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Das peculiaridades de que temos conhecimento através da análise, tomamos como nosso ponto de partida os processos psíquicos inconscientes. Consideramos esses os mais antigos, os processos psíquicos primários, remanescentes de uma fase do desenvolvimento em que havia apenas um tipo de processo. Os processos primários seguem uma tendência facilmente identificável que chamamos de princípio do prazer-desprazer ou simplesmente princípio do prazer. Tais processos buscam ganhar prazer; nossa atividade psíquica evita qualquer ação que possa suscitar o desprazer. Em nossos sonhos noturnos, ou mesmo durante a vigília há uma tendência a evitar as impressões de dor, o que é um vestígio da regra desse princípio e uma evidência de seu poder.1
Para Freud, a fantasia, bem como o sonho noturno, encontram-se sob a regência dos processos psíquicos primários. Ainda que um novo princípio tenha emergido e funcione segundo processos secundários, a fantasia segue obedecendo a regras inconscientes, ou seja, permanece submetida somente ao princípio do prazer e se comporta como um sonho diurno. O “fantasiar” teve seu início juntamente com os jogos infantis: é tomado como um tipo de pensamento à parte, que não abandona o modo alucinatório de obter prazer nem o substitui pelo modo real ou pelo modo que se encontra submetido ao princípio de realidade.
Uma explicação dessa manutenção seria que
a transição do princípio do prazer para o de realidade [...] não é alcançada de uma única vez, nem de maneira uniforme. Enquanto as pulsões do ego são submetidas ao desenvolvimento, as pulsões sexuais divergem de modo significativo. As pulsões sexuais se portam inicialmente de maneira auto-erótica, encontrando satisfação no próprio corpo do indivíduo e, deste modo, sem experimentar um estado de frustração que conduziria ao princípio de realidade. Posteriormente, quando estão à procura de um objeto, essas prontamente são interrompidas pelo período de latência, o que retarda o desenvolvimento sexual até a puberdade.2
Resulta do embate dessas duas frentes pulsionais, por um lado, uma obediência ao princípio de realidade, dado que as pulsões de auto-conservação são precocemente submetidas à frustração e, portanto, impelidas a abandonar o prazer alucinatório e substituí-lo por um prazer real; e, por outro lado, que as pulsões sexuais continuam a obter prazer alucinatoriamente durante todo o período infantil, já que não passam pela desilusão, uma vez que obtêm sua satisfação no próprio corpo e são submetidas ao princípio de realidade apenas tardiamente, ou mesmo em alguns casos patológicos, simplesmente não há submissão de nenhum modo a este último princípio.
Ainda que o aparelho psíquico se encontre sujeito ao princípio de realidade, isso não significa dizer que houve uma renúncia ao prazer, mas um adiamento deste, o prazer incerto e passível de frustração é postergado e em troca tem-se um prazer tardio e seguro.
Uma busca alucinatória de satisfação, ou busca primária de satisfação, implica num modo particular de repetição das vivências originárias, ou, como explica Mezan, “a sucção do seio materno se converte no protótipo de todas as outras relações de amor”.3 A existência de
uma realidade exterior, com a qual o ego-de-prazer tem de se haver, impede o êxito exclusivo do princípio do prazer que quer recobrar a satisfação perdida. Como foi dito no segundo capítulo, “somente a ausência de uma satisfação esperada, de um desengano, teria
2 Freud, S. “Formulations on the two principles of psychic functioning” in The penguin Freud reader, p. 416 3 Mezan, R. Freud: A trama dos conceitos, p. 136
como conseqüência o abandono da intenção dessa satisfação por via alucinatória”.4 É então a
partir desse desengano que se tem a instauração do princípio de realidade, ou ao menos um marco que possibilitaria o seu aparecimento. Se, no entanto, não temos um êxito exclusivo do princípio do prazer, esse último reina absoluto nos processos inconscientes, bem como impulsiona os processos conscientes do aparelho psíquico no sentido da obtenção de prazer. Veremos a seguir, reforçando a idéia do segundo capítulo, como a fantasia individual, assim que se torna uma classe de pensamentos à parte, impulsiona o jogo infantil e a obra artística. “A descarga motora que se encontra a serviço do princípio do prazer”5 tem como
