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Data and Methods

5.1 Fracture analysis

5.1.1 Structural logging of boreholes

Já no segundo grupo temático de revistas, intitulado “Conflitos e Guerras” - mas que na realidade explora tanto os fatos relacionados às guerras e conflitos propriamente ditos, como também outras faces da violência, como por exemplo, o Genocídio de Ruanda - encontramos uma

clara relação associativa com uma das faces contemporâneas mais divulgadas de África. Como vimos anteriormente, ao longo dos primeiros capítulos, a instabilidade política e os conflitos das mais diversas ordens e origens têm de fato se tornado uma das realidades mais associadas aos países africanos. Porém, essa não é a única realidade, suas ocorrências não são homogêneas e, muito menos, revelam as especificidades africanas, inclusive em suas conflagrações. Dessa forma não é adequado confundir ou referir-se aos africanos somente por essa ótica. No entanto, no caso da revista portuguesa encontramos uma clara tendência em conceder atenção exclusiva ao continente apenas quando alguma dessas explosões de violência ou conflitos dos mais diversos matizes se destacavam pelas suas dimensões ou pelos espaços onde ocorriam. Das doze capas de Visão reservadas à África, cinco, abordavam justamente esses eventos. Dessas cinco capas, três, enfocavam fatos ligados às guerras civis em Angola e Moçambique, em uma clara tendência da revista em observar apenas a região que manteve relações recentes com Portugal137. Neste caso, é plausível imaginar que, seja pelos “laços” históricos construídos durante o período colonial, seja pelo sentimento de pertencimento a algum tipo de conjunto sócio-cultural – real ou imaginado - com traços em comuns, a atenção do mass media português se concentrou nos PALOPs.

Visão, nº1, 25 a 31 de março de 1993. Visão, nº 469, 28 de fevereiro a 6 de março de 2002.

As primeiras duas capas fazem referência a momentos bastante diferentes da história contemporânea de Angola. Um de extrema turbulência, no primeiro trimestre de 1993, meses após o fracassado processo de paz e das eleições de 1992, marcado pelo recrudescer da guerra civil envolvendo a UNITA e o MPLA (ver, Bittencourt, 1996). O outro, noticiado uma década

137 Com exceção feita pelo tratamento concedido a alguns acontecimentos de impacto mundial, como a

depois, sinalizava para um período de possível reencontro com a paz e reequilíbrio em Angola, com a morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA, e o fim da guerra civil.

Na capa do primeiro número da revista Visão, de 25 de março de 1993, o evento abordado foi o ataque da UNITA à cidade de Huambo138, localizada no planalto central do país, ocorrido no início daquele mês. Apesar de enfocar um dos eventos mais dramáticos para os portugueses ainda residentes em Angola durante o conflito civil angolano, as escolhas dos elementos que compõem a capa, acabaram por reforçar a perspectiva pessimista e as referências que resumiam Angola a uma terra da desesperança e guerras, após a saída de Portugal da região nos anos 1970. No caso, a chamada principal da revista, A Agonia de Angola, aparece complementada ou fundida com uma fotografia que revela um cidadão angolano agonizando no colo de um companheiro. Mais do que retratar um fato ocorrido ou indicar para alguma postura reflexiva acerca da situação em Angola, a idéia mais marcante é apresentar a falência das vias angolanas para solucionar seus problemas. Se a reportagem concentra suas atenções no sofrimento dos portugueses atingidos diretamente pela invasão da cidade, a vitrine da revista parece retratar a morte de um país.

Já na edição de número 469, de 28 de fevereiro de 2002, as atenções se voltam para a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi. O título da capa, As últimas horas de Savimbi, é seguido de uma longa nota explicativa139 na qual a polêmica gira em torno da identificação de quem teria sido o responsável pela morte do líder guerrilheiro (as Forças Armadas Angolanas, a polícia secreta do presidente Eduardo dos Santos, ou, o próprio Savimbi, em um ato de suicídio). A foto que complementa o quadro retrata o corpo de Savimbi com uma perfuração de bala próxima ao pescoço. Nas matérias que compõem a seqüência da capa a atenção recai sobre as versões explicativas da morte do líder da UNITA, o estado de falência e desestruturação no qual se encontrava o movimento guerrilheiro, e a tentativa de estabelecer um elenco das perspectivas reservadas a Angola no período pós-Savimbi (Ribeiro, 28 de fevereiro a 6 de março de 2002: 52- 54; Narciso, 28 de fevereiro a 6 de março de 2002: 54; Serra, 28 de fevereiro a 6 de março de 2002: 55). Porém, a capa concedeu atenção apenas ao evento midiático de maior impacto, e que, novamente, reproduzia imagens da violência e dos conflitos naquele país.

Nas outras duas capas, que completam o segundo grupo temático das “vitrines” de Visão, as abordagens recaem sobre o processo de paz em Moçambique, em 1993, e o genocídio ocorrido em Ruanda, entre abril e maio de 1994. Em Visão de número 22, a capa estabelece um paralelo entre os conflitos pós-independência ocorridos em Moçambique e Angola. À chamada principal, Moçambique: o Fantasma de Angola, segue-se o seguinte texto, Só num ponto o governo de Maputo e a

138 Chamada no início da matéria de “antiga Nova Lisboa” (Júnior, 1993: 34).

139 “Cercado e sem saída, após um mês de perseguição. O líder da UNITA caiu com três dos seus generais.

