A fim de conhecer a relação que os aprendentes estabeleceram com a L1, neste caso a língua portuguesa, ao longo de sua escolarização, aplicamos a ficha diagnóstica “Eu e minha língua materna” no início do curso “Leitura Plurilíngue”. A L1 assume um papel central quando se trata de Intercompreensão. Segundo Carrington (2011:123), na aprendizagem de línguas estrangeiras aparentadas, a L1 assume os papéis de “trampolim cognitivo” e de “trampolim afetivo”. A relação positiva ou negativa com a L1 pode significar maior ou menor receptividade ao aprendizado de línguas estrangeiras da mesma família.
Inicialmente, foi pedido que os participantes escolhessem ao menos três aspectos, de uma lista de nove (Quadro 2791), que caracterizariam uma língua fácil; e o mesmo foi solicitado em relação à lista que caracterizava uma língua difícil. Abaixo o quadro com as respostas (destacamos as mais recorrentes):
Uma língua fácil é... Uma língua difícil é...
9 próxima da LM 4 distante da LM
7 aquela com a qual se tem contato
frequentemente 6 aquela com a qual se tem contato esporadicamente
2 aquela cuja aprendizagem se inicia mais cedo
3 aquela que se aprende mais tarde
5 aquela de que se gosta 4 aquela que não tem palavras parecidas com as da LM
6 aquela que tem palavras parecidas com as
da LM 10 aquela que apresenta uma gramática complicada
6 aquela que apresenta uma gramática
simples 8 aquela que apresenta muitas dificuldades de pronúncia
0 aquela que tem sons mais bonitos 1 aquela que não tem alfabeto
8 aquela que apresenta menos
dificuldades de pronúncia 6 aquela que tem um alfabeto diferente
2 aquela que apresenta uma componente cultural próxima da LM
3 aquela que apresenta menos afinidades culturais com a LM
Quadro 27 – Língua fácil e difícil: características
De acordo com as respostas, podemos notar que “contribuem” para a percepção do nível de dificuldade das línguas estrangeiras, sobretudo, fatores como a proximidade com a L1, a pronúncia, a complexidade da gramática e as situações de contato com as línguas. Aliás, a complexidade da gramática foi o fator mais lembrado pelos aprendentes quando foram questionados se o português era uma língua difícil (“o português é uma língua difícil de aprender?”). Os participantes deveriam responder sim ou não e por que. Dos 15 estudantes que preencheram esta ficha diagnóstica, 12 responderam “sim”, 2 afirmaram que “não” e 1 não respondeu. O Quadro 28 mostra alguns argumentos usados para justificar a dificuldade de aprendizagem do português.
“A língua portuguesa tem uma gramática muito ampla, e sofre com a mudança, como a da nova ortografia” (B.G.,16)
“É cheia de regras e de gramáticas, até para quem mora e nasce no Brasil” (T.R.,16) “Para quem não o tem como LM, existem muitas regras difíceis de conciliar, muitas vezes até para quem já fala português” (I.M.,16)
“O português é um idioma com muitas normas e regras de concordância, gramaticais
e de pronúncia” (J.H.,16)
“Porque, em comparação com outras línguas, suas formas gramaticais são muito mais ricas e complicadas, apesar do contato frequente e de ser uma LM” (V.R.,16)
“Porque é uma língua super elaborada com diversos tempos e conjugações verbais, porém, para nativos, o domínio é um quesito mínimo” (E.B.,17)
“Existem muitas normas gramaticais, é muito complexo entender” (F.B.,15)
“Porque possui muitas regras gramaticais complexas, pronúncia complicada, acentos e diversas palavras que possuem apenas um significado” (R.S.,16)
“Em comparação com as outras línguas ela é mais difícil, por causa da gramática também” (S.P.,16)
“Porque tem várias regras gramaticais a serem seguidas” (R.M.,16) Quadro 28 – Percepção da dificuldade de aprendizagem do português (L1)
Podemos observar, a partir das respostas, que a questão gramatical é muito relevante para este grupo de participantes, que salienta, em geral, a complexidade/dificuldade das regras gramaticais, o que poderia indicar uma percepção negativa em relação à L1. Como mencionamos anteriormente, no curso “Leitura Plurilíngue” vamos trabalhar as questões gramaticais das línguas de forma diferenciada, a partir do que os textos nos oferecem, estimulando as reflexões contrastivas com base na L1. Segundo Blanche-Benveniste e Valli (1997:33), “em um primeiro momento pode-se colocar de lado certas questões gramaticais que não bloqueiam a compreensão”.
Questionamos também se os participantes aceitariam ter outra L1, e 10 entre 15 responderam afirmativamente: (7) inglês, (2) espanhol e (1) francês. As justificativas mais recorrentes entre os participantes que escolheram o inglês são: a questão da universalidade do uso desta LE e o “baixo poder” de comunicação do português:
“Ela é mais usada hoje em dia” (S.P.,16)
“É importante aprendê-la, pois é considerada mundial” (F.B.,15) “É uma língua universal de formas gramaticais simples” (V.R.,16) “Gostaria de poder me comunicar melhor no mundo” (J.H.,16) “[...] muitas pessoas não falam a mesma língua que nós” (V.R.,16) “Escolheria uma língua mais falada” (C.M.,16)
“Acho a língua portuguesa uma língua muito complexa e não muito conhecida de outros povos” (B.G.,16).
Quadro 29 – Justificativas para desejar o inglês como L1
Os dados coletados nas fichas diagnósticas, e apresentados anteriormente sob três aspectos que entendemos poder influenciar a formação em IC e, consequentemente, o desenvolvimento da competência de leitura plurilíngue, nos mostram, resumidamente, que a
maioria dos participantes desta pesquisa são jovens que têm uma biografia linguística limitada às experiências que lhes foram proporcionadas pela instituição escolar, e têm ciência da importância da aprendizagem de línguas estrangeiras no mundo de hoje. Sua representação sobre a utilidade das LE indica que eles desejam empregar seu tempo e esforço na aprendizagem de línguas “úteis” (mais usadas e faladas atualmente), o que deixaria em desvantagem as línguas românicas, que vêm perdendo espaço, e status, para o inglês (língua franca). Porém, neste grupo, ao longo da formação, não percebemos a influência negativa destas representações, e sim a atitude (intencionalidade) de “locutores profanos” no sentido de fazer evoluir seu repertório linguístico e sua concepção “estanque” da língua materna. Esta atitude é decisiva para o leitor plurilíngue, que é um tipo de leitor que percebe o continuum de línguas e se serve dele de maneira reflexiva, metacognitiva.