T- KIBS and innovation
2. Structure and dynamics of Norwegian T-KIBS
A disputa, seja por materiais, por brinquedos ou por seus lugares (cadeira, lugar na fila, lugar na mesa do refeitório etc), parece ser o principal motivo de conflito entre as crianças, como atestam os exemplos listados abaixo:
Ao chegarem ao refeitório, Gilmar e Valéria sentam na mesma cadeira e começam a se empurrar. Renata percebe o conflito e pergunta quem sentou primeiro. Ambos permanecem calados. Ela diz que se não se decidirem os dois vão sair e ela sentará na cadeira. Os dois permanecem calados. Renata,
então, puxa na mão de Valéria, diz que tem outros lugares bons para sentar e que se ela mudar de lugar sentará ao seu lado. Valéria sai de bom grado.
(NOTAS DE CAMPO, 20/3/2009) Guilherme tenta tomar o brinquedo de Camila, que, na tentativa de impedir, começa a gritar. Renata se aproxima dos dois e pergunta quem pegou o brinquedo primeiro. Camila diz que foi ela. Renata diz a Guilherme que ela tem o direito de ficar com o brinquedo, uma vez que foi ela quem o pegou primeiro, e que ele tem que pedir desculpas. Guilherme fica calado olhando para baixo. Renata diz que se ele não pedir desculpas vai ficar sentado no canto da sala separado dos demais, sozinho. Guilherme, então, pede desculpas à Camila.
(NOTAS DE CAMPO, 8/4/2009) É hora do lanche. Gabriela corre e se posiciona na porta da sala. Ela deseja ser a primeira da fila. Carlos chega e fica em sua frente. Gabriela o empurra e os dois começam a brigar. Renata percebe, aproxima-se e diz que se continuarem brigando, os dois vão ocupar o último lugar. Gabriela, aparentemente inconformada, continua a empurrar o colega. Renata, então, a pega pelo braço e a leva até o final da fila. A menina se d ebate, cai no chão e chora, mas Renata não lhe dá atenção. Todos seguem para o refeitório. Passados alguns instantes, Gabriela para de chorar e também segue para lá.
(NOTAS DE CAMPO, 14/4/2009)
Situações como essas são compreensíveis, tendo em vista a idade das crianças da
turma “D” que, segundo Wallon (1981), estão iniciando a chamada “crise de oposição”.
Segundo este autor, a maneira como o professor lida com essas situações é de extrema importância. Ele deve agir como mediador, ajudando as crianças a perceber as possíveis causas do desentendimento e colaborando na construção de alternativas para resolvê- los.
Segundo Galvão (2008), dois tipos de situação conflitual são comuns às várias realidades de ensino: aquelas caracterizadas por atitudes de oposição sistemática ao professor por parte das crianças (individualmente ou em grupo) e aquelas correspondentes às dinâmicas dominadas por agitação e impulsividade motora.
Nas situações de oposição, segundo a autora, é possível distinguir aquelas em que há motivos concretos que justificam a atitude das crianças (postura autoritária do professor ou ausência de atividades interessantes, por exemplo) e outras que parecem desprovidas de conteúdo e acontecem pelo simples gosto de exercitar a oposição, essas sim, de caráter dinamogênico, isto é, promotor do desenvolvimento infantil.
Já as situações caracterizadas pela elevada incidência de condutas de dispersão, agitação e impulsividade motora, quando muito frequentes, não possuem nenhum
significado positivo, ao contrário, consomem energia e desgastam crianças e
professores. São os chamados “conflitos entrópicos” (GALVÃO, 2008). Situações
como essas se constituem excelente oportunidade para os professores refletirem sobre sua prática pedagógica, revendo suas condutas e outros fatores que podem ocasionar atitudes conflituosas entre as crianças, como a organização da sala, a quantidade de material disponível e o tempo destinado às atividades.
A postura de Renata diante de situações como essas é, na maioria das vezes, a de juíza, decidindo os critérios que devem ser considerados na discussão e, ainda, determinando o que é ou não é justo em cada caso. A ausência de regras claras, tanto para as crianças quanto para a professora, certamente contribuem para que as decisões sejam tomadas de forma arbitrária por Renata. Essa conduta não contribui para a construção da autonomia infantil, como visto anteriormente.
