poderá levantar dúvidas sobre o uso e validade de sistemas como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5), pois poderia quebrar a ligação entre diagnóstico e tratamento apenas sintomático, exigindo apreciação individualizada sobre os problemas (Moncrieff et al., 2013). Portanto, é preciso chamar a atenção para a urgência de a medicina discutir abertamente com as pessoas usuárias sobre os efeitos adversos da medicação (Haefliger & Bansack, 2006; Moncrieff et al., 2013).
Muito além disso, é preciso ter uma visão integral da pessoa usuária de um serviço de saúde mental, acolhendo assim, todas as suas demandas. Como foi visto nos exemplos de falas durante as oficinas, especialmente nas oficinas 1 e 5, os medicamentos não são determinantes para que a vida sexual dessas pessoas seja satisfatória ou não, pois nesta questão estão presentes diversos fatores, dada a especificidade de cada usuário. E como dito, este tipo de olhar está ligado ao modelo de atenção do serviço.
Para estar em consonância com os pressupostos do modelo psicossocial, é necessária uma assistência sustentada nos serviços extra-hospitalares, de base comunitária, acolhedores, que busquem oferecer aos seus usuários mais recursos e condições para o exercício de cidadania, autonomia, reinserção social e inclua ainda a família e a sociedade na discussão das mudanças em face da reforma psiquiátrica (Borba, Guimarães, Mazza & Maftum, 2012).
A impossibilidade de acolhimento nos serviços reafirma experiências de violação no exercício de direitos das pessoas usuárias (Barbosa, Dimenstein & Leite, 2014). Além da violação, práticas relatadas pelas pessoas participantes das oficinas, tais como castração química (oficina 1), falta de acolhimento (oficina 5), remetem aos resquícios do modo manicomial de atenção à saúde, no qual não há traço de respeito à autonomia ou acolhimento
integral das pessoas. Sendo este modelo, alvo de constantes lutas por sua mudança, repetido em um serviço criado para ser seu substituto, com novas terapêuticas e formas de atenção, são claros os sinais de retrocesso e de pouco compromisso dos gestores e profissionais com a luta antimanicomial, com a saúde mental integral das pessoas que ali frequentam.
Os dados coletados na pesquisa demonstram formas de negligência relevantes dentro de um serviço para atendimento de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais graves e/ou persistentes, as quais necessitam de extremo cuidado e acolhimento. As falas das pessoas participantes, em sua maioria durante as oficinas 1 e 5, também demonstraram que os profissionais deste serviço pouco refletem sobre suas práticas e que, a menos que tais práticas são de consenso de todos os profissionais ali atuantes, não há integração da equipe ou discussão de casos, nem assembleias.
Práticas excludentes, preconceituosas e que reforçam o estigma vivenciado por essa população, também são mencionadas por Higgins, Barker e Begley (2008), Miranda e Furegato (2002), Miranda, Furegato e Azevedo (2008), Quinn, Heppell e Browne (2011) e Ziliotto e Marcolan (2013; 2014). Segundo Emerich, Campos e Passos (2014, p. 693), mencionam que “o silenciamento sobre os direitos aumenta a concentração de poder dos gestores e equipamentos, aumentando a violência simbólica”.
Entende-se, portanto, que há a necessidade de supervisão institucional e profissional para este CAPS, que ao invés de fornecer uma atenção humanizada e acolhedora, reproduz um modelo de atenção com traços manicomiais de atendimento para as pessoas que o utilizam.
7 Facilitação das Oficinas
As oficinas formaram uma importante base para o trabalho. Aqui serão discutidas como método de pesquisa e intervenção, mais precisamente a ação da facilitação. Serão enumerados aspectos que são considerados relevantes sobre as oficinas: sua importância, facilidades e dificuldades na condução, e a percepção das pessoas participantes durante seu movimento de realização dentro de um serviço de atenção psicossocial. O intuito é avaliar a experiência de elaborar, facilitar e encerrar oficinas sobre sexualidade no CAPS. Em suma, essa experiência passará por justificativas da importância de ter as oficinas com esta temática no serviço, pelas implicações de mediação das atividades, e por relatos contendo a percepção das pessoas que participaram. Entre discussão e trechos das oficinas que caracterizam as categorias, o processo se inicia.