Vygotski (1991) analisa o desenvolvimento humano por meio da experiência histórica, aquela que os homens produziram ao longo da história humana, como os instrumentos e os signos produzidos por cada cultura e, a experiência social, aquela que tem sido estabelecido na experiência de outra pessoa. Como exemplo, para a experiência histórica, podemos indicar os variados instrumentos produzidos pelo homem. Para a experiência social, podemos indicar aquelas experiências vivenciadas por uma pessoa ou grupo de pessoas, que logo relatam ou deixam testemunhas dessas experiências e o ser humano se apropria , tomando essas experiências individuais como social em outras culturas. Além destas experiências, Vigotsky (1991) indica outra experiência, chamada de duplicada quando ele escreve:
otra cosa que la obligatoria duplicación de la experiencia en el trabajo humano. En el movimiento de las manos y en las modificaciones del material el trabajo repite lo que antes había sido realizado en la mente del trabajador, con modelos semejantes a esos mismos movimientos y a ese mismo material. Esa experiencia duplicada, que permite al hombre desarrollar formas de adaptación activa, no la posee el animal. Denominaremos convencionalmente esta nueva forma de comportamiento experiencia duplicada (VYGOTSKI, 1991, p.46).
O que seria esta experiência duplicada? Esta experiência é imanente no ser humano, ou seja, só ele tem essa capacidade para realizar esta atividade porque tem a consciência desenvolvida, mais que os animais. Esta experiência consiste em que o ser humano consegue antecipar uma situação, um objeto, antes mesmo da realização dessa atividade pensada e conscientizada. O animal não pode realizar esta experiência duplicada, porque carece do fator consciência para poder atingir o objetivo pensando na prática.
Esta experiência duplicada focada por Vygotski (1991) nos mostra que a criança, antes mesmo de ir para a escola, já pode antecipar na consciência certas atividades que lhe ajudarão no seu processo de formação e concretização dos conceitos científicos. Então, a criança, antes mesmo de entrar na escola, já assimilou muitos conteúdos de atividades que não são conteúdos formais, como os conceitos, a linguagem falada etc. Muitas atividades assimiladas e apropriadas pelas crianças na sua forma mais comum lhes servem como os propulsores para provocar novas formas de atividades no seu processo de humanização. Fica claro que os professores não podem afirmar de que a criança quando está pela primeira vez na escola estão sem conhecimentos. As crianças pela influência desse mundo social onde estão inseridas já vão acumulando conhecimento. Não é um conhecimento cientifico, mas é um conhecimento comum que lhe é crucial, importante para a sua própria humanização. Isto nos mostra de que a criança não é igual ao animal, que já vem todo programado geneticamente, biologicamente para viver no mundo. A criança deve assimilar com ajuda do adulto ou de outra pessoa esse mundo humano. Sem a mediação do outro, a criança, com certeza, deixaria de existir.
Por isso, no ser humano esta experiência duplicada lhe é inerente e lhe serve para apropriar-se da atividade em relação à natureza como em relação ao outro ser humano.
A atividade chamada de experiência duplicada por Vygotski (1991) foi enunciada por Marx (1999) para diferenciar a atividade humana da atividade animal, nestes termos:
A aranha realiza operações que lembram o tecelão, e as caixas suspensas que abelhas constroem envergonham o trabalho de muitos arquitetos. Mas até mesmo o pior dos arquitetos difere de início da mais hábil das abelhas, pelo fato de que antes de fazer uma caixa de madeira, ele já a construiu mentalmente. No final do processo do trabalho, ele obtém um resultado que já existia em sua mente antes de começar a construção. O arquiteto não só modifica a forma que foi dada pela natureza, como também realiza um plano que lhe é próprio, definindo os meios, e o caráter da atividade aos quais ele deve subordinar sua vontade (MARX, 1999, p. 211-212).
Verificamos que há uma diferenciação básica entre o ser humano, que tem uma inteligência abstrata, devido a essa capacidade de entender a atividade semiótica e, o animal, que detém uma inteligência concreta, que lhe garante uma capacidade mínima para resolver problemas pertinentes à sua realidade momentânea.
Surge no cenário da vida humana o trabalho, como atividade teórica e prática, pelo qual o ser humano produz o mundo e a si mesmo. O trabalho é uma ação transformadora da realidade humana, porque transforma o psiquismo humano e seu comportamento ao longo do processo do desenvolvimento humano. Fica claro que o animal não realiza o trabalho, porque não produz a sua existência, mas, apenas, no limite da existência, só conserva essa existência. O animal não recria a sua própria existência.