A solicitação de que as crianças peçam desculpas quando machucam, desrespeitam ou magoam os colegas, também é uma constante na prática de Renata. Esses pedidos, contudo, são desprovidos das reflexões necessárias para que as crianças se deem conta de que agiram de forma incorreta com os seus companheiros e, muitas vezes, elas o fazem mais para agradar a professora e serem liberadas para realizar outras atividades, do que por convicção própria de que é essa a maneira correta de agir, conforme sugere o exemplo abaixo:
As crianças estão brincando livremente na sala quando, de repente, Rana começa a chorar porque levou uma mordida no queixo. Carla vai buscar gelo para passar no machucado enquanto Renata conversa com Antônio, autor da mordida. A professora leva o menino para o canto da sala e fala algumas coisas baixinho para ele, que coloca as mãos nos olhos, talvez como uma forma de não encarar a professora. Renata, então, o deixa lá no canto, sentado numa cadeira. Passados 15 minutos, Regina chama Antônio e pergunta se ele não vai mais fazer aquilo com os colegas. Ele balança a cabeça
negativamente. Renata, então, diz: “Pois vamos pedir desculpas para a colega, certo?” Antônio concorda e assim que avista Rana olha para Renata e
lhe pede desculpas. Renata diz que as desculpas devem ser dirigidas à colega e não a ela. Chama Rana, coloca os dois frente a frente e Antônio pede desculpas. Logo em seguida, é liberado por Renata.
(NOTAS DE CAMPO, 19/5/2009)
Certamente, Renata acredita estar agindo da melhor forma possível para ajudar as crianças a construírem valores morais positivos e raramente não intervém em casos como esse. Desse modo, não parece estar sendo displicente, mas sim agindo de acordo com suas convicções. Entretanto, como na maioria das vezes em que surgem desavenças entre as crianças Renata está envolvida em outras atividades, não presencia o início dos
desentendimentos e acaba tomando atitudes arbitrárias e injustas, como exemplificam os relatos abaixo:
Na sala de Renata há duas meninas com o mesmo nome: Beatriz. Chamo uma de Bia para diferenciá-las. Em determinado momento de brincadeira, Beatriz bate com o telefone nas costa de João, que começa a chorar. Renata pergunta a ele quem lhe bateu e ele diz que foi Beatriz. Renata vai até Bia (a outra menina) e lhe pergunta porque bateu no colega. Bia olha para Renata com ar
de quem não está entendendo e diz: “Bati nele não!”. Renata a olha e fala: “Pois vem cá.” Bia se aproxima. Renata continua: “Dê um abraço no colega e peça desculpas.” Bia faz o que Renata pediu e João, com ar de quem não está
entendendo direito o que está acontecendo, retribui o abraço de Bia. Beatriz observa tudo de longe com ar desconfiado e vai se afastando aos poucos.
(NOTAS DE CAMPO, 19/5/2009) Renata retira Antônio do grupo e o leva para conversar no canto da sala. Não escuto o que falam, mas vejo que ele balança a cabeça negativamente. Depois de alguns minutos vejo que Renata pega Antônio pela mão e o leva até
Maria, dizendo: “O Antônio quer lhe pedir desculpas, Maria”. Antônio olha para Maria e depois para baixo, mas fica em silêncio. Renata diz: “Se você
não pedir desculpas vai voltar para a cadeira!” Antônio, então, fala algo baixinho, provavelmente pede desculpas , pois é liberado por Renata para se juntar ao grupo novamente. Passados alguns instantes, Maria chega para
Renata e diz que foi Sofia quem bateu e não Antônio. Renata diz: “Ai, foi a Sofia?”, mas não faz nada.
(NOTAS DE CAMPO, 3/6/2009)
Ao serem obrigadas a se desculpar, mesmo quando não foram culpadas pela infração cometida, provavelmente, as crianças vão construindo uma imagem deturpada do significado dessa ação, o que certamente exerce uma influência negativa na constituição de sua subjetividade.
Por outro lado, várias vezes, as crianças cometeram infrações e, logo em seguida,
pediram desculpas como se dessa forma pudessem “apagar” o que aconteceu ou se
livrar de uma repreensão, como é o caso da situação a seguir:
Rebeca bate em Guilherme. Ele chora e chama pela “tia Renata”, que vem e diz: “O que foi agora?” Guilherme conta que Rebeca lhe bateu. Rebeca, que está escutando tudo, diz: “Mas eu peço desculpa, tia!”. Renata, diz: “Muito fácil pedir desculpa, né?! Por que você bateu nele?” Rebeca explica que
queria um brinquedo e Guilherme não deu. Renata diz que as coisas não se resolvem assim, batendo, e, no final, manda Rebeca pedir desculpas à Guilherme. Em seguida, solicita que se abracem.
(NOTAS DE CAMPO, 23/4/2009)
Talvez Renata não perceba, mas ao solicitar que Rebeca peça desculpas ao colega
está confirmando o que acabara de criticar: “Muito fácil pedir desculpa, né?!” Apesar da
tentativa da professora em realizar uma reflexão com a menina, o que demonstra que, de alguma forma, ela sabe que essa é a atitude correta a ser realizada, sua intervenção não
oferece espaço para que Rebeca reflita sobre sua postura e pense em alternativas para reparar o erro cometido. Pelo contrário, é ela quem decide que a atitude da menina foi
errada e, apesar de ressaltar que “as coisas não se resolvem assim, batendo” não fornece
qualquer indício sobre como ela deveria ter agido.