finalidade diminuir a tensão do aparelho psíquico causada pelo aumento de estímulos. Com a instauração do princípio de realidade e o vigor característico dos processos secundários, a descarga motora ganha um sentido, transforma-se em ação (de modificação do mundo exterior), o que tem como conseqüência o próprio pensamento. A partir de um ato reflexo, formamos uma representação desse ato, e com a intencionalidade do ato motor, a representação do ato reflexo passa a ser investida, o que significa gerar um pensamento para a realização do ato motor. Dizendo de outra maneira, o pensamento em geral nada mais é que uma preparação necessária para que o ato motor voluntário aconteça. Dessa maneira, vemos que a formulação de um pensamento parte do processo secundário. Mas este último ocorre quando o aparelho psíquico encontra-se ainda no início de sua formação e se desenvolve gradualmente. De um modo geral, o pensamento inicia-se “como um rodeio” do ato motor, isto é, como uma preparação de uma ação voluntária que envolve o investimento de uma recordação de movimento até que ela seja novamente alcançada pela representação formada uma vez que o movimento já tenha ocorrido.6
4 Freud, S. “Formulaciones sobre los dos principios del acaecer psíquico” in Sobre un caso de paranoia descrito autobiográficamente (Schreber); Trabajos sobre técnica psicoanalítica y otras obras (1911-1913), v. XII, p. 224
5 Freud, S. “Formulations on the two principles of psychic functioning” in The penguin Freud reader, p. 416 6 Cf. Freud, S. “La interpretacíon de los sueños” in La interpretacíon de los sueños (segunda parte); Sobre el sueño (1900-
Dissemos anteriormente que há uma classe de pensamentos que não se encontra submetida ao princípio de realidade: o fantasiar; e a fantasia, na vida adulta, é “a continuação, o substituto do jogo infantil de outrora”. Em O criador literário e a atividade imaginativa, Freud diz que a criança brinca de maneira intensa, investe na brincadeira uma grande quantidade de afeto, que o jogo talvez seja a “ocupação mais cara e mais intensa” à criança, e que talvez devêssemos buscar já na infância os primeiros traços de uma atividade literária. 7
A criança brinca se apoiando na realidade e pode utilizá-la de numerosas maneiras, por exemplo, como parte integrante, como cenário, como figurante, até mesmo como ator principal, mas a realidade, independentemente de seu papel, se encontra sempre em oposição ao seu brincar, pois a criança sabe distinguir bem, em sua brincadeira, o que faz parte da realidade e o que faz parte de sua imaginação criadora. Ao apoiar na realidade a brincadeira, ou jogo, a criança insere o que é real em seu mundo imaginativo, como se, ao apropriar-se dessa realidade, exterior pudesse submetê-la às regras de sua própria brincadeira. Ora, diz Freud, “o criador literário faz a mesma coisa que a criança que joga”.8 Isso quer dizer que o
criador literário, ou artista, se apóia na realidade, para criar “sua arte” ao criar um mundo imaginário em que ele investe grande quantidade de afeto e o qual é tomado seriamente.
Um indivíduo na vida adulta já não brinca, mas permanece capaz de escapar à censura dos desejos inconscientes pela realidade por meio de fantasias individuais por meio de um mundo imaginativo, seu conhecido de outrora, e que ele recria ao se escorar na própria realidade. Segundo Freud, “quem conhece a vida psíquica do homem sabe que quase nada é tão difícil quanto renunciar ao prazer uma vez obtido.”9 Isso significa dizer que mesmo que
na vida adulta haja uma renúncia ao prazer da brincadeira, esta é apenas aparente, pois temos notícias dele através de lembranças infantis, de sonhos diurnos que remetem às fantasias individuais. Comentando esse ponto. Paul Ricoeur, em Escritos e conferências em torno da
7 Freud, S. « L’inquietante étrangeté » in L’inquietante étrangeté et autres textes, p. 239 8 Freud, S. « L’inquietante étrangeté » in L’inquietante étrangeté et autres textes, p. 236 9 Idem
psicanálise, lembra que as próprias lembranças da infância, enquanto substitutos de vivências infantis, não são outra coisa que traduções de texto, versões de originais que não nos são fornecidos, o que nos leva a crer que a substituição de uma vivência por uma lembrança da mesma já é um estofo primitivo do fantástico.10 As fantasias, ao substituírem o jogo infantil,
seriam um sucedâneo que possibilita a satisfação dos desejos não alcançados na realidade, desejos que por sua vez são as verdadeiras fontes de fantasias: “cada fantasia particular é o cumprimento de um desejo, um corretivo da realidade não satisfeita.”11 Ainda segundo
Ricoeur, podemos dizer que a obra de arte não se limita a exigir um objeto de desejo, ela exige o cumprimento desse desejo, pois a mera fantasia já é o substituto de um significado ausente; a presença deste seria dada na criação artística.12