Aranha & Martins (1993) ressaltam que:
O trabalho humano é a ação dirigida por finalidades conscientes, a resposta aos desafios da natureza na luta pela sobrevivência. Ao reproduzir técnicas que outros homens já usaram e ao inventar outras novas, a ação humana se torna fonte de ideias e ao mesmo tempo uma experiência propriamente dita. O trabalho ao mesmo tempo em que transforma a natureza, adaptando-a as necessidades humanas, altera o próprio homem, desenvolvendo suas faculdades, isto significa que pelo trabalho o homem se autoreproduz. O homem muda sua maneira pelas quais age sobre o mundo, estabelecendo relações também mutáveis, que por sua vez alteram sua maneira de perceber, de pensar e de sentir (ARANHA & MARTINS, 1993, p.5)
qual o ser humano realiza constantemente na sua relação com a própria natureza e com outros homens. Só o ser humano, pela consciência desenvolvida que tem, reproduz técnicas que o ajudarão a transformar a si próprio, criando necessidades como forma de desenvolvimento. As necessidades que surgem como resultados das ideias da ação da atividade humana fazem com que o ser humano seja um ser em constante desenvolvimento. O psiquismo humano adquire capacidade de produzir e reproduzir formas objetivas da formação da totalidade do ser humano. Este conceito de trabalho nos levará a analisar a questão do desenvolvimento cultural como a expressão superior da ação da consciência sobre o mundo concreto e real.
Agora, precisamos avançar mais na nossa análise sobre os demais pressupostos teóricos de escola vigotskyana, não basta só compreender que a consciência é um produto cultural e já acharmos que o problema está resolvido. Indicar a consciência como resultado da ação histórico-cultural nos está mostrando de que maneira o materialismo histórico-dialético, defendido por todos os integrantes da escola de Vigotsky, representa a saída para muitos problemas concebidos como problemas biológicos ou naturais na vida escolar.
Leontiev (1978) indica que o trabalho é uma ação humana que surge quando o ser humano chega a um ponto tão alto de desenvolvimento do seu psiquismo. Neste sentido, o animal não realiza o trabalho, porque não tem um psiquismo desenvolvido.
O animal não realiza o que é o trabalho, só consegue realizar certas ações como resposta aos estímulos que ele recebe ou experimenta. Essas ações que o animal realiza estão só no plano instintivo, não no plano psíquico, porque não têm esse plano.
Por isso, Leontiev (1978) diz que:
O trabalho é um processo que liga o homem à natureza, o processo de ação do homem sobre a natureza. [...] O trabalho é, portanto, desde a sua origem, um processo mediatizado simultaneamente pelo instrumento (em sentido lato) e pela sociedade (LEONTIEV, 1978, p.74).
O trabalho humano se caracteriza por duas significações: Primeiramente, ele relaciona o homem à natureza. Mas, não é uma relação superficial, e sim, uma relação onde o ser humano transforma a natureza graças ao desenvolvimento de seu psiquismo e, dialeticamente, quando transforma a natureza, também, o próprio ser humano se transforma. Neste sentido podemos afirmar que a própria natureza é humanizante, ou
seja, todos os objetos naturais são humanizantes. Quando falamos da transformação não estamos falando num sentido quantitativo, senão qualitativo. O ser humano se objetiva na natureza como o ser mais desenvolvido, porque a própria natureza é uma mediação para o seu desenvolvimento histórico-cultural. Segundo, o trabalho é uma atividade que se concretiza na coletividade humana, no social. O trabalho, como coletivo, se mediatiza por meio da própria comunicação que faz que os indivíduos se relacionem entre si para superar o indivíduo em si para uma forma de individuo para si. Então, o trabalho, por ser social e histórico, transforma qualitativamente o ser humano.
Agora, para compreender a teoria de Vigotsky, devemos falar sobre a atividade mediada por meio de signos e ferramentas.
Como o trabalho é coletivo, social, o homem cria instrumentos ou ferramentas e signos como mediadores para transformar a natureza e para transformarem-se a si próprios.
Vygotski (1996) desenvolve a teoria da atividade mediadora usando o conceito de trabalho que Marx (1999 e 2008) desenvolveu para mostrar que o trabalho em si é o responsável do processo de desenvolvimento humano.
Vygotski (1996) afirma o seguinte sobre signos e ferramentas, desta forma:
Por medio de la herramienta el hombre influye sobre el objeto de su actividad la herramienta está dirigida hacia fuera: debe provocar unos u otros cambios en el objeto. Es el medio de la actividad exterior del hombre, orientado a modificar la naturaleza. El signo no modifica nada en el objeto de la operación sicológica: es el medio del que se vale el hombre para influir psicológicamente, bien en su propia conducta, bien en la de los demás; es un medio para su actividad interior, dirigida a dominar el propio ser humano: el signo está orientado hacia dentro (VYGOTSKI, 1996, p.94)
A ferramenta em si mesma é o resultado da própria atividade humana concretizada no trabalho. Por meio da ferramenta, o ser humano modifica a própria natureza e ele próprio se modifica. Significa que a ferramenta é mediadora do próprio processo de transformação da natureza e do ser humano.