Uma morte que, em Angola, tem várias verdades. Foi abatido pela secreta de Eduardo dos Santos? Pelas FAA? Ou terá o sido o próprio a matar-se?” (Visão, 28 de fevereiro a 6 de março de 2002).

Renamo estão de acordo: é preciso evitar os erros angolanos. Editada para circular entre os dias 19 e 25 de agosto de 1993, portanto, poucos meses após a edição que retratava o fracasso no processo de paz em Angola, a chamada principal da revista era complementada com a fotografia de uma criança moçambicana com um expressivo olhar interrogativo, indicando a existência de dúvidas em relação às negociações mantidas entre Renamo e o governo moçambicano140.

A capa sugere também que uma espécie de manto comum recobriria aos dois países, como se suas especificidades históricas – do passado e do presente - fossem “varridas para debaixo de um tapete de mesmo tecido”: a instabilidade

política e a incapacidade de articular os setores ou grupos em conflagração. A princípio, os “erros” angolanos só poderiam ser repetidos na própria Angola, e em mais nenhum outro país do mundo, mas a mensagem explicitada por Visão celebra a dúvida, até por que, o único ponto em que estariam em acordo a Renamo e o governo de Maputo, seria a não repetição dos problemas ocorridos nas eleições angolanas de 1992. Entre tantos desacordos esse seria um ponto frágil demais para estabilização do país da costa oriental africana.

Visão, nº 22, 19 a 25 de agosto de 1993.

Já a capa da edição de número 71 de Visão, abordou os eventos dramáticos ocorridos em Ruanda entre os meses de abril e agosto de 1994, iniciados com as mortes dos presidentes Juvenal Habyarimana, de Ruanda, e Cyprien Ntaryamira, do Burundi, membros da etnia hutu, em um atentado ou acidente que derrubou o avião em que ambos viajavam, em 6 de abril daquele ano. A partir daí ocorreram ondas de massacres que levaram a um dos mais assustadores eventos dos anos noventa, o genocídio de cerca de 800 mil tutsi e hutu moderados, em um período inferior a quatro meses141. Com o avanço da Frente Patriótica Ruandense, constituída pelos tutsi, em direção a Kigali, a dramaticidade dos fatos se inverteram. Os hutu, muitos dos quais participantes dos massacres, fugiram em massa para alguns países fronteiriços à Ruanda, principalmente para o Zaire (atual República Democrática do Congo), e acabaram por se estabelecer em caóticos campos de refugiados142.

140 Uma análise panorâmica da guerra civil moçambicana pode ser encontrada no artigo do historiador

moçambicano e professor da Universidade Eduardo Mondlane João Paulo Borges Coelho: ver Coelho (2001).

141 De acordo com os dados revelados pela ONU “no genocídio que se seguiu, entre Abril e Julho de 1994,

foram mortas aproximadamente 800.000 pessoas” (ACNUR, 2000: 255).

No entanto, a chamada da capa de Visão, daquele julho de 1994, revela apenas a última das faces dramáticas desse conflito, mesmo que mencione ao longo no corpo da reportagem as origens dos fatos enfocados. Tanto a chamada principal, Inferno, como a imagem de uma criança hutu sendo carregada por um soldado e um membro dos corpos de ajuda humanitária que atuavam na região dos refugiados no Zaire, explicitam, para além de noticiar um drama humanitário, a incapacidade de boa parte da imprensa mundial da época em aceitar ou perceber o que ocorria em Ruanda.

Se a dimensão numérica das perdas humanas é mencionada de forma desinflacionada pela reportagem, mesmo com os eventos já sendo conhecidos em suas dimensões de maior amplitude e dramaticidade, e, os termos holocausto e apocalipse são empregados pelos autores para

representar o ocorrido, a palavra genocídio foi trocada por “chacina”143 (Facelly, 1994: 32; 37, 39 e 40). Talvez a tendência neste caso fosse a mesma seguida pela imprensa mundial, ou seja, ver o conflito em Ruanda como conseqüência de uma disputa política entre grupos étnicos rivais e não como um ato orquestrado para o extermínio em massa de um desses grupos. Talvez a inoperância da ONU, que retardou sua ação na região, para debater se o que ocorria em Ruanda era um genocídio ou não, tenha freado o espírito de denúncia de parte da imprensa144.

Visão, nº 71, 28 de julho a 3 de agosto de 1994.

No caso de Visão isso fica evidente na chamada secundária da capa, na qual o conflito étnico é novamente esvaziado, tornando o ocorrido em Ruanda muito mais próximo de uma crise política do que um evento marcado pela tentativa de extermínio de um grupo humano: um milhão de ruandeses agoniza no campo de refugiados de Goma, no Zaire. Finalmente chegou a ajuda internacional. Irá a tempo? Esses ruandeses eram membros do grupo étnico hutu, e fugiam das possíveis, e muitas vezes reais, retaliações levados a cabo pelos tutsi. Participantes ou não dos massacres que

143 Sobre um debate conceitual em torno do conceito de genocídio ver Prunier (2007).

144 A própria ONU reconheceu, posteriormente, sua postura inábil e tardia para encontrar uma solução

menos perturbadora para os eventos ocorridos em Ruanda no ano de 1994. Em publicação do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) a organização explicita sua leitura sobre seu papel naquele momento. “As Nações Unidas, num relatório publicado em Dezembro de 1999, analisam a situação e reconhecem que a organização e a comunidade internacional foram incapazes de proteger a população civil do genocídio” (ACNUR, 2000: 255).

conduziram ao genocídio, sua permanência no “inferno” de Goma, não poderia ser explicada apenas por uma questão política ou de identidade nacional.