O signo tem essa função de modificar o ser humano na sua própria essência. O signo atua no interior do ser humano, possibilitando a superação da contradição que se dá no próprio ser humano. O signo, como atividade mediadora, possibilita essa revolução intrínseca no próprio ser humano.
Neste sentido é muito importante compreender de que o signo modifica a própria consciência humana. Modificando essa consciência, o ser humano começa a superar o seu estado biológico para chegar ao estado do processo de humanização. A modificação da consciência pelos signos nos indica de que:
El signo opera inicialmente en la conducta infantil como un medio de relación social, como una función interpsíquica. Posteriormente se convierte en un medio por el que el niño controla su conducta de modo de que el signo simplemente transfiere al interior de la personalidad la actitud social hacia el sujeto (VYGOTSKI & LURIA, 2007, p.51)
O signo é uma função interpsíquica, já que modifica o interior do ser humano e porque atua como função mediadora no desenvolvimento histórico-cultural da própria conduta do ser humano.
Importante indicar que para Vygotski (2006) a linguagem, tanto interior, escrita e falada, constitui um dos maiores signos que modifica interiormente o ser humano no seu processo de desenvolvimento.
Vygotski (1996) indica de que a criança no seu processo de desenvolvimento das funções psíquicas superiores vai ampliando o seu vocabulário quando vai compreendendo e apropriando-se do significado dos signos que ela adquire na mediação do adulto ou das ferramentas mediadoras. Nessa mediação a criança vai descobrindo a função simbólica da linguagem que lhe permite ao longo desse processo de apropriação e assimilação compreender a funcionalidade dos signos e suas relações com o significado cultural.
Também, Vygotski (1993, p. 21) sobre a linguagem como signo afirma: “El lenguaje es ante todo un medio de comunicación social, un medio de expresión y comprensión”.
Agora, Leontiev (1978), também, analisa a questão do instrumento desta forma:
O instrumento é, portanto, um objecto com o qual se realiza uma acção de trabalho, operações de trabalho. [...] O instrumento não é apenas um objecto de forma particular, de propriedades físicas feterminadas; é também um objecto social, isto é, tendo um certo modo de emprego, elaborado socialmente no decurso do trabalho colectivo e atribuido a ele. [...] O instrumento é um objecto social, o produto de uma prática social, de uma experiência social de trabalho (LEONTIEV, 1978, p. 82-83)
A criação de instrumentos e seu uso só são possíveis porque o ser humano tem essa capacidade psíquica de fabricar e dar uma função social, humana ao instrumento criado para ajudar na mediação da transformação da natureza e a si próprio como ser humano.
A criação de instrumentos pelo ser humano não é para fazer uma operação como a realizam os animais. Os animais também usam instrumentos, mas, eles não criam os instrumentos, não tem uma função social e não são criados no social, na forma coletiva. O ser humano se humaniza por meio do domínio do instrumento. É bom ressaltar neste ponto de que o objeto em si não transmite nada para o ser humano, apesar de que o objeto tem essa capacidade de reflexo na natureza. Mas, devemos ter cuidado com esta afirmação, porque ao afirmarmos que a matéria tem reflexo, estamos indicando que cada matéria em si tem essa capacidade objetiva de estar na natureza. Por exemplo, toda a matéria é cognoscível, porque não é uma invenção da consciência humana. Cada objeto material é real e concreto, porém, apesar da existência objetiva, concreta e real na natureza, não significa que esse objeto material possa se comunicar com o ser humano. Só o ser humano tem essa capacidade de apropriar-se do objeto na sua forma racional e objetiva, graças ao seu psiquismo.
O instrumento como produto de uma prática social, de uma determinada época e contexto histórico e cultural, não tem só um significado de pertença ao passado de uma geração precedente. O instrumento como social indica que esses instrumentos carregam a função social determinada por uma coletividade para uma finalidade única e exclusiva. O objeto em si não tem sentido nem se objetiva no ser humano porque não tem consciência em si. A objetivação parte do ser humano, por isso, ele precisa assimilar e internalizar a função social que possui cada objeto. Por exemplo, se um sujeito de uma tribo indígena nunca assimilou ou, captou o significado do uso de um computador, ele usaria esse computador de acordo com a função social que ele lhe determina. Ele usaria como cadeira, como mesa, como altar, como uma manifestação dos deuses, etc. Por isso, o objeto em si, apesar de ter essa capacidade de reflexo, não significa que tenha a capacidade de transmitir essa função social. Só o ser humano pelo seu psiquismo altamente desenvolvido pode assimilar e internalizar a função social que tem cada objeto.
4.3 A cultura como atividade mediadora para desenvolvimento do psiquismo